
Impossível não se apaixonar pela história de Gretta Star. Transformista? Travesti? Transsexual? Definições à parte, Gretta é uma das maiores artistas da noite paulistana. Ela está nela há 30 anos e continua sorrindo, sempre bela e querida.
Ela nunca subiu ao palco sem saber o que iria desempenhar. Fez aula de dança, interpretação e, como dominava a língua inglesa, sabia o que estava dublando. Pesquisava as cantoras, autores das músicas e assistia a filmes e fitas de shows, muitas originais de shows da Broadway.
Nunca parou de estudar e chegou a se formar como Tradutor e Intéprete na faculdade Ibero-Americana em São Paulo. Várias empresas permitiram que ela se candidatasse a vagas de emprego sem saber da verdadeira identidade. Passava em todas as fases até os psicotestes. Era reprovada por não "se encaixar nos requisitos". Desculpas esfarrapadas que consumiam Greta por dentro.
Foi a uma grande editora fazer um teste e depois de passar por várias etapas levaram-na à direção e perguntaram se ela fosse admitida, que banheiro deveria usar. Desprotegida e sem ação, saiu correndo ao som de gargalhadas. Engoliu tudo.
Viajou pelo mundo e encheu dois passaportes inteiros de vistos. Ficou quase dois anos pelo Oriente e Ásia, esteve na Inglaterra, fez show para príncipes no Brunei, no iate do Rei da Suécia e se enfiou em cruzeiro pelo Rio Amazonas. Japão, Coréia, China, Inglaterra, Emirados Árabes e França são alguns dos países em que se apresentou na década de 80, mostrando seu show essencialmente brasileiro. Com um vestido de estampa reproduzindo o calçadão de Copacabana, uma k7 com “Garota de Ipanema” na bolsa e um rolo de Super-8 que exibia nas casas noturnas para trabalhar, Gretta viveu como estrela.
Mas antes de chegar ao Japão, onde morou por dois anos, apresentando-se com enorme sucesso em várias casas noturnas e percorrendo o Oriente quase todo com seu show, Gretta fez sua carreira aqui no Brasil.
Engana-se quem pensa que ela surgiu em São Paulo, como tantas outras. Gretta nasceu no litoral paulista, mais especificamente em São Vicente, no clube Pink Panther, em meados dos anos 70. “Minha madrinha na noite como artista foi Tânia Star, por isso meu sobrenome, ela era minha incentivadora, minha amiga querida.”, conta. Nessa época, Gretta foi Miss Santos Gay 1978, ganhou destaque no jornal Tribuna de Santos com uma foto sua com o título de Miss e decidiu que devia participar do Miss São Paulo Gay.
Em seu charmoso apartamento no centro de São Paulo, ela falou abertamente sobre sua vida, seu trabalho e seus projetos futuros. Veja os trechos mais legais da conversa:
Como foi o amadurecimento da consciência de que você era "diferente" na sua infância e adolescência? Como você lidava com isso na escola e em casa?Acho que fui até mesmo um tanto "retardada" nessa passagem, pois aconteceu tudo muito naturalmente: ou porque a família negava-se a enxergar o que estava claro ou por eu mesma não ter tido alguma referência do que era eu ser homem ou "viadinho" (como se falava na época).
Fiz tudo o que um menino faz e tudo o que uma menina também faz. Não me tocava se havia repreensão da família ou amigos, por isso que disse que acho que era "retardada". Na escola, sempre fui uma boa aluna e muito inteligente para todas as matérias. E eu era caricata, palhaçona e divertida. Sobressaía-me assim. No teatro da escola fiz personagens masculinos, mas os femininos eram os em que me saia melhor... E daí é que tudo se misturou num caldeirão e saiu o que sou hoje
Quando você começou a tomar hormônios? Sua transformação foi feita de que forma? Faço hormonoterapia desde os 20 anos. É lógico que agora não tanto, pois o que tinha de transformar já transformou. Fiz sim vários reparos com silicone, mas não o industrial, o cirúrgico, a que poucos têm acesso por ser muito caro. Apenas uma pessoa trabalha com esse produto aqui no Brasil, a minha amiga Terta, que tem feito um bom trabalho em mim e em todas que caíram em suas mãos, mas é bem caro...
Como as travestis são tratadas em outros países?Em uns com mais respeito, em outros com algum respeito (o nosso, por exemplo) e em outros sem respeito nenhum. Certos tópicos são valorizados mais aqui, outros menos ali... Dois exemplos são o Irã e o Egito, países muçulmanos. Os gays são perseguidos até com pena de morte, porém se algum transexual for descoberto, o governo se encarregará de dar toda a assistência médica e psicológica e até cirurgia gratuita. Pode acreditar.
A escolha de elas viverem ou não em seu país fica por conta delas próprias. Isso porque depois terão que viver como mulheres, e lá as mulheres estão em sua grande maioria em segundo plano, todos sabem disso. Na Europa, assim como no Japão, Austrália e EUA, elas estão em grande vantagem, digo, bastante avançadas, pois vão tomando conta de seus direitos e lutam por eles. Já aqui é aquela coisa: pão, circo, carnaval e camisinha, tá óootimo, como diz minha amiga Silvetty Montilla... e não tem união!
FamíliaSou a caçula da casa. Tenho mais dois irmãos, Eliana e Sílvio. Meu pai era farmacêutico da Marinha de Santos e também teve por muitos anos uma famosa farmácia em Santos chamada Martins Fontes.
Desde novinha meus pais perceberam que eu seria diferente. Tive uma vida familiar maravilhosa, com problemas como qualquer uma família tem mas com muito amor e respeito. Eu me sinto abençoada por ter tido uma família e uma formação tão boas. Como estudante, não deixava que nenhum tipo de manifestação preconceituosa me abalasse, sempre fui meio debochada e não levava adiante provocações e coisas do tipo. Entretanto, não posso dizer que não fui discriminada, mas não me afetei por isso e vivi muito bem entre os colegas, do jardim da infância até a faculdade.
AviaçãoTenho paixão pela aviação, amor seria a palavra correta. Sei tudo sobre aviação. Acredita que hoje existem três comissárias de bordo transexuais e – pasmem! – uma piloto trans na American Airlines? O contraditório é que mesmo com todo esse meu amor pela aviação, morro de medo de avião, viajo sempre tensa. Engraçado, não é?
MissAdoro concursos de Miss, acompanho desde mocinha. Fui Miss Santos Gay em 1978 e também Miss Universo, representando os Estados Unidos na mesma época. Foi daí que minha família descobriu a Gretta, antes eu era mais discreta em relação a minha vida de artista da noite em casa. Foi um babado!
Saiu uma foto minha com um comentário meu em uma revista e minha mãe leu. Antes ela tinha visto outras fotos minhas na Veja e na Fatos e Fotos e nem tinha percebido, mas nessa entrevista eu disse meu nome de registro e batismo. Erasmo! E aí assumi Gretta de vez em casa. O júri do Miss Universo era um babado: Wanderléia, Rosemary, Wilza Carla... imagina?!
Hoje existe um "mundo LGBT" mais escancarado, no bom sentido. Ainda assim, as travestis são muito discriminadas e vivem isoladas. Como você vê isso?Isso é muito complexo e me traz diferentes definições. Acho que a sociedade é culpada, sim, dessa discriminação e isolamento. É o medo dos pais quando começam a criar seus filhos e colocam na cabecinha deles que "aquilo" é uma vergonha, um descaramento e um exemplo negativo de vida. O pior de tudo vem depois com a imagem. Muitas ficam tão lindas que a beleza agride.
Quem são os que mais agridem? Os próprios "gays" não assumidos (os piores) e assumidos – esses são um terror para nós: vão sempre precisar de uma trans para apontar e difamar (e dão o rabo por debaixo dos panos). É isso o que sempre achei. Por isso há a discriminação de muitas de nós em ocupar cargos ou posições importantes.
Imaginem o que Roberta Close não passou quando tentou lançar seu livro de memórias? Foi convidada várias vezes para se retirar do país... Aff!!
Você estudou, formou-se e viajou pelo mundo. Em quais lugares você já esteve?Comecei minha viagem pelo mundo durante uma audição do show de Rosemary pelas Américas. Dos Estados Unidos, fui parar no Japão, onde fiquei por um bom tempo. Dali saí pela Ásia, com uma fita VHS debaixo do braço, dois vestidos e um par de sapatos enfiado numa bolsa. Com cara de pau e coragem, me apresentava às casas noturnas mostrando o que sabia fazer. Uns me aceitavam, outros não, mas eu era danada me virava de algum jeito.
Cheguei a trabalhar até na “Rosary Church”, uma igreja católica em Hong Kong (distribuindo santinho, pode?) em troca de um lugar pra dormir e todas as refeições... Aprendi tanto que você nem imagina!
Fui depois para Filipinas, China, Taiwan, Coréia, Macau, Tailândia, Malásia, Indonésia, Brunei, Perth (na Austrália), Índia, Emirados Árabes, Inglaterra, Luxemburgo, Bélgica... Sempre pulando de um lugar pro outro, ganhando passagens, trabalhando, fazendo shows, "atendendo" (não tava morta)... Falando inglês (que eu domino), um pouco de francês com espanhol, japonês... Uma salada de Babel.
JapãoMorei dois anos e meio no Japão, trabalhando em casas noturnas como showgirl e hostess. Através desses trabalhos viajei quase o Oriente todo. Fiz shows até nos Emirados Árabes! Meu patrão, o Sr. Nakamura era um homem muito gentil e me adorava. Ele me deu trabalhos ótimos mas nem tudo foi maravilhoso. Também tive péssimos trabalhos lá fora e aqui. Na época em que morei no Japão ainda não tinha tido o boom de brasileiros dekasseguis lá, a maioria dos brasileiros que eu encontrava lá ou eram estudantes ou artistas.
Quando eu precisei me virar lá fora, saía procurando trabalho em casas de shows com uma bolsa onde eu carregava um rolo de filme Super-8 com dois shows meus gravados aqui no Brasil, um vestido com uma estampa que remetia ao calçadão de Copacabana e um k7 com a música “Garota de Ipanema” pra eu cantar. Que delícia!
Fatos e FotosUma capa da revista Fatos e Fotos trazia em destaque a prisão de várias travestis que eram as maiores estrelas da noite. Vivíamos a repressão dos anos 70, essa coisa toda. Lembro que foi vendo essa revista que me dei conta de quem eu era, sabe? Uma delas me trouxe mais consciência de que não podia viver jamais como um homem.
Um assunto delicado, porém que tem o papel de esclarecer outras pessoas. Quando você se tornou portadora do vírus do HIV e como descobriu?
Eu descobri desconfiando... Ficava vendo e me amargurando com a perda de tantos colegas e amigos em minha volta e me perguntava: ‘Por que eu me livrei disso?’ Essa questão me maltratou por anos, sem que eu tivesse coragem de averiguar, até que em 1999 tive sérios problemas como várias infecções e então se constatou o HIV+. Mas já era tarde, quanto aos sofrimentos que teria de passar com essas infecções... Foi muito duro, para mim e para minha família, sim! Perdi amigos (não eram amigos!!), apartamento e meu grande amor. O mundo fez-se um buraco sob meus pés, mas foi minha família e alguns cinco anjos da guarda que me seguraram e não me deixaram entregar-me.
Então veio a luta, a coragem de menina que sempre tive, e virei o jogo. Faço uso do coquetel com o qual tive uma adesão fora do normal e tenho uma vida de muito melhor qualidade, em todos os sentidos. Sou uma das mascotes do CRT-DST AIDS de São Paulo e já dei várias entrevistas sobre o tema inclusive online e via satélite para CNN, BBC, NHK... e por aí vai. E guardem isso: foi assim que afastei os meus fantasmas.
NoiteSaí a primeira vez e fui a uma sauna com um grupo de amigas que mais tarde se tornaram travestis também, fomos na Sauna Castelinho, na Penha. Mas as saunas eram diferentes do que são hoje em dia, não tinham shows e go-gos. Era só banho-turco e mais nada.
Depois conheci o Medieval – clássico clube gay paulistano dos anos 70 e 80 –, ia sempre ver os shows das transformistas: Brigída Barda, Miss Biá, Veneza, Ira Velasquez, Tânia Star, eram alguns nomes. Tinha tantas que eu levaria horas falando de cada uma pra você, todas tiveram seu papel relevante. Nós fazíamos shows pelo Brasil todo e eram shows lindos que hoje você vê em poucos lugares. Sinto a necessidade de mostrar para todas as transexuais e travestis mais jovens que estão aí quem fomos, nossa importância e que não era só de prostituição que se fez nossas vidas. Éramos acima de tudo artistas.
Pra fecharmos a entrevista, Gretta abriu seu imenso arquivo de fotos e ilustrou tudo o que havia me contado e disse já ter chorado muito vendo aquelas fotos. São mais de mil fotos que registram não somente sua vida, mas uma parte enorme da noite paulista gay nos últimos 30 anos.
“Já chorei muito olhando essas fotos, mas isso foi só um momento de saudosismo que tive um tempo atrás, eu olho pra frente. Tenho projetos e muito trabalho com que me ocupar. Tem o “Segunda Acontece”, também um curta-metragem do cineasta René Guerra para ser lançado que se chama “Os Sapatos de Aristeu”, além de minhas noites de sábado na Freedom. Ufa! E muito mais...
Rapidinha com Gretta:Cidade favorita: Hong Kong (no mundo) e Santos (no Brasil).
Ídolo: alguém de quem tenho muito respeito, minha mãe.
Decepção: alguém que deixou o meu carinho e amizade pelo sucesso.
Sonho: visitar os mesmo lugares onde sofri e fui feliz...
Mico: tirar a toda a roupa diante de policiais femininas em Taiwan.
Livro: Menino do Engenho, de José Lins do Rego.
Programa de TV: qualquer um da televisão paga, por exemplo "Saia Justa".
Música: sou eclética, mas as que ainda me fazem chorar: "Stranger in the Night", "Moon River", "The Long as Wind Road", "Go West" e "Se Todos Fossem no Mundo Iguais a Você".
Um amor: Marcelo.
Um amigo: um grupo de cinco anjos da guarda.
Família: minha reverência eterna.
Medo: ter medo é ter insegurança.
Fonte: sites MixBrasil e Parou Tudo.
__________
¹ CPLP - Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. +