Este blogue é sobre disforia de gênero* e todos os assuntos relacionados a esse tema.

(*) Desconforto de ter o sexo biológico inconguente com o sexo mental.


06 Dezembro, 2009

Um típico e-mail de transexual no armário


Esta é uma carta típica de alguém que se sente transexual. Resolvi incluí-la por completo por causa do fato de que ela reflete o que qualquer transexual não transicionado aos 20 anos sentiria. Se vê algo de si mesmo nela não se surpreenda (pois é o que basicamente toda pessoa transexual “no armário” sente).

Este provavelmente é o e-mail mais louco que já recebeu (…) tenho 20 anos e realmente não me conheço bem, e por dois anos tenho tentado loucamente saber quem sou.

Quando eu tinha três anos disse a minha mãe que queria ser menina. Aos seis, costumava sonhar em ser mulher. Quando eu era menor queria poder me transformar de homem em mulher, mesmo que fosse por algum tempo, embora eu quisesse mesmo era ficar como mulher para poder brincar com bonecas e tudo mais. Nos primeiros anos de escola viviam me perguntando se eu era menino ou menina. Quando completei 10 anos, comecei a me vestir de mulher às escondidas quando vi na televisão algumas transexuais [que deram certo na transição], embora não soubesse bem o que era isso, mas queria saber mais e mais e aprender como poderia ficar assim como elas.

Aprendi sobre hormônios nesses programas e busquei em anúncios onde eu poderia comprá-los. Contudo nunca fiz nada. Não sei por que sempre quis ser mulher. Então, pouco depois disse a minha mãe que eu odiava meu pênis e que havia algo de errado com ele. Mais tarde me dei conta de que tinha ereções – ela estava adormecida quando lhe disse tudo isso e acho que nem ligou. Numa noite tentei impedir a mim mesmo de ter uma ereção e comecei a dar tapas, murros... fiz um monte de outras coisas e acabei por me masturbar acidentalmente. Não tive idéia do que fiz. Acho que acabou sendo até bom e então nos anos seguintes acho que devo ter feito isso milhões de vezes. Pensei que isso poderia me dar câncer, então teria meus pênis e testículos removidos. Pareço ser louco?

À noite sonhava em ser uma mulher e em um de meus sonhos eu era eu mesmo, como homem, mas todos me chamavam de “ela”. Nunca agi como homem até onde sei, e acho que nunca fui um homem no meu ser, embora tenha tentado. Recentemente, me chamaram de “mocinha” algumas vezes e isso me preocupou, pois numa delas eu estava com mamãe e eu não havia feito a barba por dias.

Tem mais, muitas noites noite acordo rezando e pedindo que Deus me faça uma mulher comum e me permita que mude para ser apenas uma garota como outra qualquer. Não sei por que, apenas me pego fazendo isso. Às vezes não consigo dormir à noite por causa disso e choro por meu corpo ser diferente do que queria que fosse. Sinto-me preso como se não houvesse saída. Às vezes penso em me matar, mas acho que jamais teria coragem. Talvez se eu realmente fosse muito, muito masculino, acho que já teria me atirado de uma ponte qualquer. Tento agir normalmente e ser como qualquer outro rapaz de minha idade, entretanto isso parece não funcionar.

Acho que se eu pudesse ser um cara durão e de bem com a vida, além de muito mais forte fisicamente e mentalmente, eu agiria diferente. Não sei o que pensar, mas só quero ser uma pessoa comum. Acho bem difícil a possibilidade de eu ir a um terapeuta logo, quero tentar descobrir sozinho o que se passa comigo. Talvez eu esteja depressivo ou algo do tipo. Será que sou louco? Às vezes acho que eu deveria ser mulher mesmo, mas como isso aconteceria? E vivo me questionando: por que vim parar aqui perguntando essas coisas... por que eu... e como posso sair disso e me sentir bem comigo?


Não há nada de loucura no que diz, pois tudo se parece muito como me sentia quando era mais nova. Surpreendentemente parecido. Se tentar, você pode acabar por determinar quem realmente é.

Leia todos os artigos que puder… há muitos interessantes por aí. Faça o teste Cogiati e outros testes de gênero que há por aí. Aprenda não só do meu site, mas em todas as fontes em que puder. Contate um grupo de apoio a transexuais e encontre pessoas que são como você acredita ser, para se dar conta de como deve ser viver como transexual. Todas essas coisas podem ajudá-lo a descobrir o que quer.

Mas por fim você terá que definir quem e o que você é. Para isso, terá que entender o que sente e quem é por dentro. Apenas você mesmo pode fazer isso. E como fazê-lo? Não é fácil: tem que sentir, pensar, questionar, aprender e desvendar o que é ao prestar atenção a sua voz interna, ao seu coração.

Não posso dizer a você quem você é... e corra de quem acha que pode fazer isso por você. O que e quem você é se tornará evidente à medida que viver e tentar ser você mesmo, essa é a chave, sempre sendo você mesmo, naturalmente. Os problemas acontecem quando tentamos representar um papel que não somos apenas para agradar o mundo e ganhar segurança e aceitação. Descobrir quem você é não significa sair desvairado por aí... saber lidar com isso é vital. Mas, se você puder lutar para ser você mesmo, o que quer que isso seja, preste atenção aos problemas por que passa, pois eles podem lhe trazer as respostas de que precisa. Por exemplo, veja se a maneira natural de agir para você é a feminina e as pessoas esperam que você seja homem, e se portanto há um conflito constante. Você se sente péssimo por causa disso? Bem, isso é uma grande dica. Há outras coisas além dessas e algumas delas são bem particularmente suas. Tente detectá-las.

Desista da idéia de que há algum valor em ser apenas “comum”. Não se pode nunca ser normal, pois a normalidade é uma ilusão, uma média estatística que a sociedade tenta fazer com que as pessoas se encaixem. Você é você, e não poderá ser feliz se tentar ser outra pessoa. Caso você não “se enquadre” nos padrões simples preestabelecidos, aceite sua diferença como possibilidade. A coisa importante na vida não é ser macho ou fêmea mas sim você mesmo(a).

Sou uma mulher transexual muito bem sucedida no que busquei pra mim. Não transicionei e passei pela cirurgia para ser uma mulher, mas sim para ser eu mesma, o que quer que isso signifique. No fim, aconteceu de eu ser mesmo uma mulher como pensava. Mas não sou uma mulher convencional ou comum – e não faria questão de sê-lo mesmo, se tal coisa existisse.

Aprenda tudo o que puder, cresça, experimente, questione-se e lute para prestar atenção em como você se comporta quando está sendo mais você mesmo e então saberá o que quer. Quando souber o que quer, e esse momento não deve chegar logo ou facilmente, então lute com toda força para conseguir o que deseja.

É o melhor conselho que posso dar... e ele funciona!

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Fonte: este texto faz parte da série “Letters”, do site norte-americano transsexual.org, que contempla perguntas e respostas sobre transexualidade e transgenerismo.

Tradução e adaptação: blogueira

30 Novembro, 2009

Tendo desejos de cortar meu...


Fico imaginando se há uma maneira discreta de me livrar de meu pênis sem sentir muita dor, e ainda poder contar a meus pais que foi um acidente pelo qual não tive culpa. Por favor, me ajude!

Não!! O pênis e os testículos são órgãos extremamente ricos em vasos sanguíneos importantes. Sendo assim, tentar fazer uma orquiectomia [remoção dos testículos] por conta própria resultará em morte poucos minutos depois. Basicamente, você sangraria profusamente até a morte, e mesmo que fosse levado ao hospital a tempo as chances de sobrevivência seriam mínimas.

Muitos, muitos jovens transexuais se matam dessa maneira. Se leu o que escrevo em meu site, você provavelmente se deparou com a “regra dos 50%”, a qual afirma que 50% dos transexuais acabam mortos antes de completarem 30 anos. Parte disso é porque há ainda muito crime homofóbico direcionado contra transexuais. Outra parte é causada por atitudes cretinas de pessoas que por causa de seu preconceito machucam emocionalmente as pessoas transexuais, fazendo com que a vida social diária delas se torne insuportável. Mas a terceira razão é que muitos transexuais ficam desesperados e inventam maneiras para “consertar o problema” por conta própria.

Dito isso, você mesmo não pode fazer isso, pois essa cirurgia relacionada à sexualidade é muito complicada e séria!

Acredito também que não dê certo a armação de dizer “Eita, papai, meu pênis foi danificado... acho que terei que ser mulher agora”, com o intuito de tentar evitar a nada fácil responsabilidade de assumir quem você é. Desculpe, mas isso não funciona nunca! Sendo assim, você terá que crescer a ponto de poder encarar essa questão bravamente, e então usar seus recursos inteligentemente para transicionar. Precisará de serviços médicos e cirurgias para ir até o fim. Simplesmente não há outro jeito.

Se você está em uma posição em que tem pais de cabeça fechada ou intolerantes e até violentos, espere! Espere até que possa se sustentar. Sobreviva, seja esperto!

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Fonte: este texto faz parte da série “Letters”, do site norte-americano transsexual.org, que contempla perguntas e respostas sobre transexualidade e transgenerismo.

Tradução e adaptação: blogueira

11 Outubro, 2009

Queria ter coragem...


Queria ser tão forte quanto você. Você fez o que eu sempre quis: mudar de gênero, transicionar. Mas em vez de ir além eu apenas bebo e estou virando um alcoólatra. Em outras palavras: moro numa cidadezinha e não posso fazer o que sempre quis de minha vida, e continuo a ser um homem num corpo de mulher. O que eu deveria fazer?

A resposta não é tão difícil:

Primeiro limpe seu nome, caso esteja sujo. Depois, junte algum dinheiro que garanta sua sobrevivência ao mudar de cidade, saia dessa cidadezinha sem futuro e vá para um grande centro onde você terá chances. Vá a um psicólogo e conte sobre seus problemas. Junte-se a um grupo de apoio a transexuais. Em suma: faça seus sonhos acontecer, dê rumo à vida!

Levará alguns anos e haverá dias difíceis... mas de qualquer modo você já está vivendo uma vida dura, não? A diferença é que [ao fazer o que se quer] os dias ruins levarão você aonde você quer chegar. Sempre haverá tempos difíceis: a vida é cheia de dificuldades... mas o segredo é tirar proveito disso ao fazer que elas tragam como recompensa o que você sempre buscou.

Isso não é querer sofrer, é apenas fazer a sábia escolha sobre por qual dor prefere passar: já que vai sofrer, faça isso valer a pena. Isso foi o que eu fiz e no fim acabou por ser menor a dor do que teria sido se eu não tivesse feito ao tentar “evitar” meus problemas... mas, claro, eu não sabia disso naquele momento.

Você pode fazer o que propus, caso queira mesmo isso. É o que é preciso fazer, caso realmente seja o que quer ou esteja sofrendo muito atualmente.

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Fonte: este texto faz parte da série “Letters”, do site norte-americano transsexual.org, que contempla perguntas e respostas sobre transexualidade e transgenerismo.

Tradução e adaptação: blogueira

30 Setembro, 2009

Confuso por não saber o que ser


Pode-se fazer a Cirurgia de Redesignação Sexual (troca de sexo) mas continuar vivendo como homem?

Sim, mas apenas se eles forem transexuais FtM (de mulher para homem), pois apesar de terem nascido em um corpo feminino o homem dentro daquele corpo pode fazer a cirurgia [faloplastia] e continuar sendo o homem que sempre foi mentalmente. A mente nunca pode ser mudada, o corpo sim.

Como não sou burra, acho que entendo o que quer realmente perguntar, mas da maneira como o faz mostra ignorância e um total desrespeito. Você precisa entender algo muito, muito claramente.

A transexualidade é um defeito congênito, ou seja, já se nasce assim. Algumas pessoas nascem exteriormente de um sexo mas seus cérebros – a parte que pensa, sente e sabe quem são – é do sexo oposto. Esse erro ocorre antes de nascerem, ainda no útero. À medida que crescem se sentem péssimos, porque sentem estar num corpo errado. Então se essa pessoa se submete a uma cirurgia para corrigir isso ela não está mudando de modo nenhum, apenas o seu corpo está sendo transformado.

O corpo é como uma roupa e, portanto, ele pode ser ajustado e readaptado. A pessoa dentro daquele corpo nunca mudou, o cérebro é o mesmo desde o nascimento. Isso significa que um transexual de homem para mulher (MtF) realmente, de fato, é uma mulher, ela apenas tem um corpo que não condiz com o que é. Quando o corpo é corrigido, ela vira uma pessoa como outra qualquer, normal (levando-se logicamente em conta o que a medicina pode fazer hoje em dia).

Nenhum homem vira mulher e nenhuma mulher vira homem, isso é baboseira. Há homens e mulheres que nascem com corpos defeituosos e eles procuram ajuda médica para ajeitar isso. Transexualidade é isso, se você pudesse entender isso jamais teria me feito a pergunta que fez da maneira que fez, pois ela não faria sentido, entendeu?

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Fonte: este texto faz parte da série “Letters”, do site norte-americano transsexual.org, que contempla perguntas e respostas sobre transexualidade e transgenerismo.

Tradução e adaptação: blogueira

08 Agosto, 2009

Prefiro mulheres transexuais, por que elas não me querem?


“Sou um homem heterossexual e prefiro namorar lindas mulheres transexuas às genéticas. Essa é uma preferência comum? E por que mulheres transexuais se sentem incomodadas quando um homem tem essa especificidade? Parece que isso as faz perder o tesão pela relação, não é? Sempre achei que quem gosta de mulheres trans devesse se acercar delas, o que acha disso?”

De fato tenho muito a falar sobre isso. Você não está só, pois uma parcela da sociedade é fascinada em vários graus por transexuais. Uns são benevolentes, outros não. O número de pessoas fascinadas por transexuais nunca, até onde sei, foi estudado ou documentado. Entretanto, em virtude do grande burburinho feito na mídia sobre nós, pode-se inferir que a maioria das pessoas tem pelo menos alguma curiosidade.

Mas entrando no cerne de sua questão, pelo menos emocionalmente essa predileção por trans pode representar perigo para elas, pois para todo tipo de pessoa, lugar ou coisa no mundo há sem dúvida um grupo de pessoas indiscutivelmente a favor, assim como os predadores e exterminadores. Para transexuais há várias ameaças à existência, e uma delas são os sanguessugas. Eu mesma já fui vítima de um.

O sanguessuga de trans é alguém que se aproveita da vulnerabilidade e insegurança de muitas delas para obter proveito financeiro, sexual ou para fins perversos. Um sanguessuga típico tentará agir identicamente a um homem transfílico (“t-lover”), e portanto tentará passar por um grande amor ou amigo que apoia a transexual vulnerável e emocionalmente frágil, geralmente para tirar proveito dela durante o longo período de transição.

Eles chegam como amantes, buscam vantagens como conta conjunta e privilégios que um marido real tem, e então gastam o dinheiro arduamente juntado por elas para o tratamento e a cirurgia. Quando se descobre a trapaça e se confronta a situação, o resultado que segue geralmente são ferimentos sérios e até uma morte impiedosa (geralmente com espancamento e estupro também). As que sobrevivem tornam-se em geral bem mais cautelosas. Particularmente fui salva – antes que as coisas degringolassem – por um amigo que tinha experiência na vida de rua.

Contudo, muitas mulheres trans são menos sortudas. E pior, muitos desses incidentes nunca serão julgados, nem mesmo investigados pela polícia, pois em geral a sociedade considera as transexuais pessoas sem valor. E tem ainda os que acham que matar uma trans é fazer um serviço à sociedade, ou uma punição inevitável por acharem que elas são “algo bizarro”.

Além dos sanguessugas de transexuais, há perigos piores na forma de um tipo de homem doentio que deliberadamente atrai e mata transexuais [quase todos os perpetradores de crimes violentos são homens, mundo afora, em todas as culturas, eles cometem 98% desses crimes]. Esse tipo de assassino em massa geralmente é deixado em paz pelo crime que cometeu e a polícia não lhe dá muita atenção. É gente mentalmente desequilibrada que sente tanto atração quanto repulsa pela simples existência de transexuais [assassinos em série sempre buscam alvos específicos, como mulheres, gays, pessoas velhas, crianças etc.]. Astutos, eles se aproximam com um ar de bondade, e o objetivo deles não é dinheiro mas violência e até morte, geralmente com requintes de crueldade. Não sei como se chama gente assim na linguagem de rua.

Os sanguessugas – que são menos perigosos fisicamente mas emocionalmente devastadores – são provavelmente um erro de escolha, para dizer o mínimo... e essa má escolha tem a ver com identidade e auto-imagem que cada um faz de si.

Como funciona em geral a cabeça de uma transexual

Em geral, uma pessoa trans não sente prazer ou tesão pela idéia de ser transexual. Alguns até desejariam nunca ter lidado com esse fato, e a última coisa que querem é lembranças constantes do seu status tão único no mundo. Sendo assim, a maioria quer apenas se misturar à sociedade e ser pessoas comuns no gênero que escolheram – a não ser aqueles que se vestem de mulher por puro fetiche. Uma transexual encontra muito mais conforto e validação [de sua condição de mulheres de fato] ao lidar com alguém para quem o fato de ela ser transexual é irrelevante.

Algumas transexuais chegam ao ponto de querer se envolver com gente que não sabe suas histórias, o que, levando-se em conta a maturidade emocional e sexual da maioria dos seres humanos, também pode levar a situações de risco e às vezes até pior que isso, se descoberto. Algumas arriscam-se a fazer isso simplesmente para não ter que lidar com a carga de serem transexuais em suas relações.

Entendendo isso você pode se dar conta do porquê de um grande número de transexuais sentir repulsa por qualquer pessoa que é especificamente atraída por elas em virtude de serem transexuais, já que a atração em si é um lembrete constante de que são diferentes, e de que são apreciadas por uma diferença que a grande maioria está desesperadamente tentando minimizar ou esquecer – desejariam de fato eliminar por completo.

Então, em resumo: transfílicos (ou “t-lovers”) representam pessoas que são ou um perigo potencial de proporções fatais, ou uma ameaça direta ao estabelecimento de um estilo de vida não ligado ao fato de alguém ser transexual.

Logicamente, você tem razão quando diz que uma transexual pode potencialmente tirar bom proveito do carinho de uma pessoa que tem fascínio por sua condição. Mas as que sobrevivem a golpes na vida ficam cautelosas – se bem que algumas (se é que há) devem gostar mesmo de serem apreciadas pelo fato de serem frutos de um erro [hormonal] no desenvolvimento pré-natal.

Essas são questões que influem na relação entre a maioria dos transexuais e aqueles que se sentem atraídos por elas.

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Fonte: este texto faz parte da série “Letters”, do site norte-americano transsexual.org, que contempla perguntas e respostas sobre transexualidade e transgenerismo.

Tradução e adaptação: blogueira

07 Agosto, 2009

Mereço um amor assim? (Parte 2)


“Querida Jennifer, muito obrigada por seus conselhos. Você tinha razão com respeito ao dinheiro, aquele meu namorado era uma furada, e nem lhe conto sobre a raiva que ele teve ao terminarmos. Ok, só precisava de uma confirmação sobre quem ele era. Nenhuma de minhas amigas trans teria a visão que você teve sobre ele, então fico muito feliz em ter compartilhado com você. No início eu pensei: ‘Ah, ele me ama e só me trata como qualquer homem trataria uma mulher, ele é um homem do tipo machista.’ Mas me dei conta de que com ele estava vivendo numa escravidão dos tempos modernos.”

Querida, é muito fácil acontecer esse tipo de coisa a uma pessoa. As mulheres transexuais em geral são muito vulneráveis, sós e carentes, e sofrem muito. Uma oferta de amor pode ser algo bom demais para se ousar questionar. Mas questionar é preciso!

Sei como pode ser desesperador (e é bem difícil pra mim falar isso e para você ouvir) mas a possibilidade de que algum homem se atraia por você nesse estágio de transição intermediário é tão improvável quanto impossível (refiro–me a um homem que não seja nem fetichisticamente atraído pelo seu corpo paradoxal nem averso a ele, ou seja, de fato indiferente ao seu status trans).

Alguns homens lhe dirão o quanto lhe amam como pessoa, e que o fato de você ter um pênis não é um problema, que eles gostam de você pelo que é, sua alma, mente e coração... essas são as mentiras mais antigas contadas a mulheres, são as mais antigas e batidas, que levam o homem à cama, ao coração e ao caderno de anotações (financeiras) de uma mulher. Essas mentiras não são só contadas às mulheres trans, mas a todas as mulheres.

Os sanguessugas de transexuais são peritos em se colar nelas porque eles sabem que ela vai juntar dinheiro para a transição e, além do mais, ela está supervulnerável e é portanto uma presa mais fácil do que uma mulher não transexual. A mulher trans é em geral desesperadamente, terrivelmente e profundamente isolada.

[Para entender essa história, leia também: Mereço um amor assim? (Parte 1)”]

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Fonte: este texto faz parte da série “Letters”, do site norte-americano transsexual.org, que contempla perguntas e respostas sobre transexualidade e transgenerismo.

Tradução e adaptação: blogueira

Ser apontada quando o que se quer é passar despercebida


“Sinto que sou feliz na vida e estou indo superbem desde que comecei minha transição. Mas ocasionalmente vejo que algumas pessoas notam algo estranho em mim. Às vezes, algumas delas escorregam e soltam um ‘ele’, ou algo do meu passado vem à tona e me denuncia, coisas desse tipo.

Muito do que acontece pode nem estar relacionado a eu ser ‘descoberta’, mas parte sim. Quando alguém nota que sou transexual fico deprimida porque meu sonho é ser vista como uma mulher genética comum, o que significa que ainda tenho vergonha do que sou. Faz sentido?”


Claro que faz! Eu me senti e me sentiria exatamente do mesmo jeito que você. Há um desejo tremendo que muitas de nós têm de querer simplesmente “esquecer o passado”, pois essas lembranças cotidianas podem fazer a vida de uma transexual um fardo a carrgar. Outro fato é que depois de lutar tanto tempo por algum esboço de felicidade no gênero escolhido, escutar um pronome errado é horrível. Isso doi, mesmo que não seja proposital ou tenha a ver com ter sido “descoberta”.

Acontece de haver uma troca natural em muitas línguas em que os pronomes “ele” e “ela” são parecidos, como em português, espanhol, francês etc. Até minha esposa, que nem transexual é, já foi chamada de “ele” por uma pessoa desatenciosa… claro que não a machucou como teria me machucado, pois sou uma mulher MtF.

Esses deslizes, causados pela própria língua, ou pelo fato de sermos vez ou outra “descobertas”, machucam pelo simples fato bater num ponto fraco, algo que mulheres – e homens – como nós têm que ninguém mais teria: a rejeição e negação pelo gênero anterior. Nem tem a ver com o fato de termos ou não vergonha de sermos descobertas como pessoas transexuais... apenas fere porque parece uma “perda” a ser aceita por nós diante da grande batalha que é a transição.

Das vezes que aconteceu comigo, reagi instintivamente até ao mais inocente e sutil erro de pronome, pelas próprias razões que narrei acima.

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Fonte: este texto faz parte da série “Letters”, do site norte-americano transsexual.org, que contempla perguntas e respostas sobre transexualidade e transgenerismo.

Tradução e adaptação: blogueira

06 Agosto, 2009

Depressão pós-transição, como lidar?


“Sou um homem e tenho tido uma relação longa com uma transexual e estou escrevendo na esperança de que possa oferecer algum conselho útil. Nós nos encontramos durante sua transição e ficamos juntos durante a cirurgia dela, um ano atrás. Não vivemos no mesmo teto mas nos encontramos regularmente, e durante todo o tempo em que estivemos juntos percebi que ela sofre de uma grande baixa estima, que piorou depois da cirurgia, com sentimentos ocasionais de suicídio.

Nos últimos meses, essas ondas de depressão têm ocorrido mais frequentemente e tem sido mais fortes e com maior duração. Sou louco por ela e quero dar o meu melhor para ajudá-la, só não sei como. Tudo que tento parece não fazer tanta diferença. Ela faz acompanhamento médico mas sempre falta, pois o terapeuta sempre põe o motivo na história de gênero dela. Como lidar com isso?”


Muitas transexuais – alguns diriam a maioria – passam por uma fase de depressão terrível depois da cirurgia. A razão é concreta, mas também se pode divagar em vários tipos de questões acessórias complexas.

Pense o seguinte: uma vida inteira de luta constante para atingir um objetivo almejado, um objetivo tido como o mais perfeito e maravilhoso, divino, já que a esperança foi a única coisa que a manteve viva durante todo o horror da dureza que é a transição de gênero. Então, finalmente acabou e o objetivo foi concluído e a transexual se torna o que sempre buscou ser... mas o mundo não se tornou tão diferente [como ela achava que seria]. Não há um futuro esplendoroso, não há glória, não há botija de ouro, apenas a vida – contudo, com o corpo correto. De repente ela se dá conta de que a maior, mais nobre e fantástica jornada que ela algum vez na vida já fez passou, e tudo que fica é a existência comum e ordinária.

Ser transexual é como estar em uma grande guerra, numa luta fora de série: quando a guerra acaba, as coisas parecem mesmo opressivamente cinzas e desapontadoras. Algumas transexuais denominaram isso de “Síndrome do Arco-íris”, já que não há botija de ouro “do lado de lá” como recompensa, nem marcha gloriosa por ter alcançado tal feito... não há mais uma vida tão extraordinária como a batalha recém-terminada.

E há uma segunda parte ainda. A transexual encarou com tanto horror o fato de ter nascido no corpo errado e ter que consertar isso, algo tão impossível e fora do comum de fazer e alcançar, que frequentemente irreleva todas as outras barras que a vida nos faz passar, pois não há tempo para prestar atenção nelas, visto que já se está vivendo uma luta atroz.

Depois da transição e da cirurgia, com toda a guerra acabada e toda a dor e sentimentos ruins e tristezas e lutas que as pessoas enfrentam terminados, todo o resto que foi simplesmente posto de lado durante esse período pode de repente voltar. Agora, não apenas não há a medalha por ter passado e sobrevivido a tudo, e a vida não é somente comum, há ainda um monte de problemas do cotidiano para lidar [financeiros, sociais, sentimentais, de saúde etc.]. Como se pode imaginar, isso pode ser um pouco difícil de lidar.

Passei por isso também, e sofri muito mesmo tendo sido avisada que poderia acontecer. Muitas transexuais sequer têm noção de que isso possa acontecer. Então, a dor para elas é ainda pior.

Em que se pode ajudar?

Entender a situação e suas causas pode ser útil, embora não faça a dor desaparecer. Entendimento é muito importante, especialmente para alguém com pensamentos suicidas. É interessante não ficar só, ter a atenção e o cuidado das pessoas. É importante ter amigos e companhia, como também ter outros objetivos na vida, coisas interessantes e divertidas para fazer. Ter um grande sonho de vida a conquistar é um fator de peso, já que pode ajudar a mitigar os sintomas.

Costumava comemorar meu “vaginoversário" todo ano. Fazer essa festinha animada pela minha conquista ajudou um bocadinho. A solução não é fazer uma única coisa, mas várias pequenas coisas, pedacinhos de esperanças, comemorações, uma boa porção de senso de propósito e significado. Ter coisas a conquistar e executar auxilia. Ajudou-me muito o fato de eu ser artista e mergulhar em desenhos de jogos... abriu novas fronteiras. Ter uma segunda infância [agora como menina] também me ajudou um bocado, claro... e ainda ajuda!

Muito amor e abraços ajudam, seguridade ajuda. Cedo ou tarde alguns daqueles problemas que foram postos de lado [durante a transição] têm que ser encarados. Reconstruir a auto-estima ajuda, e tudo o que se mostrar com propósito e significativo pode também ajudar. Coisas que alegram e, principalmente, companheirismo ajudam e é o mais importante, creio.

Acima de tudo, o processo leva tempo. Tempo para as coisas se assentarem e a vida se harmonizar de novo. É importante para sua amada saber que outras pessoas também passaram por isso e que conseguiram retomar lindamente suas vidas. Leva algum tempo baixar o ritmo da máquina usada para lidar com anos de transição.

Às vezes, após uma grande luta, o heroico soldado precisa se dar conta do porquê de ter lutado, assim comom dos momentos simples, bonitos, muito frequentemente traquilos e sem muito destaque, isso faz a vida valer a pena. A guerra é um inferno, contudo também é repleta de propósitos, significados, excitações e esperanças.

O simples ato de ter vivido a tudo pode arrepiar. E, claro, há tantas perdas que nunca voltarão... praticamente uma infância, a dor dos anos de transição, os amigos que se perdeu, os sonhos frustrados. Certifique-se de que tudo isso pode sobreviver e que as coisas melhorem. Leva tempo, mas é certamente a coisa mais valiosa de se apegar no planeta.

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Fonte: este texto faz parte da série “Letters”, do site norte-americano transsexual.org, que contempla perguntas e respostas sobre transexualidade e transgenerismo.

Tradução e adaptação: blogueira

05 Agosto, 2009

Mereço um amor assim? (Parte 1)


“Seis meses antes de começar minha transição, encontrei um rapaz por quem me apaixonei. Ele disse que me aceitava do jeito que sou e que me amava pela mulher que sou internamente (além da aparência que os hormônios me fizeram ter). Diz não se importar que eu faça a cirurgia, o que foi uma bênção no começo de minha transição e me fez achar ter encontrado amor e aceitação durante todo esse período difícil.

Bem, dois anos de relação já se passaram e eu no mesmo barco, sem dinheiro para minha cirurgia de redesignação de sexo (‘mudança de sexo’), principalmente porque meu namorado supostamente compreensivo não quer trabalhar, e acabo achando que ele se aproveita um pouco de minha ingenuidade. Nem mesmo para as despesas de casa ele ajuda, o que me faz pensar se esse é o preço da aceitação dele. Ele diz que não preciso desperdiçar meu dinheiro com cirurgia, pois me ama do jeito que sou (a aceitação que eu adorava no começo tornou-se agora uma maldição), pois quero a cirurgia e ele não me ajudará a chegar lá.

Tenho um bom trabalho num hospital e convicção que poderia juntar para minha cirurgia se ele não me sugasse. Ele diz ser totalmente hétero e adorar o corpo feminino, então sem operação não haverá ganho em nossa relação, já que ainda ter um pênis não me ajuda. Acabo assim achando que ele é mesmo atraído pelo meu dinheiro, o que acha?”


Toda forma de vida possui um predador (ou parasita). Do que aprendi com minha experiência da vida, há um tipo de homem chamado “sanguessuga de trans”. Eles levam vantagem ao tirar proveito da solidão por que passam muitas garotas trans, e usa estratégias para parasitá-las. Muitas acharão que estão sendo amadas, quando na verdade estão sendo usadas. Já fui vítimas de um, como você agora.

De vez em quanto ouço casos de predadores atacando por aí para tirar proveito de meninas trans desavisadas. Acho que eles se aproveitam da carência delas, e para conseguir o que querem chegarão ao cúmulo de usar a força física, caso seja necessário, para manter controle sobre uma vítima submissa e amedrontada. Esse tipo de comportamento é bem típico de homens e geralmente não é logo praticado pelo sanguessuga, que inicialmente é atencioso, apoiador e confiável. No início, uma pessoa nunca acha que ela está sendo explorada.

Isso tudo acontece porque o sanguessuga é um mentiroso de marca maior, capaz de parecer totalmente sincero, até mesmo absolutamente charmoso. Geralmente dão logo o bote, e uma vez em sua casa fica muito difícil se livrar deles. Mas pode ser feito, mesmo que para isso você tenha que se mudar para outro lugar.

Mas por favor, seja cautelosa! Esses predadores são geralmente sem escrúpulos e sociopatas, e o charme deles pode virar violência bem rapidinho se provocados. Não faça escândalo nem brigue. Tente ser calma, clara e direta ao pedir a esse filho da **** para sair de sua casa. O ideal é fazer isso num lugar público, ou próximo a amigos (seus, não dele!). Não o permita deixar na sua casa coisas para “pegar depois”, e uma vez que ele já se foi, mude as fechaduras. Ah, e peça a seus amigos para aparecerem de vez em quando para verem como você está. Fique alerta!

Como disse acima, já fui vítima de um aproveitador também, por isso sei bem como é. Na época tive a sorte de ter um bom amigo que me explicou bem quem eles são e como agem. Eles mentem, trapaceiam, roubam... e a razão por que isso acontece é que algumas meninas trans são muito solitárias e carentes.

Uma pessoa que gosta de você de verdade lutará junto como você para seu sucesso, já que amigos de verdade trabalham para um bem comum. Um bem-querer verdadeiro não tentará sugar, não dirá uma coisa e fará outra. Por isso, um bundão conversa-fiada que está lhe impedindo de avançar e sugando seu dinheiro é um predador e você está sendo usada.

Claro, ele nunca admitirá, nem dirá que “sente muito” ou que mudará. Ele mentirá na cara limpa e dirá que é tudo engano, que ele ama você e tudo o que for preciso para manter tudo como está.

É duro ficar sozinha mas você foi enganada, acontece, e isso poderia ter acontecido com qualquer um. Se seu companheiro não lhe ajudará a sobreviver e atingir suas metas, então esse amor é falso, não existe. E você já sabe que não pode continuar sendo idiota, por isso conserte o que está errado e siga em frente. Seja cautelosa, você está lidando com um sanguessuga, ok?

Não diga nada até estar pronta para agir: amigos por perto, fechadura trocadas ou para trocar no mesmo dia, e não fique só quando confrontá-lo. Não vou querer escutar o relato sobre uma trans que levou uma surra de seu ex ou algo do tipo. Isso acontece, acreditem... e muito! Sendo assim, faça tudo esperta, forte e inteligentemente. E torne sua vida decente novamente, termine a transição e viva o melhor que puder. Você não merece gente assim.

[Veja o desfecho desse caso no post: “Mereço um amor assim? (Parte 1)” ]

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Fonte: este texto faz parte da série “Letters”, do site norte-americano transsexual.org, que contempla perguntas e respostas sobre transexualidade e transgenerismo.

Tradução e adaptação: blogueira

04 Agosto, 2009

Dúvida: sou transexual?


“Tenho 19 anos e pais que me apóiam, exceto pelo fato de eles não poderem me ajudar financeiramente na minha transição de gênero. Isolei-me da sociedade, com exceção de alguns amigos, nunca me vesti de mulher e só me visto com jeans e camisetas, o que mesmo assim me faz achar que me visto como qualquer garota de minha idade. Eu me sinto só e perdido e discuti essa aflição com muitas pessoas, além de ter atualmente um terapeuta que parece achar que de alguma maneira todos esses sentimentos passarão. Será que sou transexual?”

Se você é mesmo transexual isso não passará, só piora com a idade. A pergunta sempre é: você é mesmo transexual? O problema é que, embora haja elementos indicativos, tais como se sua vontade de ser mulher começou antes da puberdade e se vestir-se de mulher é algo importante para você (claramente parece não ser). Sendo assim o diagnóstico real só pode ser dado por um perito no assunto – a pessoa em si.

A transexualidade é algo singular nesse ponto. É prática comum de qualquer terapeuta tentar dissuadir um transexual em potencial, pois – admitamos – o caminho é tão fácil como uma trilha íngreme nos Andes. Uma trilha que tem um percurso através das portas do inferno descrito por Dante, e então volta à estrada principal. Ou seja, não é fácil para ninguém. A compaixão obriga qualquer profissional a tentar demover qualquer pessoa do inferno que é a transição de gênero.

Entretanto, alguns transexuais de fato sabem quem são. Eles sabiam que algo estava errado desde cedinho. Eles não gostam de se vestir de mulher apenas pelo prazer disso em si, e se eles passam por tudo é apenas para “se sentir normal”. Eles vivem algo como um horror existencial, uma tristeza com respeito à situação que vivenciam, e só piora à medida que os anos passam. Para qualquer transexual, a coisa melhor que poderia acontecer na vida seria ajudá-los a transicionar o mais cedo na vida quanto possível. Contudo, essa mesma ajuda poderia arrasar, ser uma catástrofe, se a pessoa de fato não fosse transexual. Sendo a pessoa realmente trans, quanto mais o tempo passa, mais difícil é todo processo de correção [devido à masculinização]. É algo duro.

Tenha em mente que terapeutas não são iguais, e alguns, diria mesmo muitos, tem suas próprias opiniões das coisas. Algumas delas são abertamente hostis à própria existência da transexualidade. Alguns terapeutas até mesmo nem aceitarão o fato de a condição ser real, porque entra em conflito com os ideais que têm, com a visão deles do mundo, sua religião etc. Sendo assim, se seu terapeuta é um desses, tente conseguir um diferente, mais neutro.

É natural perguntar a um profissional qualquer coisa, até mesmo qual a posição dele em assuntos como homossexualidade e afins. Eles estão lá para lhe servir, lembre-se disso. Você os está pagando, portanto você é o consumidor e eles os prestadores de serviço. Por isso, certifique-se de que está tendo o serviço de que precisa.

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Fonte: este texto faz parte da série “Letters”, do site norte-americano transsexual.org, que contempla perguntas e respostas sobre transexualidade e transgenerismo.

Tradução e adaptação: blogueira

02 Agosto, 2009

Buck Angel, um astro pornô FtM


Buck Angel fez história ao ser o primeiro ator pornô transexual FtM (Female to Male, alguém que transicionou fisicamente de mulher para homem).

Empresário com visual e estilo próprios, Buck (na foto ao lado, antes e depois da transição de gênero) partiu do pioneirismo de ser um gênero inteiramente novo na indústria pornô (o pornô FtM), até se tornar conhecido da grande imprensa ao aparecer no "Howard Stern Show" [programa de rádio muito popular nos EUA, famoso por não ter censura].

Além de já trabalhar com companhias de grande produção, como a Titan Media, recentemente Angel assinou um grande contrato de distribuição com uma das maiores distribuidoras de DVD da Europa, a Shots Vídeo. Propostas internacionais o levaram a ser empresariado exclusivamente na Europa pela FL Promotions.

Antes de sua transição de gênero, Buck saboreou o estrelato como uma prestigiada modelo da Elite Models nova-iorquina e da Z Agency de Londres. Em sua biografia, ele diz que nessa época "se sentia infeliz, e viver como uma mulher foi uma experiência que, na melhor das hipóteses, lhe pareceu dolorosamente difícil".

Em 2007, Angel de novo marcou a história quando se tornou o primeiro transexual FtM a ganhar o prestigiado Transsexual Performer of the Year Award, da AVN. Atualmente, ele está se preparando para um tour na Europa para lançar oficialmente o Buckback Mountain.com

Buck falou com Mark Adnum [editor do Outrate, um site australiano que comenta filmes]. Veja abaixo:


Entrevistador: Adorei seu nome, como o escolheu?

Buck Angel: Eu o adoro meu nome também, obrigado! Bem, queria um nome que fosse bem “bofe” para casar com minha imagem supermasculina de ator pornô, e "Buck" é um nome bem viril. Também não é comum, então pareceu ideal. Com respeito ao Angel, bem, esse é o sobrenome de minha mulher. Por acaso, ela é uma das pessoas mais incríveis e sortudas que eu já conheci em minha vida. Então, pus os dois nomes juntos e… bum! Caiu como uma luva!

Todos comentam que realmente é um nome fora de série e acredito que fica gravado na mente das pessoas. Um entrevistador disse que ele [o nome] era “a mistura perfeita entre o masculino e o feminino”, mas até então nunca tinha pensado sobre isso, mas agora tenho que concordar com ele. Não que eu seja feminino de alguma forma, mas acho que ter uma vagina faz as pessoas pensarem no feminino (é engraçado como as coisas raciocinam, uh!)

Entrevistador: Você recentemente se mudou dos Estados Unidos. Onde vive atualmente e o que fez você mudar?

Buck Angel: Sim, mudei dos EUA nove meses atrás para uma cidadezinha na península de Yucatán, no México. Vivi em Nova Orleans durante quatro anos e adorei. Mas comecei a encher o saco com a intromissão do governo local. Eles começaram a cair pesado na indústria pornô e me senti meio que um alvo disso, já que sou tão único e não há precedentes para meu caso. Eles alegaram a suposta “obscenidade” do que faço, que é definida pela lei como algo doentio. Não quis, portanto, que me usassem como exemplo. Não me senti seguro nos EUA, o que é um tanto irônico, não?

Também achei que deveria conhecer outras partes do mundo. Vivi nos EUA por toda minha vida. Comprei meu lugar no México pouco antes do furacão Katrina, no mesmo mês. As pessoas acham que me mudei por causa do furacão, mas não é verdade, já que havia planejado a mudança mesmo antes de saber que a tragédia aconteceria. Eu realmente adoro essa cidade e o que aconteceu lá foi horrendo, uma desgraça. O governo nunca trataria gente daquela maneira no México. Ainda temos uma propriedade em Nova Orleans e minha esposa ainda tem um negócio lá. É uma loja de roupas de cachorro chamada Chi-wa-wa Ga-ga.

Adoro viver em Yucatán. A vida é surpreendente aqui. Tenho uma propriedade incrível, uma secretária doméstica, um cozinheiro e um jardineiro. Resgatei dois cachorros da rua. Enfim, não teria essa qualidade de vida nos EUA. É uma situação com a qual todos ganharam. Não quero que achem que sou um americano branco que veio pra cá tirar vantagem de pobres trabalhadores mexicanos. Eu cuido muito deles e eles de mim!

Entrevistador: Da cintura pra cima, Buck, acho que você é a coisa mais tesuda que existe. O torso de um motorista de caminhão, as tatuagens, o charuto que ocasionalmente está pendurado em sua boca: você é de fato meu tipo de homem. Bem, mas uma de minhas fantasias é fazer sexo oral no homem de minhas fantasias. Apesar de sua vagina não me repelir, muito pelo contrário, acho que só te torna mais sexy, há sem dúvida uma certa inconsistência visual. Qual é seu ponto de vista disso?

Buck Angel: Bem, muito obrigado! Você sabe que tem que ser muito macho para admitir que sente atração por mim. Acho que o que faço é muito poderoso e louco! Você sabe que eu nunca em um milhão de anos esperava que isso acontecesse. Tive apenas uma idéia de fazer um pouco de pornô que ninguém mais estivesse fazendo [pornô FtM]. Não me dei conta de que isso me levaria a tantas direções. Meu trabalho vai além do pornô – está fazendo as pessoas pensarem, e falarem sobre ele. E não exclusivamente pessoas interessadas em meu trabalho pornô. Estou fazendo as pessoas pensarem sobre meu gênero e sexualidade, algo como “o que exatamente é preciso para fazer um homem ser homem?”.

Acho que muitas coisas estão acontecendo. Historicamente, as opções têm sido muito limitantes, pondo as pessoas em caixinhas classificatórias. Por exemplo, você tinha que ser gay, hétero ou bissexual. Você não poderia ser apenas “sexual”. Ou seja, tinha que se encaixar em uma dessas categorias: era ou preto ou branco. Bem, adivinhe o que acontece: há cinza e vermelho, além de muitas outras opções e variações. Estou mostrando ao mundo que tudo não é tão limitado como pensam. Em nossa sociedade, você tem ou que ser um homem ou uma mulher... e a única maneira como se é definido é pelos seus órgãos sexuais. Bem, acho que isso também não é válido, olhe para Buck Angel. Você não pode negar que sou completamente homem. E quando estou transando com um homem é tudo entre homens, obviamente – parece uma transa gay. Mas na transa você vê um pênis penetrando uma vagina, então... é uma relação hétero? O que é? Curioso, não?

Agora o que as pessoas acharão? Elas odeiam quando as coisas não cabem na “caixa”. Mas isso faz com que prestem atenção e falem.

Entrevistador: Quando você sai e leva alguém para casa que não sabe quem você é, o que ocorre depois quando as calças são baixadas?

Buck Angel: Isso nunca aconteceria. Eu nunca deixaria de contar a alguém antes de ir pra cama com essa pessoa (que sou um homem com vagina). Não é legal fazer isso. Por isso muitas garotas trans se dão mal. Algumas tentam ludibriar os caras que encontram. Bem, você deve imaginar que eu mesmo ficaria puto da vida se alguém também tentasse me enganar.

Não estou dizendo que é legal agredir alguém. Mas ponha-se no lugar de alguém enganado. Como disse antes, as pessoas tem necessidade de rotular e serem rotuladas. Então, se um cara sai comigo achando que vai chupar meu pênis e vê uma vagina, o que acha que vai acontecer? Provavelmente vai achar bizarro, e com certeza a noitada vai por água abaixo.

É responsabilidade minha ser honesto comigo mesmo. Sou orgulhoso de quem sou. Por isso meu trabalho é tão importante: porque sei que muitos outros transexuais vêem meu trabalho e se sentem inspirados e orgulhosos. Temos que estar bem conosco mesmos, pois é fato que nós somos as únicas pessoas que podem nos fazer felizes. Realmente não ligo para o que acham de mim. Eu me amo e tenho orgulho de meu corpo e me sinto bem como sou. Ao demonstrar isso, as pessoas irão automaticamente começar a me ver diferentemente, sentir essa energia positiva e gostar de mim como sou também. Já vi isso acontecer.

Entrevistador: Camille Paglia uma vez aconselhou homens que pretendiam fazer uma mudança de sexo a “dar um tempo e reconsiderar, pois algumas mercadorias são únicas e não há como obtê-las de volta”. Algum arrependimento de sua parte?

Buck Angel: Bom conselho! Adoro a Camille, ela é demais! Arrependimentos? Sem chance! Foi a melhor coisa que já fiz em minha vida. Estava indo no caminho da autodestruição, me odiava. Era um viciado em álcool e drogas e vivia nas ruas, estava hiperinfeliz e me sentia um erro da natureza. Realmente quis me matar. Não podia mais viver naquele corpo de mulher. Tomei essa decisão que mudaria minha vida com a ajuda de um terapeuta, mudei de gênero e dei uma reviravolta na vida.

Eu quero mesmo dizer que acho hoje em dia que muitas pessoas não estão levando isso tão a sério como deveriam. Parece que mudar de sexo se tornou uma tendência. Uma mudança de sexo é algo que muda a vida radicalmente, e quando se tomam hormônios mudanças físicas ocorrem de tal forma que são irreversíveis. Deve-se tentar entender em que se está metendo antes de tomar alguma decisão definitiva. Muitas pessoas tomam hormônios informalmente, não vão a um terapeuta e de repente se dão conta de que cometeram um erro. Vi isso ocorrer muitas vezes. Mudar de sexo não é brincadeira.

Acho que é maravilhoso que transexuais agora sejam tão bem aceitos e como a mudança de sexo é mais fácil hoje em dia, comparativamente ao passado. Quando comecei minha mudança de gênero não havia muita informação e havia pouquíssimos caras FtM transicionando. Perdi muitas de minhas amigas lésbicas porque elas odiaram saber que eu estava virando um homem. O engraçado é que desde então tenho recebido ligações de algumas delas pedindo minha ajuda para começar a transição delas. Fiz tudo sozinho. Acho que isso é em parte o que me faz um cara forte. O ponto-chave é saber o que você quer para o resto de sua vida!

Entrevistador: Eu presumo que a reconstrução cirúrgica de um pênis seja sempre insatisfatória, por isso que muitos FtM como você acabam por decidir manter a vagina. Você deseja ter um pênis? Fico surpreso em me dar conta de que mesmo vendo que você é tão masculino, a única coisa masculina que você não pode fazer (a não ser que use um vibrador com cinta) é penetrar alguém com seu próprio pênis, e isso, de certo modo, deixa você em uma posição feminina. O que tem a dizer sobre isso?

Buck Angel: Cara, adoro essa pergunta. As pessoas não devem ver minha vagina como algo feminino, pois ela não o é. Muitos, muitos caras gays adoram ser penetrados por trás. Isso não os faz mulheres. Acho uma pena que as pessoas não se toquem nesse ponto. Tenho muito trabalho a fazer para que as pessoas entendam isso, que um pênis não faz um homem. Não sinto nada em mim feminino. E meus “pênis” (tenho um monte deles) estão sempre duros, e posso até mesmo dar a meu parceiro o tamanho certo no momento certo. Puxa, até mesmo a cor favorita pode ser uma opção! Nunca reclamaram, e confesso ter um monte de prazer ao penetrar um parceiro, mesmo sem o pênis ser parte [física] de meu corpo.

Não tenho a vontade de ter um pênis, embora tenha querido um antes de me sentir bem comigo mesmo e quando eu pensava que eu precisava de um para me sentir pleno (atualmente prefiro usar meu buraco para sentir prazer). Sim, muitos FtMs não querem fazer a cirurgia porque não parece interessante. Outros não a fazem porque não podem pagar por ela – a cirurgia pode custar entre 50-57 mil dólares! Francamente, prefiro comprar um caminhão novo.

Atualmente há duas correntes de pensamento FtM: uma crê que você tem que ter um pênis ou nunca será um homem. E agora, claro, há o ponto de vista de Buck Angel – que afirma que não se precisa de um pênis pra ser homem. Muitos FtM odeiam o que prego porque mostro que não é necessário um pedaço de carne entre as pernas para ser um homem. Pessoalmente nunca faria essa cirurgia da maneira como é feita atualmente. Não me diz nada e é muito cara e nada perfeita. Gosto de perfeição!

Meu coração, minha mente, minha alma e noventa e tantos por cento do meu corpo é completamente masculino. O fato de eu ainda ter uma vagina em vez de um pênis não quebra a lógica de meu gênero masculino. Nada me faz sentir como se eu alguma vez estivesse numa “posição feminina”.

Entrevistador: Buck, gostaria de perguntar algo tanto para mim quanto para as dezenas de milhares de gays mundo afora que sempre se indagaram sobre isso mas não têm maneiras de saber: o que é mais gostoso, sexo anal ou vaginal?

Buck Angel: Recebo muito retorno de caras que fazem muito sexo anal [como ativos] dizendo que penetrar uma vagina é realmente bom. Francamente, me surpreendi com o número de gays que de fato gostam de sexo vaginal, pelo menos quando a vagina está num homem.

Adoro fazer sexo vaginal e preciso até treinar mais o anal. Mas por que eu teria que fazer sexo por trás se tenho uma vagina perfeita para uso? Todos os homens gays com quem já saí têm bastante experiência com sexo anal, então comigo é uma experiência única. Já tentei penetração dupla mas sou bem apertado por trás. Mas pretendo tentar. Também quero deixar claro que isso não me faz um passivão ao ser penetrado. Sou um ativo que gosta de ser estimulado vaginalmente. Ser penetrado tampouco me faz sentir como uma “mulher”. Eu me sinto como um garanhão fodedor que tem uma vagina!

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Fonte: Outrate. Mais informações: www.buckangel.com. Veja um vídeo com a biografia de Buck Angel no YouTube.

Tradução e adaptação: blogueira

31 Julho, 2009

A felicidade [também] é uma questão de foco


Uma amiga muito querida tem estado muito desiludida com a vida desde que iniciou sua transição de gênero e começou a sentir na pele o preconceito social (e da família). Como se não bastasse, sua relação amorosa de vários anos também teve fim. Conclusão, a vida para ela parece ter perdido a cor e tudo ficado cinza – e tem estado assim há meses, e o pior: sem perspectiva de mudança.

A amargura e a ausência de viço para a vida nos deixa mais pobres e menos interessantes. As pessoas tendem a se afastar, só os poucos e fieis amigos ficam. Minha amiga, outrora uma pessoa interessantíssima, entregou-se ao fel do sofrimento ao esquecer a doçura dos muitos prazeres que a vida já lhe proporcionou e pode proporcionar (nada mais a satisfaz, nem os pretendentes a novo amor, nem um fim de semana num animado piquenique à beira-mar com amigos). Constatação: ela empobreceu.

Refletir a situação por que ela passa me mostrou que a tristeza e a desilusão são mesmo algo democrático, que bate a nossas portas num momento ou noutro da vida. Entretanto, não deixei de lembrar que a felicidade e a esperança também o são. Por isso, talvez o segredo da dita felicidade seja mesmo recalibrar o foco e tentar no dia-a-dia dar mais importância àquilo que nos faz bem e menos ao que nos faz mal. Rir sozinha, fazer o que se gosta, cuidar de si, ir às comprar, criar um gatinho/cachorro lindo, viajar, fazer um curso interessante, mudar ou investir na profissão, acalentar planos – mesmo os aparentemente inatingíveis – é viver, ser feliz.

Convenhamos, a felicidade que depende do outro também soa como algo perigoso. Talvez a verdadeira felicidade tenha mesmo sua fonte dentro de nós mesmos (particularmente creio bastante nisso) e não nos deixa servos de um algo ou alguém que achamos que nos pertence. Se um amor, um emprego, um lugar ou um bem material for seu único motivo de felicidade, provavelmente deve haver algo a ser repensado aí.

Tudo bem, nós, ditos “diferentes”, somos mais estigmatizados na sociedade e o preconceito nos mostra a face mais cruel, deixando mais frequentemente maiores “baixas” no [nosso] front. Mas será que se entregar irremediavelmente à lamuria não signifique fechar de vez as portas à felicidade e ao espectro de possibilidades boas que a vida também nos dá? E o amanhã? E daqui a uma semana? Ora, a vida não é dinâmica? Então reaja!

A vida tem a cor que você impõe a ela

Todos nós temos nossos calcanhares-de-aquiles, mas também – e graças aos céus – razões para cantarolar e rir. Por isso acredito na máxima que diz que devemos valorizar o que temos de melhor – e cada um de nós tem algo que nos faz tão únicos, seja a beleza, o talento para algo, o raciocínio rápido, a capacidade de se relacionar bem com os outros, a saúde impecável, um corpo bonito, a compaixão e empatia com o outro...

Enfim, todos temos qualidades e predicados que nós fazem quem somos. Sendo assim, ao enfatizar o lado cinza da vida e esquecer as nuances de cor-de-rosa ao nosso redor, estamos nos declarando derrotados de antemão. Portanto, caso esteja irremediavelmente imerso(a) num mundo onde predominam os vários tons cinza, que tal repensar seu foco e sua paleta de cores o quanto antes e buscar colorir mais a vida?

14 Junho, 2009

Cantora Cher perde filha e ganha filho


A filha da diva pop Cher fará uma cirurgia de transição de gênero e mudança de sexo para converter-se em homem, confirmou seu porta-voz.

Chastity Bono, uma escritora de 40 anos e também ativista pelos diretos humanos LGBT, começou o processo de transição de gênero no início do ano, confirmou o porta-voz Howard Bragman. Chastity é filha de Cher com Sonny Bono, ambos conhecidas estrelas da música pop americana.

“Chaz tomou a valente decisão de honrar sua verdadeira identidade. Ele está orgulhoso de sua decisão e agradecido pelo apoio e respeito que lhe mostraram as pessoas que ama. É o desejo dele que sua condição abra os corações e mentes do público em relação a esse tema, como na época em que saiu do armário há 20 anos, então como lésbica.”, completou Bragman.


Fonte:
MSN notícias.

09 Maio, 2009

Masculinização da mulher atual vs transexuais-objeto


É irônico se dar conta de que foi justamente a masculinização da mulher no mercado de trabalho o que elevou seu nível de respeito perante o homem. O tailleur, roupa criada pela estilista francesa Coco Chanel, é responsável por boa parte disso.

Vejam só: quem iria – numa reunião de altos executivos – levar a sério uma gerente ou diretora que chegasse vestida à Marilyn Monroe no filme “O Pecado Mora ao Lado”? (Sim, com aquele vestidinho provocante que esvoaçava com a ventania de uma galeria de metrô - foto abaixo.)

O tailleur surgiu portanto basicamente para ajudar a mulher a se inserir no universo masculino de outra forma que não por sua imagem sensual, curvilínea e erótica. Ele virou o terno delas – adaptado, claro –, mas um terno que tirou esse ar hiper-sexualizado que vestidos decotados e a alegoria que frufrus e acessórios trazem.

Mulher: objeto de conquista em franca mutação

Por todo o curso da história humana até recentemente o homem foi o sexo absolutamente dominante no universo comercial. Seu principal objetivo era juntar bens e poder para conquistar mulheres, de preferência voluptuosas e sensuais, que realizassem suas fantasias masculinas e talvez viessem a se tornar esposas e mães.

Com a revolução feminista, as mulheres tiveram que sair do armário com atitudes e indumentárias mais masculinas, que desvalorizassem as curvas e o corpo e acentuassem suas idéias e seu poder de decisão, para com isso bater de frente com o status quo reinante – a hegemonia masculina.

Lembrando: até então, o ideal das mulheres era ser uma femme fatale à Marilyn Monroe.

Nicho de mulher-objeto reocupado por transexuais

Falei isso tudo para dar minha opinião a respeito do que acho do preconceito sobre transexuais e transgêneros atualmente.

Hoje em dia, as trans estão trazendo para si – ao buscarem apenas a valorização do físico, da imagem e das atitudes de mulher-objeto, sem planos de vida e carreira – muito mais preconceito, estigma e desrespeito social.

Não sou contra ter lindos seios ou curvas voluptuosas, isso todas queremos, mas investir apenas nisso deixa todo o grupo no mínimo fragilizado e mais longe de seus ideais de igualdade social. É tão verdade que de vez em quando vemos a mídia alardear notícias do tipo: “transexual xis faz doutorado”, “transexual ípsilon é médica”, “transexual fulana vira vereadora”, como se isso fosse um evento comparado à descoberta da penicilina – e talvez o seja mesmo [risos].

Ora, o nicho que as transexuais em geral – eu não estou generalizando – ainda ocupam é de mulheres-objeto pagas para homens “darem umazinha” no pós-escritório, uma imagem da qual as mulheres modernas e com planos de vida profissional e de igualdade social querem fugir (por saberem do perigo real que isso representa para suas conquistas tão duramente conseguidas).

Eu acho que muito do preconceito é alimentado por nós mesmas (as que se conformam em ser apenas mulheres-objeto na vida), pois em vez de procurar fugir dos estigmas, muitas buscam o caminho mais fácil e rentável – leia-se a prostituição e a exposição do corpo como valor máximo (infelizmente o termo transexual é ainda hoje sinônimo disso). Agora o estigma já está forte demais e até as que buscam outras posições ou que vêm de um background mais refinado sentem dificuldades em vencer o preconceito (porque chegou a um ponto muito crítico de exclusão social e estigma, difícil de combater).

O processo portanto já deveria estar mudando. Acredito que enquanto o caminho mais fácil for esse (leia-se corpo e sexo), o preconceito e a imagem sobre nós não mudará, mesmo com leis antidiscriminatórias e ações afirmativas dos governos. Dito isso, o xis da questão é o auto-respeito e a mudança de rota de vida.


Em tempo: sei que esse problema tem muito mais variáveis em jogo e começa desde a expulsão do filho de casa por este ser “diferente”. Mas os tempos já são outros e as famílias já lidam melhor com isso. É chegada assim a hora de transgêneros e transexuais se auto-afirmarem socialmente também com outras possibilidades de vida, não deixar esse papel de lutar contra o preconceito apenas para governos, sociedade e afins, pois, se for assim, a batalha já está perdida de antemão.

24 Abril, 2009

Biografias Trans da CPLP¹ - Gretta Star


Impossível não se apaixonar pela história de Gretta Star. Transformista? Travesti? Transsexual? Definições à parte, Gretta é uma das maiores artistas da noite paulistana. Ela está nela há 30 anos e continua sorrindo, sempre bela e querida.

Ela nunca subiu ao palco sem saber o que iria desempenhar. Fez aula de dança, interpretação e, como dominava a língua inglesa, sabia o que estava dublando. Pesquisava as cantoras, autores das músicas e assistia a filmes e fitas de shows, muitas originais de shows da Broadway.

Nunca parou de estudar e chegou a se formar como Tradutor e Intéprete na faculdade Ibero-Americana em São Paulo. Várias empresas permitiram que ela se candidatasse a vagas de emprego sem saber da verdadeira identidade. Passava em todas as fases até os psicotestes. Era reprovada por não "se encaixar nos requisitos". Desculpas esfarrapadas que consumiam Greta por dentro.

Foi a uma grande editora fazer um teste e depois de passar por várias etapas levaram-na à direção e perguntaram se ela fosse admitida, que banheiro deveria usar. Desprotegida e sem ação, saiu correndo ao som de gargalhadas. Engoliu tudo.

Viajou pelo mundo e encheu dois passaportes inteiros de vistos. Ficou quase dois anos pelo Oriente e Ásia, esteve na Inglaterra, fez show para príncipes no Brunei, no iate do Rei da Suécia e se enfiou em cruzeiro pelo Rio Amazonas. Japão, Coréia, China, Inglaterra, Emirados Árabes e França são alguns dos países em que se apresentou na década de 80, mostrando seu show essencialmente brasileiro. Com um vestido de estampa reproduzindo o calçadão de Copacabana, uma k7 com “Garota de Ipanema” na bolsa e um rolo de Super-8 que exibia nas casas noturnas para trabalhar, Gretta viveu como estrela.

Mas antes de chegar ao Japão, onde morou por dois anos, apresentando-se com enorme sucesso em várias casas noturnas e percorrendo o Oriente quase todo com seu show, Gretta fez sua carreira aqui no Brasil.

Engana-se quem pensa que ela surgiu em São Paulo, como tantas outras. Gretta nasceu no litoral paulista, mais especificamente em São Vicente, no clube Pink Panther, em meados dos anos 70. “Minha madrinha na noite como artista foi Tânia Star, por isso meu sobrenome, ela era minha incentivadora, minha amiga querida.”, conta. Nessa época, Gretta foi Miss Santos Gay 1978, ganhou destaque no jornal Tribuna de Santos com uma foto sua com o título de Miss e decidiu que devia participar do Miss São Paulo Gay.

Em seu charmoso apartamento no centro de São Paulo, ela falou abertamente sobre sua vida, seu trabalho e seus projetos futuros. Veja os trechos mais legais da conversa:

Como foi o amadurecimento da consciência de que você era "diferente" na sua infância e adolescência? Como você lidava com isso na escola e em casa?

Acho que fui até mesmo um tanto "retardada" nessa passagem, pois aconteceu tudo muito naturalmente: ou porque a família negava-se a enxergar o que estava claro ou por eu mesma não ter tido alguma referência do que era eu ser homem ou "viadinho" (como se falava na época).

Fiz tudo o que um menino faz e tudo o que uma menina também faz. Não me tocava se havia repreensão da família ou amigos, por isso que disse que acho que era "retardada". Na escola, sempre fui uma boa aluna e muito inteligente para todas as matérias. E eu era caricata, palhaçona e divertida. Sobressaía-me assim. No teatro da escola fiz personagens masculinos, mas os femininos eram os em que me saia melhor... E daí é que tudo se misturou num caldeirão e saiu o que sou hoje

Quando você começou a tomar hormônios? Sua transformação foi feita de que forma?

Faço hormonoterapia desde os 20 anos. É lógico que agora não tanto, pois o que tinha de transformar já transformou. Fiz sim vários reparos com silicone, mas não o industrial, o cirúrgico, a que poucos têm acesso por ser muito caro. Apenas uma pessoa trabalha com esse produto aqui no Brasil, a minha amiga Terta, que tem feito um bom trabalho em mim e em todas que caíram em suas mãos, mas é bem caro...

Como as travestis são tratadas em outros países?

Em uns com mais respeito, em outros com algum respeito (o nosso, por exemplo) e em outros sem respeito nenhum. Certos tópicos são valorizados mais aqui, outros menos ali... Dois exemplos são o Irã e o Egito, países muçulmanos. Os gays são perseguidos até com pena de morte, porém se algum transexual for descoberto, o governo se encarregará de dar toda a assistência médica e psicológica e até cirurgia gratuita. Pode acreditar.

A escolha de elas viverem ou não em seu país fica por conta delas próprias. Isso porque depois terão que viver como mulheres, e lá as mulheres estão em sua grande maioria em segundo plano, todos sabem disso. Na Europa, assim como no Japão, Austrália e EUA, elas estão em grande vantagem, digo, bastante avançadas, pois vão tomando conta de seus direitos e lutam por eles. Já aqui é aquela coisa: pão, circo, carnaval e camisinha, tá óootimo, como diz minha amiga Silvetty Montilla... e não tem união!

Família


Sou a caçula da casa. Tenho mais dois irmãos, Eliana e Sílvio. Meu pai era farmacêutico da Marinha de Santos e também teve por muitos anos uma famosa farmácia em Santos chamada Martins Fontes.

Desde novinha meus pais perceberam que eu seria diferente. Tive uma vida familiar maravilhosa, com problemas como qualquer uma família tem mas com muito amor e respeito. Eu me sinto abençoada por ter tido uma família e uma formação tão boas. Como estudante, não deixava que nenhum tipo de manifestação preconceituosa me abalasse, sempre fui meio debochada e não levava adiante provocações e coisas do tipo. Entretanto, não posso dizer que não fui discriminada, mas não me afetei por isso e vivi muito bem entre os colegas, do jardim da infância até a faculdade.

Aviação

Tenho paixão pela aviação, amor seria a palavra correta. Sei tudo sobre aviação. Acredita que hoje existem três comissárias de bordo transexuais e – pasmem! – uma piloto trans na American Airlines? O contraditório é que mesmo com todo esse meu amor pela aviação, morro de medo de avião, viajo sempre tensa. Engraçado, não é?

Miss

Adoro concursos de Miss, acompanho desde mocinha. Fui Miss Santos Gay em 1978 e também Miss Universo, representando os Estados Unidos na mesma época. Foi daí que minha família descobriu a Gretta, antes eu era mais discreta em relação a minha vida de artista da noite em casa. Foi um babado!

Saiu uma foto minha com um comentário meu em uma revista e minha mãe leu. Antes ela tinha visto outras fotos minhas na Veja e na Fatos e Fotos e nem tinha percebido, mas nessa entrevista eu disse meu nome de registro e batismo. Erasmo! E aí assumi Gretta de vez em casa. O júri do Miss Universo era um babado: Wanderléia, Rosemary, Wilza Carla... imagina?!

Hoje existe um "mundo LGBT" mais escancarado, no bom sentido. Ainda assim, as travestis são muito discriminadas e vivem isoladas. Como você vê isso?

Isso é muito complexo e me traz diferentes definições. Acho que a sociedade é culpada, sim, dessa discriminação e isolamento. É o medo dos pais quando começam a criar seus filhos e colocam na cabecinha deles que "aquilo" é uma vergonha, um descaramento e um exemplo negativo de vida. O pior de tudo vem depois com a imagem. Muitas ficam tão lindas que a beleza agride.

Quem são os que mais agridem? Os próprios "gays" não assumidos (os piores) e assumidos – esses são um terror para nós: vão sempre precisar de uma trans para apontar e difamar (e dão o rabo por debaixo dos panos). É isso o que sempre achei. Por isso há a discriminação de muitas de nós em ocupar cargos ou posições importantes.

Imaginem o que Roberta Close não passou quando tentou lançar seu livro de memórias? Foi convidada várias vezes para se retirar do país... Aff!!

Você estudou, formou-se e viajou pelo mundo. Em quais lugares você já esteve?

Comecei minha viagem pelo mundo durante uma audição do show de Rosemary pelas Américas. Dos Estados Unidos, fui parar no Japão, onde fiquei por um bom tempo. Dali saí pela Ásia, com uma fita VHS debaixo do braço, dois vestidos e um par de sapatos enfiado numa bolsa. Com cara de pau e coragem, me apresentava às casas noturnas mostrando o que sabia fazer. Uns me aceitavam, outros não, mas eu era danada me virava de algum jeito.

Cheguei a trabalhar até na “Rosary Church”, uma igreja católica em Hong Kong (distribuindo santinho, pode?) em troca de um lugar pra dormir e todas as refeições... Aprendi tanto que você nem imagina!

Fui depois para Filipinas, China, Taiwan, Coréia, Macau, Tailândia, Malásia, Indonésia, Brunei, Perth (na Austrália), Índia, Emirados Árabes, Inglaterra, Luxemburgo, Bélgica... Sempre pulando de um lugar pro outro, ganhando passagens, trabalhando, fazendo shows, "atendendo" (não tava morta)... Falando inglês (que eu domino), um pouco de francês com espanhol, japonês... Uma salada de Babel.

Japão

Morei dois anos e meio no Japão, trabalhando em casas noturnas como showgirl e hostess. Através desses trabalhos viajei quase o Oriente todo. Fiz shows até nos Emirados Árabes! Meu patrão, o Sr. Nakamura era um homem muito gentil e me adorava. Ele me deu trabalhos ótimos mas nem tudo foi maravilhoso. Também tive péssimos trabalhos lá fora e aqui. Na época em que morei no Japão ainda não tinha tido o boom de brasileiros dekasseguis lá, a maioria dos brasileiros que eu encontrava lá ou eram estudantes ou artistas.

Quando eu precisei me virar lá fora, saía procurando trabalho em casas de shows com uma bolsa onde eu carregava um rolo de filme Super-8 com dois shows meus gravados aqui no Brasil, um vestido com uma estampa que remetia ao calçadão de Copacabana e um k7 com a música “Garota de Ipanema” pra eu cantar. Que delícia!

Fatos e Fotos

Uma capa da revista Fatos e Fotos trazia em destaque a prisão de várias travestis que eram as maiores estrelas da noite. Vivíamos a repressão dos anos 70, essa coisa toda. Lembro que foi vendo essa revista que me dei conta de quem eu era, sabe? Uma delas me trouxe mais consciência de que não podia viver jamais como um homem.

Um assunto delicado, porém que tem o papel de esclarecer outras pessoas. Quando você se tornou portadora do vírus do HIV e como descobriu?

Eu descobri desconfiando... Ficava vendo e me amargurando com a perda de tantos colegas e amigos em minha volta e me perguntava: ‘Por que eu me livrei disso?’ Essa questão me maltratou por anos, sem que eu tivesse coragem de averiguar, até que em 1999 tive sérios problemas como várias infecções e então se constatou o HIV+. Mas já era tarde, quanto aos sofrimentos que teria de passar com essas infecções... Foi muito duro, para mim e para minha família, sim! Perdi amigos (não eram amigos!!), apartamento e meu grande amor. O mundo fez-se um buraco sob meus pés, mas foi minha família e alguns cinco anjos da guarda que me seguraram e não me deixaram entregar-me.

Então veio a luta, a coragem de menina que sempre tive, e virei o jogo. Faço uso do coquetel com o qual tive uma adesão fora do normal e tenho uma vida de muito melhor qualidade, em todos os sentidos. Sou uma das mascotes do CRT-DST AIDS de São Paulo e já dei várias entrevistas sobre o tema inclusive online e via satélite para CNN, BBC, NHK... e por aí vai. E guardem isso: foi assim que afastei os meus fantasmas.

Noite

Saí a primeira vez e fui a uma sauna com um grupo de amigas que mais tarde se tornaram travestis também, fomos na Sauna Castelinho, na Penha. Mas as saunas eram diferentes do que são hoje em dia, não tinham shows e go-gos. Era só banho-turco e mais nada.

Depois conheci o Medieval – clássico clube gay paulistano dos anos 70 e 80 –, ia sempre ver os shows das transformistas: Brigída Barda, Miss Biá, Veneza, Ira Velasquez, Tânia Star, eram alguns nomes. Tinha tantas que eu levaria horas falando de cada uma pra você, todas tiveram seu papel relevante. Nós fazíamos shows pelo Brasil todo e eram shows lindos que hoje você vê em poucos lugares. Sinto a necessidade de mostrar para todas as transexuais e travestis mais jovens que estão aí quem fomos, nossa importância e que não era só de prostituição que se fez nossas vidas. Éramos acima de tudo artistas.

Pra fecharmos a entrevista, Gretta abriu seu imenso arquivo de fotos e ilustrou tudo o que havia me contado e disse já ter chorado muito vendo aquelas fotos. São mais de mil fotos que registram não somente sua vida, mas uma parte enorme da noite paulista gay nos últimos 30 anos.

“Já chorei muito olhando essas fotos, mas isso foi só um momento de saudosismo que tive um tempo atrás, eu olho pra frente. Tenho projetos e muito trabalho com que me ocupar. Tem o “Segunda Acontece”, também um curta-metragem do cineasta René Guerra para ser lançado que se chama “Os Sapatos de Aristeu”, além de minhas noites de sábado na Freedom. Ufa! E muito mais...

Rapidinha com Gretta:

Cidade favorita: Hong Kong (no mundo) e Santos (no Brasil).
Ídolo: alguém de quem tenho muito respeito, minha mãe.
Decepção: alguém que deixou o meu carinho e amizade pelo sucesso.
Sonho: visitar os mesmo lugares onde sofri e fui feliz...
Mico: tirar a toda a roupa diante de policiais femininas em Taiwan.
Livro: Menino do Engenho, de José Lins do Rego.
Programa de TV: qualquer um da televisão paga, por exemplo "Saia Justa".
Música: sou eclética, mas as que ainda me fazem chorar: "Stranger in the Night", "Moon River", "The Long as Wind Road", "Go West" e "Se Todos Fossem no Mundo Iguais a Você".
Um amor: Marcelo.
Um amigo: um grupo de cinco anjos da guarda.
Família: minha reverência eterna.
Medo: ter medo é ter insegurança.

Fonte: sites MixBrasil e Parou Tudo.

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19 Abril, 2009

Biografias Trans da CPLP¹ - Fernanda Benvenutty


Fernanda Benvenutty (nascida Eliziário Benvindo da Silva, em Remígio, Paraíba, 9 de fevereiro de 1962) é uma enfermeira e militante transexual brasileira dos Direitos Humanos GLBTT.

Ainda na infância, Fernanda se deu conta de sua transexualidade. Aos 14, fugiu de casa em um circo, no qual foi artista (palhaça, trapezista, apresentadora de espetáculos e atriz teatral).

Posteriormente, percebeu que poderia militar em favor das causas das minorias e se engajou politicamente. Fernanda tem um marcante histórico de militância pelos direitos dos transexuais e transgêneros em João Pessoa, onde foi inclusive candidata a vereadora pelo Partido dos Trabalhadores - PT. É presidente-fundadora da Associação dos Travestis da Paraíba - Astrapa e vice-presidente da Antra (Articulação Nacional dos Transgêneros). Seu lema de militância é a promoção dos direitos humanos de gays, lésbicas, bissexuais, transgêneros e transexuais. Em novembro de 2004 fundou a agremiação carvalesca "Império do Samba".

Em abril de 2005, Fernanda, com uma comissão de militantes do movimento GLBTT brasileiro, discursou na Câmara dos Deputados em Brasília, junto à Comissão de Direitos Humanos e Minorias, para reivindicar verbas para programas de combate à homofobia.

A militante atualmente reside em João Pessoa, capital paraibana.

Fonte: MixBrasil, Gmagazine e Wikipédia

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17 Abril, 2009

Biografias Trans da CPLP¹ - Walkiria La Roche


Walkiria La Roche é uma militante transexual dos Direitos Humanos e artista brasileira.

Bacharel em Educação Física pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG e especialista em Gestão de Políticas Públicas pela Pontifícia Universidade Católica - PUC, Walkíria focou sua carreira no ativismo pelos Direitos Humanos.

Atuou como líder da Associação de Travestis e Transexuais de Minas Gerais (Asstrav) por mais de uma década e por quatro anos coordenou o Centro de Referência da Diversidade Sexual do estado. Atualmente ocupa um cargo como docente do Centro de Treinamento da Polícia Militar do Estado de Minas Gerais, onde atua na capacitação de agentes perante o público GLBT. É também membro da Câmara Técnica de segurança pública da Secretaria Nacional de Segurança Pública – SENASP.

No dia 7 de janeiro de 2006, ela foi eleita durante o mandato do governador Aécio Neves para ocupar o cargo de coordenadora do Centro de Referência Homossexual de Minas Gerais, tornando-se a primeira transexual a ocupar um cargo executivo no governo mineiro. Walkíria também ocupa uma cadeira no Conselho Estadual dos Direitos Humanos.

Entre outras atividades, ela é hostess da boate Josefine, localizada na capital mineira, Belo Horizonte.

Entrevista da diva ao MixBrasil

Como você chegou à coordenação do Centro de Referência Homossexual de Minas Gerais?

Na verdade, tenho uma história longa. Sou presidente de uma organização não-governamental que trabalha com prevenção de aids há 15 anos. Desde então, tenho contatado outras ONGs e participado nos debates sobre direitos GLBTs. Na Associação de Travestis e Transexuais de Minas Gerais, meu público é formado principalmente pelos profissionais de sexo.

Profissionais trans?

Principalmente, mas não só. Aqui em Belo Horizonte, a prostituição nas ruas é bastante mista. Na Avenida Afonso Pena, por exemplo, trabalham juntas trans e mulheres. Na Pampulha, trans e garotos de programa.

Mas hoje sua atuação não é apenas com os profissionais do sexo. Como ocorreu a ampliação?

Direcionei minha luta para a questão mais ampla dos direitos humanos e hoje ocupo uma cadeira no Conselho Estadual de Direitos Humanos. Foram os movimentos – de direitos humanos e de GLBTs – que me acolheram e apoiaram minha candidatura para o CRH-MG. Foi um processo totalmente democrático.

Mas você é uma exceção no meio trans, não é?

Sim, mas minha eleição para o CRH-MG é uma vitória enorme. E é uma pena que eu seja exceção. Para muitos trans, só existe o mercado de sexo para trabalhar. Eu fiz da minha militância meu recorte de vida. Deixei de lado a idéia de muitas colegas de ir para a Europa, enriquecer e voltar para o Brasil. Conheço muitas que retornam com muito dinheiro, compram carro, apartamento de cobertura, mas continuam a ser discriminadas como cidadãs. É contra isso que eu luto.

Quer dizer que a militância é sua vida?

De certo modo, sim. Eu transformei minha vida em militância. Quando eu tinha 16 anos, fui expulsa de casa devido a minha orientação sexual. Sou de uma família de magistrados que “acharam melhor” eu ficar no gueto. Isso me chocou muito porque são pessoas esclarecidas, com condição social melhor que muita gente que conheço.

Percebi que o preconceito é intrínseco ao ser humano, não importa a classe ou origem social. Consegui nunca me prostituir. Desde sempre, eu não quis respeitar as imposições da minha família. Na universidade, comecei a me travestir. Terminei a faculdade de Educação Física e quis trabalhar em prol dos direitos para GLBTs.

Como é seu trabalho com policiais?

Eu foco na defesa de direitos humanos. Há uma visão distorcida sobre esse tema e, em geral, a lei não se aplica para as trans: nem para o acesso aos direitos, nem para cobrar os deveres.

Que planos você tem para o CRH-MG?

O projeto é bastante complexo. Não quero ficar naquela de só aplicar advertências para os estabelecimentos que discriminam gays, lésbicas e trans. Claro que vou defender a entrada, permanência e troca de afeto em todos os locais, mas quero lutar também pela inclusão social. Por isso, vamos trabalhar com escolas, com os educadores. Se um aluno tem trejeitos, o que isso significa? Como a escola pode lidar?

Também acho importante que o centro tenha interlocução com os serviços de saúde, porque é uma forma de garantir a dignidade. Politicamente, vamos trabalhar com homossexuais candidatos nas próximas eleições.

Você está satisfeita com seu trabalho?

Sim, estou contente. Estou orgulhosa por representar os GLBTs, mas sei que ainda tenho muito para fazer. Mas quero deixar claro que não galguei os passos até onde estou sozinha. Contei com o apoio de toda a militância. Sou artista, fiz Tablado e hoje trabalho no Josefine (clube em Belo Horizonte) às quintas e sábados. É disso que eu vivo.

Fontes: Wikipédia, Istoé e MixBrasil.
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14 Abril, 2009

Biografias Trans da CPLP¹ - Nany People


Nany People (nascida Jorge Demétrio em Machado, 1 de julho de 1966) é uma humorista, comentarista e repórter de TV, além de drag queen brasileira.

Nany fez curso de extensão universitária de interpretação pela Unicamp e estudou teatro na escola Macunaíma.

Desde 1997 assina uma coluna na revista G Magazine e é frequentemente contratada como apresentadora de shows, eventos performáticos, telegramas animados, feiras e convenções.

Na TV, ganhou projeção nacional em 1997 como repórter do programa “Novo Comando da Madrugada”, de Goulart de Andrade, na extinta Rede Manchete. Em 1998, atuou na peça “Um Homem é um Homem”, com direção por Alexandre Stockler no Teatro Faap, em São Paulo. Com o fim do programa de Andrade, em 1999, foi repórter do programa Flash na Rede Bandeirantes, retornando em 2000 ao Comando da Madrugada, agora na Rede Gazeta. Foi quando estreou no Programa Hebe fazendo entrevistas e links ao vivo, entre 2001 e 2006. Dali foi para o banco da praça mais famosa do Brasil, integrando o elenco do A Praça É Nossa a partir de 2007.

No cinema, atuou ainda ao lado de Caio Blat numa participação especial no filme “Cama de Gato”. Em 2001, participou do filme “Acredite, um espírito baixou em mim”. Nesse mesmo ano, no rádio, participou do Zíper na Rádio Jovem Pan, e a partir de 2002 fez parte do elenco do programa Sexo Oral na 89 FM, além da participação fixa semanal no Pânico, na Jovem Pan.

Em 2007 estréia seu novo espetáculo de humor "Nany People Salvou Meu Casamento" no teatro Brigadeiro, com o slogan "Uma aula de amor e muito humor". Participa de um quadro que fala sobre a vida dos famosos, no programa “A tarde é sua”, capitaneado por Sônia Abrão.

Fonte: Wikipédia

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13 Abril, 2009

Biografias Trans da CPLP¹ - Nádia Almada


Nádia Almada (Ilha da Madeira, 28 de Janeiro de 1977) é uma transexual portuguesa. Conhecida pelo fato de ter sido vencedora em 2004 da quinta edição do programa "Big Brother" do Reino Unido,

Nádia nasceu na ilha portuguesa da Madeira com o nome de Jorge Leodoro Almada, e é filha de Conceição e de José Luís Almada. Quando tinha 11 anos, a sua família deixou a localidade do Campanário emigrando para Pretória, na África do Sul. Aos 16, sua mãe separa-se do pai (devido aos problemas de alcoolismo deste) e Nádia regressa à Madeira com os irmãos.

Em 1996 Nádia decide emigrar para Inglaterra, fixando residência em Woking, onde trabalhou como atendente e funcionária de um banco. Poucos meses antes de entrar no programa "Big Brother", Nádia tinha se submetido à cirurgia de redesignação sexual - CRS. Os outros participantes no programa ignoravam que Nádia tinha sido um homem, mas o público conhecia a sua situação. Ela temia ser expulsa pelo público logo na primeira semana do concurso, mas rapidamente se tornou uma dos concorrentes mais populares de sempre. A sua vitória, com cerca de quatro milhões de votos e uma audiência no último programa de nove milhões de telespectadores, foi saudada por grupos de defesa dos direitos dos transgéneros no Reino Unido.

Desde então, Nádia lançou uma canção intitulada A Little Bit Of Action, que foi um sucesso da música pop no Reino Unido. Teve ainda uma pequena participação na telenovela Hollyoaks e é uma figura frequente nas revistas de celebridades. Em 2005, ela passou os últimos dias do programa Big Brother da Austrália com os três concorrentes finalistas, tendo também se tornado popular entre o público daquele país.

Fonte: Wikipédia

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10 Abril, 2009

Biografias Trans da CPLP¹ - Thelma Lipp


Thelma Lipp (São Paulo, 1962 — São Paulo, 9 de novembro de 2004) foi uma modelo e atriz transexual brasileira.

Sucesso nos anos 80 e 90, Thelma Lipp foi jurada do quadro "Eles e Elas", do Clube do Bolinha, e atuou em diversas peças de teatro, filmes, além de posar nua em revistas eróticas masculinas. Apesar de não ter sido geneticamente uma mulher, Thelma foi, no auge de sua beleza, considerada uma musa, ao lado de Xuxa, Luiza Brunet e Roberta Close.

Desde criança já era fisicamente muito feminina. Sempre contou com o apoio da família, tanto que o nome Thelma Lipp foi dado por sua própria mãe. Aos 16 anos, ela já causava admiração e fascínio por suas beleza e feminilidade, mesmo sem o uso de hormônios artificiais. Alguns anos mais tarde seria uma das belezas mais celebradas do Brasil.

No começo dos anos de 80, Thelma surgiu como uma resposta paulistana à transexual carioca Roberta Close. Ambas chegaram a disputar, durante toda a década, capas de revistas de todo o Brasil. Roberta fazia o tipo “mulher fatal”, enquanto Thelma o gênero “garotinha”. Contudo, ambas de belezas extraordinárias. A surpreendente beleza abriu-lhe portas, trouxe fama, admiração, amigos e tudo aquilo que um rosto e um corpo belos – acompanhados de inteligência – podiam trazer. Contudo, o fato de ser transgênero tornou sua vida muito difícil.

Ocaso e breve ressurgimento da estrela

Após brilhar em toda década de 80, Thelma se viu nocauteada pelo fenômeno drag queen da década de 90. O ostracismo bateu à sua porta. Sem trabalho e sem dinheiro ela buscou a prostituição. Sua vida já não tinha o mesmo glamur de seu tempo de celebridade do mundo artístico. Logo, ela começou a sofrer de síndrome do pânico, enclausurando-se durante cinco anos em seu apartamento a maior parte do tempo. Para fugir da síndrome, Thelma buscou as drogas, o que agravou ainda mais seus problemas.

Auxiliada pelo Programa para Dependentes Químicos do Coronel Ferrarini, no final dos anos 90, em São Paulo, ela conseguiu vencer o vício. Tornou-se então uma porta-voz na luta para a recuperação de drogados. Teve um breve momento de retomada à carreira, ao fazer algumas peças e teatro e televisão. A retomada da carreira lhe trouxe de volta um pouco de confiança e da auto-estima de outrora.

Em 1987, os cineastas suíços Pierre-Alain Meier e Matthias Källin vieram ao Brasil para filmar "Dores de Amor", filme-documentário sobre a vida de quatro transgêneros brasileiros em São Paulo. O diretor Pierre-Alain não resistiu a beleza e feminilidade de Thelma e se apaixonou. Contudo, não houve reciprocidade por parte dela. Mesmo assim, pouco tempo depois, o cineasta faria o filme Thelma, ambientado na Grécia, que conta a história de um homem comum que se apaixona por uma transexual. A produção foi lançada mundialmente em 2001.

A morte da diva

Em 2001 foi convidada a fazer parte do casting do filme Carandiru, de Hector Babenco, no qual faria o papel de uma travesti presidiária de nome "Lady Di". Entretanto, apesar de ter participado dos ensaios com os outros atores e de ter feito laboratório por meses, sua indicação foi preterida por motivos de marketing. Em seu lugar, entrou o ator Rodrigo Santoro. Esse foi um golpe duro para Thelma, que já estava fragilizada e tentando se recuperar.

Já inveteradamente viciada em drogas, em agosto de 2003 ela foi internada em uma clínica de recuperação para dependentes químicos em Atibaia, interior de São Paulo, onde permaneceu até fevereiro de 2004. Após se recuperar, decidiu que não queria mais uma vida de agitação e flashes. Cortou os cabelos e foi para a mesa de cirurgia para retirar as próteses de silicone. Decidiu se mudar com a família para o Jaçanã, bairro paulistano onde passou sua infância. Vivendo pacatamente, fazia planos para a nova vida, quando, repentinamente, na manhã de 9 de novembro de 2004, acordou com o lado esquerdo do corpo paralisado. Era uma neurotoxoplasmose, doença degenerativa que, com o tempo, paralisa órgãos do corpo.

Foi internada durante um mês e voltou para casa, vindo a óbito por insuficiência pulmonar na véspera de Natal de 2004.

Vida artística


Teatro

•Terezinha de Jesus, de Ronaldo Ciambroni
•Filhas da Mãe
•Mil e uma noites

Televisão

•Jurada efetiva do quadro Eles & Elas do Clube do Bolinha (TV Bandeirantes)
•Participações no Programa Hebe Camargo

Cinema

•Dores de amor, de Pierre-Alain Meier e Matthias Kälin
•Thelma, de Pierre-Alain Meier

Mída impressa

•Revista Playboy
•O Estado de São Paulo
•Revista Transex
•Revista Contigo!
•Nova Cosmopolitan (editoriais)
•Revista Inglesa WE

Outros
•Festival de Locarno, Suíça (avant-première do filme Thelma)
•Campanhas publicitárias diversas para a mídia brasileira

Fonte: Wikipédia e GMagazine

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09 Abril, 2009

Biografias Trans da CPLP¹ - Laura de Vison


Laura de Vison (cujo nome de batismo era Norberto Chucri David), Rio de Janeiro, 7 de setembro de 1939 — Rio de Janeiro, 8 de julho de 2007, foi um ator e transformista brasileiro.

Carioca do Engenho de Dentro, filho de pais libaneses que comercializavam tecidos com a ajuda dos filhos, Laura estudou na Faculdade Nacional de Filosofia e licenciou-se em filosofia, psicologia e história. Como Norberto, viveu profissionalmente como professor de História em escolas públicas do Rio de Janeiro, mas em sala de aula não era um professor nada convencional. Certa vez, chegou a se vestir de Cleópatra para explicar a História do Egito.

Considerada a musa do underground carioca, Laura fez muito sucesso nas décadas de 70, 80 e 90 como transformista. Seu nome artístico surgiu ainda na década de 60 quando desfilava de biquíni e casaco de pele no Carnaval carioca. Até recentemente, Laura fazia shows na cena GLBT carioca e suas aparições eram sempre muito festejadas. Um de seus principais palcos foi o bar Boêmio, no Centro do Rio de Janeiro. Ali, era aplaudida por turistas, antropólogos, sociólogos, atores, cantores e personalidades internacionais, como o estilista Jean Paul Gaultier. Quando soube que Laura lecionava história e moral e cívica na rede pública, Gaultier ficou pasmo: "Interessante essa faceta dupla, isso não seria permitido pela moral francesa", declarou à imprensa.

Faleceu no dia 9 de julho de 2007 em virtude de insuficiência cardiorrespiratória decorrente de complicações de uma cirurgia para tratamento de problemas de hérnia. O enterro aconteceu no dia posterior, às 14h, no cemitério de Inhaúma, no Rio de Janeiro. Seu último trabalho foi a peça teatral "Dei a Elza em Você", em 2006. No espetáculo, três drag queens decadentes decidem montar um show com rapazes musculosos.

Curiosidades

•Em "O Fantasma da Ópera", comia o cérebro do fantasma: dois miolos crus, com quase 300 gramas.

•Na década de 70 foi presa por homofobia, segundo ela “simplesmente por ser gay”. Ficou dez dias em uma cela que lhe rendeu uma grande experiência de vida.

•Após 18 anos como professor no Colégio Capitão Lemos Cunha, na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro, perdeu o emprego porque respondeu às perguntas dos alunos sobre a transmissão sexual da aids.

Filmografia

•2005 — Mamãe Parabólica
•2005 — Laura, Laura
•2004 — Cazuza - O Tempo Não Pára
•2001 — Memórias Póstumas de Brás Cubas
•1999 — Você Decide (episódio Ninguém é perfeito)
•1994 — Incidente em Antares (minissérie) ... cantora Garcia
•1987 — No Rio Vale Tudo (Si Tu Vas à Rio... Tu Meurs)
•1985 — Noite

Prêmios

•Medalha de Ouro no Festival du Court-Métrage de Bruxelles, na Bélgica, em virtude do filme O Bigode da Aranha.

•Candango de Ouro, em Brasília, e Sol de Prata, no Fest Rio, na categoria de melhor ator em Mamãe Parabólica.

Fonte: Wikipédia.

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07 Abril, 2009

Biografias Trans da CPLP¹ - Filipa Gonçalves


Filipa Gonçalves (Lisboa, 2 de abril de 1980) é uma modelo e atriz transexual portuguesa.

Filipa nasceu com o sexo masculino, mas teve sempre uma atitude muito feminina, tendo feito aos 18 anos a Cirurgia de Redesignação Sexual - CRS para se tornar definitivamente mulher. Ela é filha mais nova de um dos grandes nomes que passaram pelo Benfica: o ex-jogador de futebol Nené.

Modelo da agência DXL Models, Filipa também é atriz. Participou na série "Camilo e Filho", além de ter feito alguns vídeos para o antigo programa da SIC, "Sex Appeal". Participou ainda da "Quinta das Celebridades", da TVI, além de aparecer no "Você na TV!".

Fonte: Wikipédia.

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24 Março, 2009

Biografias trans da CPLP¹ – Wal Torres


Wal Torres* (São Paulo, 1950) é uma terapeuta do gênero e sexóloga transexual brasileira.

Desde criança a terapeuta Wal Torres se sentia diferente e sonhava em ser menina. Já na fase adulta — mas ainda vivendo um papel social masculino em virtude de conflitos internos e externos sobre sua transexualidade —, formou-se em Engenharia Química pela USP, casou-se duas vezes e teve filhos de ambos os casamentos. Antes de decidir exteriorizar definitivamente o seu verdadeiro eu, pensou em sublimar tudo e viver no celibato, como monge. Nesse mesmo período, se submeteu a uma busca espiritual para tentar entender o que se passava dentro de si, chegando mesmo a se depilar totalmente com uma gilete, quase rituisticamente, e a passar uma noite em claro, em oração com rosto no chão, buscando refúgio na fictícia Patusan. Contudo, sua procura só a levava ao inevitável: sua alma feminina.

Com quase 40 anos, após duas décadas de uma vida próspera como engenheiro químico no Brasil e no exterior, tempo em que deu aulas em universidades e foi consultor de indústrias petroquímicas e de fertilizantes, decidiu aceitar de vez a sua condição e encarar sua própria transição de gênero (época em que já estava divorciada e distante de sua família). Esse foi um período de muitas perdas e ganhos na vida da terapeuta e sexóloga.

Inicialmente, ao transicionar, procurou o apoio de outros transgêneros, mas ao perceber que os aconselhamentos eram incipientes e arriscados, ela resolveu buscar a pouca ajuda especializada disponível na época para a comunidade transexual e transgênera. Pouco depois, devidamente tratada por uma endocrinologista e psicoterapeuta, e já levando uma vida como mulher, decidiu estudar os transtornos de identidade, problemas que sentiu na própria pele, o que a levou a fazer um Mestrado em Sexologia na Universidade Gama Filho, no Rio de Janeiro, tornando-se Mestre e PhD (Philosopher Doctor) na área.

Em 1998, publicou pela Editora Vozes o livro "Meu Sexo Real — a origem inata, somática e neurobiológica da transexualidade", usando o pseudônimo de Martha Freitas, como ficou mais conhecida no Brasil, principalmente na mídia. Com o mesmo cognome, escreveu "O Mito Genital", pela BelasPalavras, editora virtual. Anos mais tarde, com 47 anos, submeteu-se a uma cirurgia de redesignação sexual (CRS) com o Dr. Jalma Jurado, o mais respeitado cirurgião especializado em operações de mudança de sexo no Brasil.

Tencionando tornar mais conhecido o drama que sofrem transexuais e transgêneros, participou de entrevistas em vários programas brasileiros de destaque — na Globo, na Band, no SBT, entre outras. Hoje em dia, contudo, ressentida com o sensacionalismo que a mídia ainda dispensa ao assunto (com um enfoque pouco científico e muito especulativo), prefere recusar novos convites para falar do assunto. A terapeuta ainda representou o Brasil em vários congressos internacionais sobre disforia de gênero, como em 2001, quando participou do "XV Congresso Mundial de Sexologia", em Paris, no qual muitos solicitaram que ela divulgasse suas idéias e seus conhecimentos na área.

Desde agosto de 2001, atende pessoas com transtornos de identidade sexual de todo o mundo através de sua clínica virtual, a Gendercare. Nela, desenvolveu testes e métodos de avaliação pela Web, mediante os quais diagnostica e trata casos de transtornos de identidade de gênero.

Há anos advoga pela não-adequação cirúrgica de genitais em bebês com problemas de intersexualidade (hermafroditismo), preconizando que se deve aguardar a livre manifestação do paciente antes de qualquer intervenção, para que assim se evitem futuros casos de transtornos de gênero.

Contrariando a muitos e aos preconceitos enraizados, diagnostica jovens e avalia crianças, tendo criado game tests especiais para essas avaliações. Uma frase célebre que ela costuma usar é: “Em uma dor de dente não se espera a maioridade para proporcionar socorro ao paciente. O mesmo deve acontecer com crianças e jovens que sofrem de um transtorno de identidade de gênero.” A sexóloga acredita ainda que avaliar e estudar é uma coisa, interferir com terapias e cirurgias é outra. As primeiras (retardamento da puberdade e terapia hormonal cruzada) podem ser desenvolvidas precocemente (começando o retardamento aos dez anos, e, ao fim do diagnóstico, iniciando-se, quando for o caso, a terapia hormonal aos 12 ou 13 anos de idade). Cirurgias reparadoras definitivas, como a de transgenitalização, só aos 16 anos, idade que ela considera, pelo menos por enquanto, a mais conveniente.

Desde 2002 é membro titular da World Professional Association for Transgender Health, Inc. — WPATH (ex-HBIGDA), a mais respeitada entidade que estuda e trata de problemas dos disfóricos de gênero. Também é porta-voz da Organização Internacional de Intersexuais — OII para os países de língua portuguesa, a qual aderiu em 2006.

Fonte: Wikipédia, site da OII e revista Época.

(*) Na atualidade usa profissionalmente Wal (ou Waléria) Torres, MS — PhD. No passado, foi muito conhecida e citada como Martha Freitas.

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23 Março, 2009

Biografias Trans da CPLP¹ - Moa


Moa, nascida Moacyr Sélia Filho (Nova Venécia, 1955), é uma política transexual brasileira.

Formada como técnica em contabilidade em 1975, em virtude do preconceito e por seu dom natural, Moa preferiu dedicar ao ofício de cabeleireira por toda sua vida profissional.

Eleita vereadora pelo PFL em 2004, ela afirmou em entrevista que o povo tem um carinho especial com ela devido ao fato de ter trabalhado para suprir as necessidades básicas das áreas carentes e combater a exclusão social de seu município.

No dia 26 de dezembro de 2006, Moa foi empossada como presidenta da Câmara de Nova Venécia por seis votos a favor e três contra. A nova presidente da Câmara salientou, contudo, que já sofreu muito preconceito entre os outros políticos da cidade e que não lutará, pelo menos inicialmente, por leis específicas para a comunidade GLBT, mas sim para garantir os mesmos direitos a todos.

Fonte: GMagazine Online

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22 Março, 2009

Biografias Trans da CPLP¹ - Maitê Schneider


Maitê Schneider (nascida Alexandre Caldas de Miranda, Curitiba - PR, 4 de novembro de 1972) é uma militante pelos Direitos Humanos dos transgêneros no Brasil.

Transexual MtF (Male to Female, termo em inglês que significa "de Homem para Mulher"), fez sua Cirurgia de Redesignação Sexual em 5 de outubro de 2006 e finalizou com isso parte de seu processo transexualizador. Pouco antes, aos 32 anos de idade, por não suportar mais a pressão de não conseguir sua cirurgia e com laudos comprobatórios de uma equipe multidisciplinar autorizando a cirurgia há vários anos, começou sozinha a fazer uma orquiectomia (extirpação dos testículos), na qual não teve êxito, indo parar mais tarde numa clínica clandestina do Paraguai, onde conseguiu realizar o procedimento. Contudo, logo após o procedimento, ela teve início de septicemia (infecção generalizada) e dificuldades grandes de recuperação.

Maitê cuida do portal "Casa da Maitê", que existe desde Março de 1997, e também apresenta o programa de TV Casa da Maitê, que pode ser visto online. No teatro já atuou com alguns dos maiores diretores da capital paranaense, como Edson Bueno (peça O Santo), Gerson Delliano (peça Febre) e Cesar Almeida (peça Ardor 2). Em outubro de 2007 foi lançado um documentário sobre sua vida, intitulado "Ser mulher", no qual Maitê conta sua trajetória e revela os altos e baixos por que teve que passar. O longa-metragem de 55 minutos faz parte do "Projeto Olho Vivo".

Em Curitiba, cuidou ativamente da Parada da Diversidade da cidade e foi uma das idealizadoras do molde atual da Parada, no ano 2000, ao lado do militante Roberto Kaiser, a qual reúne mais de 100 mil pessoas na cidade. Maitê também foi vice-presidente do Instituto Paranaense 28 de junho.

A militante ainda viaja pelo Brasil todo dando palestras sobre sua vida, militância e incentivando as pessoas a serem elas mesmas. Em suas palestras, procura sempre responder às dúvidas sobre identidade de gênero e fala de outros exemplos de luta na conquista de readequação genital e pessoal. Segunda filha de uma família de classe média curitibana, ela é também escritora, poetisa e atriz.

Fonte: site Sapo.pt

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13 Março, 2009

O pai das cirurgias de transgenitalização brasileiras


Por anos, Jalma Jurado foi o cirugião-chefe do Departamento de Cirurgia Plástica da Faculdade de Medicina de Jundiaí – SP. Tornou-se nacionalmente conhecido por ser o pioneiro em Cirurgias de Redesignação Sexual no Brasil para transexuais MtF (de Homem para Mulher), e desenvolveu uma técnica revolucionária para transexuais maduras, considerada uma das melhores técnicas do mundo para pessoas nessa faixa etária. Segundo estatísticas, ele já adequou mais de 350 pacientes MtF ao novo sexo, tanto brasileiras quanto estrangeiras.

Em 1984, o cirurgião desenvolveu em Jundiaí a técnica do retalho neuro-arterial. Já em 1997, a cirurgia foi normatizada e legalizada pelo Conselho Federal de Medicina, dando o pontapé inicial para uma série de transgenitalizações no Brasil. O procedimento, de acordo com o que chegou a afirmar, preserva o prazer sexual da paciente. "Durante minha residência, via transexuais esperando pela cirurgia nas filas de hospitais públicos. Muitas delas esperavam uma vida inteira sem ter solução. Resolvi ajudá-las", chegou a revelar em entrevista.

Em 1998, o Dr. Jurado realizou na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) a primeira transgenitalização legalizada no Brasil. Bianca Magro foi a primeira transexual brasileira a se submeter à técnica.

Durante o Simpósio Bienal da WPATH - World Professional Association for Transgender Health (ex-HBIGDA) na Bélgica, Dr. Jurado teve apenas cinco minutos para apresentar suas idéias. Infelizmente, o tempo que lhe foi dado não foi o suficiente para apresentar suas revolucionárias técnicas de cirurgias.

No Brasil, a primeira cirurgia de mudança de sexo foi realizada em 1972 pelo médico Roberto Farina. Atualmente, o médico Carlos Cury vem se destacando em cirurgias de adequação sexual no Hospital de Base de São José do Rio Preto com a técnica herdada do Dr. Jalma Jurado.

Fonte: revistas Istoé e Época.

08 Janeiro, 2009

Biografias Trans da CPLP¹ - Brenda Lee

Brenda Lee foi uma militante transexual brasileira dos direitos humanos LGBT.

Registrada ao nascer em Bodocó - PE, em 10 de janeiro de 1948, Cícero Caetano Leonardo, Brenda chegou a São Paulo aos 14 anos, onde se tornou figura conhecida e festejada do bairro do Bixiga. Comprou uma casa nesse bairro em 1984 e posteriormente criou a Casa de Apoio Brenda Lee para abrigar portadores de HIV rejeitados por parentes, fossem eles travestis ou não. A casa começou com três pacientes ainda no ano de sua compra, mas a instituição foi oficializada em 1988.

Na décade de 1980, o cineasta suíço Pierre-Alain Meier dirigiu o filme-documentário intitulado Dores de Amor. Nele, expôs a vida nua e crua de quatro mulheres transgêneras, além da própria Brenda: Andréia de Maio, Claudia Wonder, Condessa da Nostromundo e Thelma Lipp.

Em 28 de maio de 1996, Brenda foi brutalmente assassinada com um tiro na boca e outro no peito e seu corpo foi encontrado mais tarde dentro de uma Kombi em um terreno baldio. Sua missa de corpo presente — realizada pelo padre Júlio Lancellotti, representando o cardeal Dom Paulo Evaristo Arns — foi rezada na sede da casa de apoio, na rua Major Diogo, na Bela Vista. Brenda era considerada o “anjo da guarda dos travestis” e tinha como objetivo ajudar a todos, doentes ou não, que eram discriminados pela sociedade.

O trabalho de Brenda tornou um referencial e um marco importante. Tanto que o prêmio brasileiro para aqueles que defendem os direitos Humanos foi intitulado “Prêmio Brenda Lee de Direitos Humanos”.


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04 Janeiro, 2009

Biografias Trans da CPLP¹ - Camille Cabral

Nascida em uma pequena cidade na divisa entre Pernambuco e Paraíba (contudo ainda em território paraibano), desde pequena Camille adorava quando seu pai a levava para assistir a filmes italianos em Campina Grande, o mais próximo grande centro urbano de sua cidadezinha natal.

Segunda de uma família de oito irmãos, nos anos 70 passou no vestibular para Ciências Médicas, que cursou em uma faculdade privada de Recife. Com o diploma na mão, foi para São Paulo fazer estágio no Hospital das Clínicas. Na capital paulista, ela decidiu pela primeira vez vestir-se publicamente de mulher, após seus expedientes como médico.

Em 1980, decidiu ir para a França fazer um estágio em dermatologia, no que acabou se especializando. Trabalhava no Hospital Saint-Louis, de Paris, e já não escondia o jeito feminino. Nessa época uns a chamavam de monsieur, outros de madame. Anos depois, tornou-se a primeira transexual eleita da República Francesa (vereadora do XVIIème Arrondissement pelo Partido Verde). Camille é também fundadora do PASTT - Prévention Action Santé Travail pour les Transgenres (Prevenção, Ação, Saúde e Trabalho para os Transgêneros).

Radicada na França e com dupla cidadania, Camille ficou um longo tempo sem ver sua família. Quando voltava para visitá-los no Brasil, desembarcava em São Paulo como mulher, mas no Nordeste como homem. Seus pais jamais a viram de tailleur. Na França, ela casou-se duas vezes. Na primeira, de papel passado e com divórcio no final. Ficou viúva de seu segundo marido.

O prenome Camille ela escolheu quando adotou a nacionalidade francesa, na década de 90. "Queria um nome muito francês, mas refinado", chegou a declarar em entrevista. O sobrenome Cabral é o mesmo de batismo e de sua família nordestina, formada por fazendeiros e políticos paraibanos. Certa vez, em entrevista à Folha de São Paulo, ela revelou: "Não vou dizer meu nome porque esse é um passado que eu quero apagar. E não pretendo prejudicar meus parentes políticos. As pessoas podem usar a minha história para fazer pressão moralista sobre eles. Conheço a mentalidade do Nordeste." Seus parentes foram ou são vereadores, prefeitos e presidentes de organismos regionais. Um de seus irmãos é assessor do governador eleito da Paraíba, Cássio Cunha Lima.

Fonte:
Radio France International e Folha de S.Paulo

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01 Janeiro, 2009

Biografias Trans da CPLP¹ - Kátia Tapety

Nascida em Oeiras no dia 24 de abril de 1949, Kátia Tapety foi a primeira transexual a se eleger para um cargo político no Brasil.

Batizada José Nogueira Tapety Sobrinho ao nascer, Kátia provém de uma família de políticos e mantém firme o projeto de se tornar a primeira prefeita transexual do Brasil. Até os 16 anos viveu praticamente escondida dentro de casa. Foi para a escola só até a terceira série do ensino fundamental. Depois disso, seus pais a mantiveram reclusa.

Residente no município de Colônia do Piauí (PI), distante 388 quilômetros ao sul de Teresina, a capital piauiense, ingressou no PFL pelo qual foi eleita vereadora em 1992, 1996 e 2000 filiando-se a seguir ao PPS, então partido de Ciro Gomes, seu ídolo político. Em 2004 foi eleita vice-prefeita na chapa de Lúcia de Moura Sá. A candidatura de ambas contou com 62,13% dos votos dos 5.417 eleitores da pequena cidade.

Em Colônia do Piauí, Kátia é oficialmente funcionária pública da área de saúde, mas como vive em uma cidade de apenas 7 mil habitantes, encravada no sertão do estado do Piauí, ela é uma espécie de “faz tudo”. Atua como vereadora, parteira, líder comunitária e agente de saúde. Por vezes também trabalha como assistente social, psicóloga, advogada, motorista e até vaqueira. Sua linha política, entretanto, está mais voltada para o assistencialismo do que para a defesa dos direitos humanos das pessoas trans ou homossexuais. Em 12 anos como vereadora, ela não quis apresentar nenhum projeto relacionado ao assunto por acreditar que vive em uma cidade do interior com outros problemas muito mais prioritários, onde ninguém se interessaria por assuntos voltados à transexualidade e onde há pouquíssimos transgêneros.

O fato de Kátia ter entrado na política é considerado extraordinário, já que abre espaço para novas e futuras conquistas sociais e de cidadania dos transgêneros. Mostra que é possível para um transgênero exercer seu direito de cidadania e ter uma vida digna, afastada dos estereótipos. Diferentemente do que se pensa, sua eleição mostrou também que é mito que nas grandes e cosmopolitas cidades brasileiras haja menos preconceito do que nos chamados “grotões do país”.

As quatro eleições municipais já ocorridas em Colônia do Piauí foram disputadas por Kátia, que conseguiu vencer todas. Além de vice-prefeita, já foi vereadora por três mandatos, e num deles assumiu a presidência da Câmara Municipal. Seu partido político tem apoio de diversos grupos da cidade, inclusive de membros de igrejas evangélicas. O sonho da política é ter sua união marital legalizada, já que vive com um companheiro e duas crianças, uma adotiva e outra de um relacionamento anterior ao atual.

Fonte: Crossdresser Clube do Brasil e GMagazine.

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29 Dezembro, 2008

Biografias Trans da CPLP¹ - Andréia de Maio

Andréia de Maio (data e local do nascimento incertos – falecida em São Paulo, no dia 16 de maio de 2000) foi uma empresária e militante transexual pelos Direitos Humanos LGBT.

Andréia vivia como empresária de sua casa noturna, a "Prohibidu's", uma boate de estilo trash-cult no centro de São Paulo, desativada pouco após sua morte. Militante incansável, Andréia era freqüentemente chamada para participar de programas para debater em defesa dos direitos dos transexuais e transgêneros. Um de seus embates mais emblemáticos foi no Programa Livre de Serginho Groisman, na época ainda do SBT, com o político paulistano Afanásio Jazadji, que assumidamente não simpatizava com as causas LGBT e chegou a declarar que os homossexuais deviam ser afastados do convívio social, notícia que foi veiculada na Folha de São Paulo, 19 de julho de 1985.

Na década de 90, Andréia procurou alguns políticos garantindo seu voto e daqueles que a seguiam em troca da criação de um estatuto que garantisse os direitos cívicos a todos os integrantes da comunidade LGBT paulistana, sem contudo obter sucesso.

Muito conhecida na cena artística paulistana, ela foi amiga intima de algumas personalidades. Sua vida foi um dos temas do filme-documentário do suíço Pierre-Alain Meier, "Dores de Amor", junto com as vidas de outras quatro personagens da cena trans paulistana: Brenda Lee, Thelma Lipp, Condessa da Nostromundo e Claudia Wonder.

Histórias de um underground brasileiro

Batizada Ernani ainda bebê, Andréia nasceu em 4 de maio. Foi engraxate, gari, menino de rua. Dormiu debaixo de um banco na praça da República. Adolescente, tentou ser cantor. Tinha a voz boa, mas ser homossexual lhe emperrou a carreira.

Tentou ainda ser bailarino, mas nada. Então quis mudar. Aos 20 e poucos, Ernani decidiu transformar seu corpo. Nascia Andréia de Maio.

Naquela época, anos 70, quanto mais litros de silicone tivesse um travesti mais poderoso ele era, mais respeito conquistava em seu meio. E Andréia se encheu de silicone. Fez a famosa viagem a Paris e, na volta, abriu com Valdemir Tenório de Albuquerque, o Val, a boate Val-Improviso, lendária casa de shows de travestis na Marquês de Itu. O Val-Improviso e o Val-Show, na Frederico Steidel, ajudaram a escrever a história do underground paulistano, com seus shows e sua frenética atividade, que às vezes chegava até o meio-dia. Cazuza foi um dos frequentadores e, não raro, a noite terminava com o cantor ao violão (o Val-Improviso entrou até em letra de música) ou com um prosaico churrasco.

Andréia se tornara uma espécie de mãe de todas. Poderosa, protegia e defendia os travestis das intempéries da vida noturna. Quando abriu sua própria boate, a Prohibidu's, na Amaral Gurgel, passou a abrigar então esse segmento que, muitas vezes, é marginal até mesmo dentro da comunidade gay (muitos clubes noturnos não deixam entrar os travestis). Na Prohibidu's, Andréia misturou e aceitou todo mundo, em meio a garçons nus que fizeram o sucesso da casa e chamaram a atenção da cidade. Sem falar nos shows, claro, sempre no meio da madrugada (4h, 4h30), e o povo da noite saía então de seus trabalhos ou de outros clubes para terminar lá na Prohibidu's, já com dia claro, e o centro da cidade pulsando, avançando até 9h da manhã.

Tudo funcionava sob o olhar sempre vigilante e severo de Andréia de Maio. Carismática, sentada em sua cadeira na porta, ao lado do fiel companheiro, o pequinês Al Capone, ela sabia orquestrar aquilo ali como ninguém, com seus perigos e atrativos - o fascinante apelo da mondanité. Bandidos, mocinhas, drags, semidrags, clubbers, DJs, travas e boys; descolados, famosos, herdeiros milionários e artistas completando o casting.

Uma das noites mais absurdas da Prohibidu's foi a do aniversário de dez anos de carreira da famosa Gabriella Bionda, hoje cartomante, chamando-se por "Mãe Gabi" (quem a viu na última terça no "Muvuca"?). Então em sua fase mais glamourosa, com um aplique louro tipo Madonna, Gabi recebia seus convidados, emocionada, ao lado da companheira Lu Moreira, a Lu, das Mercenárias, a banda de rock dos 80.

Era dezembro de 97, e quem estava em São Paulo era a fotógrafa norte-americana Nan Goldin, justo quem?!, a rainha do demi-monde nova-iorquino. Levada por um grupo de amigos que se integrou com simpatia à festiva atmosfera daquela noite, Nan Goldin se sentiu em casa e se moveu com familiaridade no ambiente. Para falar a verdade, sequer foi notada pelas meninas ou pela homenageada. Nan Goldin fotografou Lu e Gabi, Andréia e os variadíssimos personagens que subiram a escadaria da boate naquela madrugada. Andréia cuidava e dava amparo. Servia de sentinela, de guardiã daquele mundo perigoso e cheio de regras veladas. Mas também tinha lá seus problemas, claro. Envolveu-se, apaixonada, com um rapaz viciado em drogas que, depois de uma discussão, disparou nela seis tiros. Andréia (que não bebia nem usava drogas) foi atingida na mão, nos braços e nas pernas. Sofreu 13 cirurgias. Nunca mais foi a mesma. Ganhou um olhar tristonho e distante, quase ausente.

Algumas coisas pouca gente sabia da vida de Andréia de Maio . Às vezes era vista sentada no banco da praça da República, onde costumava dormir quando criança. Ficava ali sozinha, com o amigo Al Capone, pensando. Negociante de carros, ajudava também instituições de caridade (muitas doações foram feitas para a casa de travestis de Brenda Lee) e favelas. Tinha insônia e costumava passar muitas madrugadas conversando com Carlos Alberto de Policastro, a Kaká di Polly, a quem considerava um irmão. Andréia de Maio era ainda, segundo diz Kaká, "um pai-de-santo maravilhoso".

Na noite de Kaká no Rainha Vitória, bar-restaurante gay-friendly do largo do Arouche, ainda em 2001, Andréia foi homenageada num show/entrevista, por seus 50 anos, completados em 4 de maio último. Agradeceu aos amigos e subiu ao palco para cantar "Paralelas" e "Manhã de Setembro". Sem avisar ninguém, Andréia fazia uma espécie de despedida da noite. Cansou. Depois de tantos anos de estrada, preparava-se para se mudar para o sítio que comprou e foi reformando em Ribeirão Pires. Disse que sentia mais prazer em ver as estrelas à noite, lá de seu sítio, e conversar com os caseiros, que em "ouvir bobagens e ver as pessoas se destruindo em troca de um sonho que nem se sabe onde vai dar".

Assim, hoje, nesta sexta-feira, quando o povo baixasse na Prohibidu's ou ligasse para sua casa na Vila Mariana, Andréia não estaria mais aqui. Mas antes disso, também sem avisar ninguém, arrumou alguém para cuidar de Al Capone (que já está velhinho, com 17 anos) e se internou para tirar um pouco do silicone de seu corpo.

Morte em virtude de silicone industrial

Andréia morreu em uma clínica de cirurgia plástica um dia após se submeter à retirada de silicone industrial das nádegas e de suas coxas, morte provavelmente em virtude de embolia. Antes da cirurgia, contudo, ela havia assinado um termo se responsabilizando pelos riscos da retirada do silicone, que eram bem altos em um procedimento desse tipo. Pedro de Lara foi o único famoso a comparecer ao enterro de Andréia, que aconteceu no Cemitério da Consolação, em São Paulo. Além de Pedro, cerca de 30 pessoas foram dar o último adeus à artista. O ex-jurado do SBT estava muito emocionado e fez diversas declamações de amizade a Andréia. A missa de sétimo dia foi na boate que pertencia a ela, a "Prohibidus".

Em março de 2005, o estilista Walério Araújo ambientou seu desfile na capela do Hospital Humberto Primo, rendendo homenagem póstuma à antológica Andréia.

Fontes: Erika Palomino, Folha de S.Paulo e Wikipédia.

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22 Dezembro, 2008

Biografias Trans da CPLP¹ - Katielly Lanzini

Katielly Lanzini é uma jornalista e escultora transexual brasileira que nasceu sob o nome de Nedson Antonio Lanzini Pereira no ano de 1961, em Santa Maria, Rio Grande do Sul.

Desde pequena, ela sempre sentiu que havia “nascido num corpo errado”. Apesar disso, casou e teve cinco filhos. Em 1988, resolveu iniciar paulatinamente sua transformação tomando hormônios, pondo silicone nos seios e fazendo algumas cirurgias estéticas (passou inclusive por uma orquiectomia). Em 1991, já relativamente andrógina, resolveu se mudar para Chapecó, onde firmou-se como jornalista.

Politizada e bem articulada, em 2006 lançou mais uma vez sua candidatura a Deputada Estadual pelo PFL de Santa Catarina. Em 2000, ela havia se candidatado a vereadora em Chapecó, e em 2004 tentou novamente como Deputada Estadual, as três candidaturas sem êxito. A jornalista afirmou certa vez acreditar que a sociedade brasileira ainda não está pronta para eleger um gay para cargo público, mas que isso certamente acontecerá até 2010, já que o país tem evoluído rapidamente e começando a encarar melhor sua diversidade.

Em entrevista à revista Época chegou a afirmar que percorreu os arquivos dos jornais de Chapecó, no interior de Santa Catarina, onde morava, e furtivamente destruiu as fotos do tempo em que era jornalista e assinava reportagens com o nome de batismo, Nedson. Segundo ela, "queria eliminar o passado".

Indenização a índios por matéria em jornal

Em 18 de abril de 2007, a 4ª Turma do Tribunal Regional Federal (TRF) da 4ª Região manteve a condenação por danos morais de que Katielly era acusada. Com isso, ela terá que pagar R$ 50 mil de indenização à comunidade indígena “Toldo de Iguaçu”, localizada no município chapecoense.

Katielly havia sido denunciado pelo Ministério Público Federal (MPF) por ter escrito, em agosto de 1995, um artigo no jornal O Iguaçu em que exortava o Clube de Futebol Chapecoense a mudar de símbolo, manifestando preconceito contra os índios. O artigo, intitulado “Chapecoense deve mudar símbolo”, declarava que o índio é uma figura melancólica e derrotada. “Os últimos descendentes das tribos indígenas vivem esmolando nas ruas, tentando trocar dinheiro por artesanato”, escreveu Katielly, sugerindo que o símbolo poderia ser até mesmo um animal, como veado, galinha ou porco, mas não um índio. Após sua condenação, a jornalista recorreu ao TRF argumentando que não teve intenção de injuriar os índios, mas apenas de aconselhar o clube a mudar seu símbolo para um animal que retratasse a cultura local.

A relatora do processo entendeu que a crônica teve um impacto negativo no ânimo dos integrantes da comunidade, causando dor e sentimento de derrota, o que deve ser reparado pela Justiça.

Outras polêmicas

Em 2004, convidada por quatro vezes para ir ao Programa do Ratinho, no Sistema Brasileiro de Televisão – SBT, Katielly causou polêmica ao afirmar que apesar de gostar de ser mulher e se vestir como tal, preferia se relacionar sexualmente apenas com mulheres (e não suportava homens).

Durante a sua última campanha eleitoral de 2002, ela exibiu fotos suas seminua e criou um carro especial — sugestivamente batizado de “gaymóvel” — para alavancar sua candidatura. Tentou ainda vender calcinhas personalizadas com seu nome, que foram prontamente proibidas pelo Tribunal Regional Eleitoral catarinense.

Em 2006, a mídia noticiou amplamente que a escultura de Ronaldinho Gaúcho, que media 7m25 e era de sua autoria, foi queimada por vândalos em Chapecó. A escultura foi supostamente vandalizada em virtude de o Brasil ter perdido a Copa de 2006.

Fontes: Site MixBrasil, Revista Época e site Fervo
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15 Dezembro, 2008

Em busca da fonte da felicidade

Tenho filosofado ultimamente com meus botões e estou chegando à conclusão de que a felicidade é mesmo um estado de espírito. Riqueza, beleza, sucesso e poder não são passaportes definitivos para conquistá-la, embora facilitem o acesso a ela.

Vejam só, a Índia é um dos países mais populosos e pobres do mundo e os indianos sempre me pareceram um dos povos mais felizes. E lá, por milênios, coisas como dinheiro, carreira, sucesso e quinquilharias nunca foram uma grande prioridade. Eles sempre foram dirigidos pela busca pela felicidade espiritual, embora os "neo-indianos" (a emergente classe média do país) pareçam ter objetivos um tanto diferentes.

Nós do Ocidente sempre fomos mais voltados ao material e ao capitalismo como parte dessa nossa busca pela plenitude.

Vejam só, Christina Onassis foi uma das mulheres mais ricas de sua época e morreu precoce e tragicamente, imersa em constantes crises existenciais e à base de antidepressivos. O mesmo aconteceu com a eterna musa Marilyn Monroe, que ficou para a posteridade como uma das mulheres mais cobiçadas da história do mundo artístico. Foi misteriosamente encontrada morta por uma overdose de barbitúricos, aos 36 anos. As supermodelos Margaux Hemingway e Gia Carangi também morreram belas e jovens e de forma inglória para as vidas glamurosas que viveram. Todas elas tinham muito em comum, como a riqueza material e fama, que se supõe trazer a felicidade, mas as mortes prematuras provaram justamente o contrário: que a fonte da felicidade está mesmo em outro lugar.

Morte e vida, Severina - um estudo de caso

Pois é, a pessoa mais feliz que já conheci era o reverso disso tudo e foi para mim um bom exemplo e a prova cabal de que a felicidade é algo que vem mesmo de dentro do ser.

Ela se chamava Berta e reunia características bem singulares: era transexual, nordestina, negra, semi-alfabetizada e deficiente física (teve pólio na infância e por isso tinha uma perna menor que a outra, e mirrada). Por reunir tantas características que a tornavam tão única, foi alvo da sociedade irremediavelmente hipócrita e preconceituosa dos anos 80 e 90, e viveu boa parte da vida desempregada ou em subempregos, mas sem nunca recorrer à prostituição.

Claro que nem tudo foram espinhos na vida dela. Talvez por ser uma pessoa tão alto-astral e positiva e ter uma aura tão iluminada, ela foi bastante sortuda nas amizades e no amor (apesar da falta de beleza física e outros atributos, sempre a via com rapazes jovens e atléticos e que demonstravam gostar dela).

Infelizmente, no começo dos anos 90 ela adquiriu o vírus HIV de um de seus namorados e desenvolveu a aids. O seu maior prazer, o amor sem fronteiras, foi o seu veneno fatal – ela cresceu na época pré-aids e, portanto, dizia “não gostar de fazer amor com camisinha”. Berta escolheu viver dez anos a mil que mil a dez e sabia dos riscos que corria, mesmo não acreditando que aconteceria consigo.

Apesar de ter sido marcada pela vida de tantas formas, retribuiu lindamente a ingratidão da sociedade em que viveu sendo genuinamente feliz e semeando alegria por onde passava – ela viveu seus 30 e poucos anos de vida cantarolando, rindo e de bem com a vida. Sua morte, alguns anos atrás, apagou o brilho daquela estrela de primeira grandeza, que sempre levantava o astral de quem a rodeava, em especial dos amigos, namorados e família. Berta brilhou no universo de muita gente - inclusive no meu – e deixou marcas.

Enfim, à Berta, só tenho uma coisa a dizer: até um dia, se Deus quiser! Dedico este post à sua memória.

13 Dezembro, 2008

Onde estão as Zulmiras?

Festas de fim de ano chegando e este talvez seja um de meus últimos posts, ou o penúltimo, de 2008.

Decidi escrever sobre algo que todos nós transexuais e transgêneros temos que passar uma vez na vida – a escolha de um novo nome. Pois é, como não nos identificamos com o gênero do nome que nos foi dado ao nascer, passamos pelo processo de autobatismo, geralmente já na fase adulta.

O nome é algo que passa mil e uma impressões, embora nem todas necessariamente reais. Pelo nome pode ser possível inferir várias informações da pessoa, como sexo, classe social, origem, religião, etc. Claro que como isso não é uma ciência exata nem sempre o tiro é certeiro, mas é inegável que o nome dá muitas pistas sobre a pessoa.

Um exemplo disso são os nomes de dois ex-presidentes brasileiros, Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Affonso Collor de Mello. Mesmo quem não conhece suas histórias de vida pode inferir pela pompa do nome quem vem de origem mais abastada – aqui não entra no mérito quem foi melhor ou pior na presidência, claro. O mesmo acontece com nomes como Nana Shara (filha de Pepeu e Baby) e Maria da Graça Xuxa Meneghel: o primeiro dado por uma família de religião mais alternativa – ou mesmo agnóstica –, o segundo reflete a escolha de parentes católicos praticantes.

Brasil, mostra sua cara!

Outro dia, uma amiga me mandou um link de um vídeo do YouTube sobre a cobertura da passarela do Gala Gay de 2008. Nele, se vêem muitas trans passando pelas câmeras, corpos esculturais e outros nem tanto, umas seminuas, enquanto outras mais recatadas, e a mídia sempre cobrindo o acontecimento de forma menos jornalística que cômica – e muitas vezes até pejorativa. Mas até aí nada muito fora do esperado.

O que me deixou intrigada mesmo foi uma pergunta feita por um dos entrevistadores caras-de-pau, contratados para fazer a cobertura cômica da entrada do evento. Um deles – o Christian Pior (personagem do humorista Evandro Santo) – chegou para um grupo de trans que rumavam ao baile e perguntou a uma delas: “Qual o seu nome?” A entrevistada, no frisson de estar sob os holofotes, disse de forma bem ostensiva um “Loooren”. O repórter não se conteve e perspicazmente aproveitou esse “gancho” e disparou: “Gente, nunca tem uma Glorinha, né? Por que esses nomes difíceis, nomes americanos? Cadê os nomes brasileiros, como Zulmira? Nunca vi uma transex se chamar Zulmira.”

Confesso que também não consegui me conter com a originalidade e o jeito escrachado como ele perguntou (e a cara de tacho que ela fez, sem saber o que responder). Ao mesmo tempo, achei de fato curioso, porque realmente tinha algo de verdade ali: por que será que muitas buscam nomes tão exóticos e americanizados? Será um produto da mídia, ou da época em que vivemos? Ou serão mesmo os sinais dos tempos? [risos]

C’est chic, c’est bon !

Nos anos 70 e 80 o que estava em voga eram nomes franceses, porque estávamos ainda na era do glamur da língua de Sartre e a França era o ápice do luxo e da elegância, e portanto a referência. Então todas queriam ser Michelle, Françoise, Camille, Monique, Desirée... Hoje em dia, o chique é ter nomes de origem inglesa, como Britney, Samantha, Pamela, Jessica, entre outros, e todos com direito a ser compostos, como Samantha Broadway, Jessica Taylor, Britney Aguilera...

Há algo de mal nisso? Obviamente não, mas convenhamos que eles são nomes que entregam de cara, principalmente para uma tupiniquim.

Mais tarde, analisando mais a fundo, cheguei à conclusão de que a razão para isso deve estar no fato de que como parte das travestis trabalha como profissionais do sexo, ter um nome importado e de impacto imediato pode ajudar a vender mais a persona. Convenhamos que um anúncio do tipo “transex Shanaya Houston” é mais vendável que “transex Maria de Souza”, até porque as marias, martas, helenas etc. fazem parte de nosso universo cotidiano de mães, tias, professoras, irmãs, colegas... enquanto as marilyns, cindys, gretas, sharons etc. estão inseridas no imaginário popular – e principalmente no masculino, pela midiatização maciça – como objetos de desejo cheios de erotismo e lascívia, e até um tanto exóticos.

Analisem bem: o que Marilyn Monroe, Sharon Stone e a coelhinha Pamela Anderson vendem ou venderam ao mercado artístico? A imagem de mulher fatal, hiper-sensual e erotizada. Então, ter um nome que as personifique remete logo a charme, beleza e volúpia, algo mais vendável, o que é um fato. Ganha-se junto com o nome todos os adjetivos positivos (ou negativos) que ele carrega consigo e, de certo modo, adquire-se um pouco dos valores da celebridade, nem que seja na mera associação a ela por ser xará.

Tanto é verdade, que após Marc Dutroux ser preso em 1996 e se tornar o maior pedófilo da história da Bélgica, um terço dos belgas com o mesmo sobrenome correu até os cartórios para alterá-lo, para não terem a mínima associação com a imagem negativa do criminoso. Obviamente, o estado belga permitiu a mudança, exceto a do próprio Marc, que queria se chamar Dinroux.

Mas voltando à escolha do nome, alguém chega a uma festa e um amigo diz: “Vou te apresentar uma colega, a Marilyn.” O que lhe vem à cabeça? Certamente a lembrança da diva-mor de Andy Wahol e toda a aura de sensualidade que ela personificava (mesmo que após ser apresentado à tal colega "Marilyn" você se dê conta de que ela está a anos-luz do que se imaginou previamente).

A vida como ela é

Nomes muito elaborados podem não ser os ideais para o dia-a-dia, principalmente para meninas que querem passar de forma mais discreta.

Suponhamos que em uma fila de aeroporto cheguem duas trans relativamente passáveis: uma de nome Maria Luiza e a outra chamada Sharon Ravache. Qual das duas levantaria mais suspeita naqueles que já estão com uma pulguinha atrás da orelha? Ok, tudo bem, uma “GG” (garota genética) também pode ter um nome do tipo Britney, Kaira, Whitney ou Naomi, mas elas têm uma vantagem: não precisam correr dos fantasmas que vez por outra assolam as meninas trans: os olhares indagativos e cochichos nem sempre discretos.

Por isso, se quer passar despercebida, é interessante considerar escolher um nome mais tradicional, que tenha a ver com nossa cultura, como Marcela, Regina, Vitória, Márcia, Cristina, Camila, etc. Há um sem-número de nomes lindos e discretos, que não causam impacto num primeiro momento nem levantam suspeitas.

Há ainda a questão etária, em que os nomes de determinada geração têm a ver com as influências da época sobre os pais. Então imaginem uma trans de 40 anos com o nome Beyoncé (surgido há poucos anos com o estrelato da artista Beyoncé Knowles). Vai ser bastante curioso, para dizer o mínimo.

Obviamente, não adianta se rebatizar Maria dos Remédios para tentar ser mais passável e não se importar com pêlos faciais apontando (o famoso “chuchu”), um bom fonoaudiólogo para o vozerão de general do exército, se for o caso, ou o bom senso de não usar roupas que a deixem com ombros de pugilista. Aí não dá para passar despercebida mesmo. O ideal é o casamento do todo: imagem, presença e nome.

Conselhos das veteranas

Andrea James, transexual criadora do Trans Road Map (“Mapa da Estrada Trans”), diz o seguinte numa de suas páginas:

“Escolher um novo nome é uma decisão muito pessoal e algo que tem que ser pensado cuidadosamente. O nome que você escolhe vai ter um efeito em como as pessoas a vêem, e em alguns casos pode até mesmo afetar sua habilidade de se inserir socialmente (…) Se ser aceita como mulher é seu objetivo, considere adotar um nome relativamente comum. Como acontece com a aparência em geral, quanto mais comum seu nome for, menos atenção chamará.”

Já James Birk, que havia iniciado uma transição e destransicionou, tinha um ponto de vista bem interessante. Ao fazer um post sobre ele, li em uma de suas colunas no Shapeshift o seguinte conselho sobre a escolha de seu nome:

“Levei seis anos para escolher meu nome e os pré-requisitos foram: nem muito masculino nem muito feminino – não quero parecer que estou tentando forçar algo. Nem um nome que alguém que conheço tenha – não quero que ninguém pense que estou tentando ser como eles ou imitá-los dessa forma. Um nome simples, com duas sílabas ou menos. Um nome que seja profundamente cheio de significado, ou irônico, ou ambos. Um nome que não dê margem a frases esquisitas, como ‘Vá, Gina!’ ou ‘Pára, Zita!’.”

Por fim, a veterana Lynn Conway escreveu o seguinte sobre o porquê de sua própria escolha:

“No fim de 1968 fui demitida de minha posição de pesquisadora na IBM por ser transexual, pouco antes de fazer minha CRS e completar minha transição de gênero. De repente, tive que recomeçar em outro lugar uma nova vida e carreira, com um novo nome e em segredo. Eu me dei conta de que um nome totalmente novo – incluindo um novo sobrenome [ou nome composto] –, facilitaria minha vida como anônima (...) Minha família, parentes e amigos me renegaram durante essa fase, então não senti nenhuma angústia em renegar também meu antigo sobrenome e quebrar os laços com a [tradição do nome de] família (…) Enquanto lia o romance de Helen MacInnes intitulado The Salzburg Connection, no fim de 1968, automaticamente gostei do nome da personagem principal. Ela se chamava Lynn Conway, e me identifiquei com ela de várias maneiras, até porque Conway era um bom substituto para meu sobrenome, já que refletia as minha raízes irlandesas.”

Enfim, basicamente é isso, lido o conselho das veteranas, espero que reflitam ao escolherem seus nomes, pois é algo que levarão pro resto da vida. Por isso, se quiserem passar despercebidas, considerem não pôr nomes como Donatella Versace Spears ou Loulou de Cacharel Poison, a não ser que sejam drag queens ou queiram de algum modo vender sua própria persona com um nome desses.

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Observação: transex é uma designação profundamente sexualizada das pessoas trans. É um termo extensivamente utilizado nos anúncios de apelo sexual de sites especializados em travestis. Portanto, para estar em linha com o politicamente correto, ao se referir a transexuais em geral, o ideal é usar o termo completo (transexual) ou a abreviatura “trans”.

12 Dezembro, 2008

Adeus Yvonne, bem-vindo Balian!

Balian Buschbaum continua sendo uma celebridade em Ulm, cidade alemã onde nasceu. Mas seus tempos de glória esportiva e escândalo mundial, ao anunciar que deixava o esporte para mudar de sexo, passaram – deixava de ser Yvonne, medalha de bronze no campeonato Europeu de 2002 no salto com vara, e passava a ser Balian.

Em seu blogue, Buschbaum narra sua nova vida, dentro do corpo que sempre quis ter. No começo deste ano chegou ao clímax de seu processo de hormonização e se submeteu a uma cirurgia de redesignação sexual para ter um nome, uma identidade, que antes só estava em sua mente e coração. Começou a se chamar Balian, o personagem interpretado pelo ator Orlando Bloom em “Cruzada”.

Deixou seu trabalho na divisão de esportes do Exército Alemão para se tornar mais um anônimo na multidão. O esporte ativo ficou para trás, e isso é bem lógico: já estava treinado por quatro anos para ir aos Jogos Olímpicos de Pequim, mas decidiu renunciar a tudo para fazer a cirurgia e se libertar do corpo errado em que ficou preso durante 27 longos anos. Agora está feliz e começando sua carreira como treinador (ajudou seu técnico no Campeonato Europeu de Clubes que se realizou em Portugal em maio deste ano) e aparece esporadicamente na mídia alemã.

Em suas declarações, deixa transparecer o prazer de viver o dia-a-dia em sua nova identidade, e não se esconde nem pretende fazê-lo. Como sempre, continua trabalhando em organizações humanitárias (acaba de ajudar na construção de um abrigo para crianças órfãs em Ulm) e tem uma vida normal, quase um ano depois de anunciar ao mundo que largaria tudo para viver longe das câmeras e da privilegiada vida de esportista.

Feliz, agora como Balian, os tempos de Yvonne já fazem parte do passado.

Fonte: site argentino Sentido G
Tradução: blogueira

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Observação: Balian também foi medalhista de ouro nos Campeonatos Europeus Juniores, de 1999, e de prata no Campeonato Europeu Indoors de Viena, Áustria.

11 Dezembro, 2008

Silicone injetável: os porquês de não usá-lo

Apesar de a injeção de silicone no corpo ser algo mais típico da cultura travesti do que da transexual – que na sua grande maioria prefere o uso de hormônios e cirurgias estéticas para feminilizar o corpo –, resolvi inserir o texto abaixo como subsídio a pesquisas do público que visita o blogue, embora nosso foco central continue sendo a transexualidade.

Contudo, pretende-se fornecer também uma visão holística sobre a questão da identidade de gênero e, sendo assim, vez por outra haverá textos que esmiúçam as facetas do universo crossdresser, intersexual e travesti.

O texto abaixo é parte integrante da cartilha “Silicone, redução de danos para travestis”, emitida pelo Grupo Gay da Bahia - GGB e pela Associação de Travestis de Salvador - ATRAS pela primeira vez em 1999, com o apoio do Ministério da Saúde, Campanha nacional DST/aids, Unesco e Secretaria Municipal de Saúde.

As duas outras seções da cartilha – “Recomendações para as travestis” e “Recomendações para as ‘bombadeiras’” –, embora esclarecedoras, não constam deste texto por conterem procedimentos médicos.

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Silicone - redução de danos para travestis (1)

Por Luiz Mott

Cigarro dá câncer, e nem por isso é proibido vendê-lo e comprá-lo. O uso de droga injetável é crime, mas o Ministério da Saúde do Brasil e dos países civilizados concluíram que a distribuição de seringas descartáveis diminui significativamente a transmissão do HIV/aids entre os usuários.

A mesma coisa em relação ao silicone: os médicos dizem que o silicone pode causar graves danos à saúde e sua aplicação por “bombadeiras” [travesti que aplica silicone nas outras] constitui contravenção penal (“prática ilegal de medicina”), mas já que é impossível impedir que travestis queiram “se bombar”, assim como é impossível acabar com os usuários de cigarro, bebidas e drogas, a solução é reduzir os danos causados pelo consumo dessas drogas. Porque, querendo ou não, silicone também é uma droga, e os danos causados por ele podem ser infecção pelo HIV/aids, hepatite, rejeição e infecção, deformação da parte alterada, invasão do silicone para a corrente sangüínea, dificuldade de respirar, cansaço, lesão de partes vitais, etc.

Do mesmo modo como o Ministério da Saúde não está incentivando o uso de drogas ao disponibilizar a troca de seringas descartáveis, assim também, ao transmitir informações básicas para as bombadeiras e para as travestis de como reduzir os danos, GGB/ATRAS não estão nem aprovando nem estimulando o uso do silicone, mas colaborando para que esta realidade ilícita ofereça menos risco às suas usuárias.

O caso de Salvador, Bahia

Se tomarmos como amostra Salvador (2 milhões e 500 mil habitantes), com uma população de 200 a 250 travestis [dados de 1999], numa pesquisa realizada pelo Grupo Gay da Bahia e pela Associação de Travestis de Salvador , encontramos 57 travestis (32%) que possuem de 1 copo a 12 litros silicone em uma ou mais partes do corpo. Além disso, 65% das entrevistadas declararam a intenção de se bombar. Dessas 57 travestis siliconizadas, a mais jovem tinha 13 anos quando fez a primeira aplicação, 73% delas tendo se submetido a tal intervenção antes dos 25 anos, predominando aplicação nos quadris (39%), seios (22%), nádegas (20%), rosto (18%) e em outras partes do corpo.

A aplicação de silicone constitui operação extremamente dolorosa, devido às agulhas serem muito grossas - de uso veterinário -, as únicas que permitem a injeção do produto; são necessárias dezenas de perfurações, em dias seguidos, para se moldar um “pirelli” (quadril), os seios ou as bochechas (“pommettes”). Há travesti que suportou mais de 300 perfurações - cujos orifícios deixados pela agulha são tapados com esmalte de unha ou cola Super Bonder. Das travestis siliconizadas, apenas 9% disseram ter se arrependido dessa decisão. (2)

Vítimas do silicone

Foi na década de 70, na França, quando surgiram as primeiras notícias de aplicação de silicone em travestis brasileiras, algumas das quais trouxeram o produto e a técnica para o Brasil, sendo em Curitiba onde teriam se instalado as primeiras bombadeiras.

Em 1983 estourou o escândalo chamado pela imprensa de "gangue do silicone": em São Paulo, a travesti Michelle, 25 anos, que disse ter feito mais de 300 aplicações de silicone usando o medicamento Nujol em lugar do verdadeiro silicone, provocou a morte de dezenas de travestis. A travesti Solange, 23 anos, disse que após ter sido bombada, “da boca escorria uma gosma branca e também pelo nariz, rosto e pés incharam que nem podia andar”.

Kátia B, 27, ficou com hematomas nas pernas e nádegas e poucas horas depois sentia as reações: caroços vermelhos, dores nos olhos e o local das picadas ardia queimando. Káira, 21, ficou com deformação na face direita à altura do olho - levou quatro picadas e disse: “ardeu tanto que tive um acesso de loucura. À noite não enxergo nada, estou quase cega e escorre um líquido viscoso. Tem travesti que morreu com os olhos sangrando, vomitando uma gosma branca. A gente tem sorte de ainda estar purgando o líquido pelos buracos da picada.” (3)

Hoje, apesar das bombadeiras não estarem mais usando Nujol ou silicone falso, ainda ocorrem mortes devido a “zebras” na hora da aplicação - só no primeiro semestre de 1999 morreram três travestis em Salvador: Bubuca, Su e Jéssica, vítimas da aplicação de silicone. Rara é a travesti que não perdeu alguma amiga devido ao uso do silicone.

A travesti Andréa de Maio, então presidenta da Associação dos Transformistas de São Paulo, disse que teve muitas amigas que morreram ou ficaram deformadas: “O silicone do peito desceu para a barriga. Da perna foi para o tornozelo. Tem bicha que nem pode usar sapato. Apliquei no meu bumbum, ficou duro, que quando aperto parece um pão italiano duro.” (4)

Retirada do silicone

Segundo a cirurgiã-plástica Henylda Landim, “O uso de silicone líquido pelas travestis é quase sempre exagerado e há riscos de migração do produto para partes vitais do corpo, podendo ocorrer ainda a sua eliminação forçada pelo organismo ou uma infecção, se for aplicado sem a devida assepsia. Ainda pode atrapalhar o funcionamento da musculatura, dos vasos e nervos da pessoa. A infecção é outro risco que o usuário corre, podendo gerar um abscesso e a conseqüente eliminação do silicone pelo organismo. O silicone líquido não é recomendado pelos cirurgiões plásticos, que preferem o colágeno e os colóides porque possibilitam maior reconhecimento pelo organismo e sua não-rejeição. O problema está na forma com é utilizado (aplicado com seringas) por pessoas leigas, que não têm o devido conhecimento do que estão manipulando nem a higiene necessária.” (5)

Muitas travestis tiveram graves problemas com o silicone, sofrendo muitas dores, desconforto ou ficando deformadas, descendo o silicone para o saco, pernas e pés. Muitas procuram hospitais para tentar solucionar o problema, como a travesti Lucian Fransoar, 25, internada no Hospital da Lagoa, Rio de Janeiro, após grave problema de infecção pelo uso de silicone. Primeiro, ela teve de pagar numa clínica 6 mil dólares para retirar o produto do quadril, sem solução.

Muitas travestis, principalmente as que trabalharam na Europa, têm procurado hospitais do Rio para se operar dos males causados pela injeção de silicone líquido. Mais ou menos cem operações são feitas anualmente. Muitas – sem dinheiro – procuram a rede pública. A operação é com uma lipoaspiração na zona em que o silicone está acumulado. Através de um tubo metálico, uma máquina de vácuo puxa o que é possível. Em alguns casos, é necessário abrir cirurgicamente o local para tentar a retirada, esclarece o Dr. Marcos Daher , chefe do serviço de cirurgia plástica do Hospital da Lagoa. (6) Segundo a associação Brasileira de Cirurgia Plástica, a aplicação do silicone líquido é contra-indicada, pois estudos provaram que o produto é absorvido por outros órgãos, como o fígado e o rim.

Contravenção


Em Brasília, recentemente, algumas travestis estavam sendo procuradas pela Polícia por injetarem silicone em menores. Somente em uma vítima menor foram injetados 8,5 litros de silicone. Quando foram submetidas à aplicação tinham 15 anos de idade. O produto, fabricado em São Paulo, é conhecido como “Barra Mil”, usado inclusive como combustível de avião.

Segue o depoimento da travesti A.L.A., 16 anos, que esperou quatro horas para receber dois litros de silicone, há um ano, sem nenhum acompanhamento médico ou cuidados específicos: “Cheguei à casa da bombadeira às duas horas da tarde, mas estava muito nervoso por causa da dor que ia sentir. A aplicação começou às cinco horas da tarde e durou 45 minutos”, conta A., que antes tomou banho e descansou até criar coragem para levar 24 injeções de silicone nas nádegas. A bombadeira é conhecida como K.F. Outra travesti, E.R.M., 16 anos, tem 8,5 litros no corpo. “Eu mesma me apliquei algumas vezes e a K.F. outras”. (7)

A aplicação de silicone por pessoa não habilitada pode ser enquadrada como crime de lesão grave, cuja pena é de um a cinco anos de prisão, e por lesão gravíssima, de dois a oito anos. Para decidir por qual crime, o delegado Carlos Alberto de Oliveira espera o resultado do laudo médico do IML.

Segundo a mesma reportagem, cada litro custa em média R$ 250 a 400. As aplicações são feitas com agulhas de uso veterinário, medindo o mesmo tamanho de uma caneta esferográfica. A menor A. garante que nunca sentiu efeitos colaterais, mas já tentou retirar o silicone, que se espalha e fixa-se pelo corpo.

Posicionamento da ATRAS/GGB

A posição da Associação de Travestis de Salvador e do Grupo Gay da Bahia é de muita cautela em relação ao silicone: trata-se de um produto perigoso, que, segundo a bibliografia médica, pode causar câncer e outras doenças, que oferece risco de infecções e deformação, e que tem levado diversos travestis à morte em Salvador e noutros Estados. Cada pessoa, contudo, deve decidir por si própria, o que pretende fazer com sua vida e com seu corpo. Se alguém realmente deseja tornar seu corpo mais feminino, corre menos risco se procurar uma clínica e fizer implante com prótese, solução que custa mais caro, porém oferece menor risco para a saúde, podendo ser retirado no futuro.

Não aconselhamos ninguém a colocar silicone em seu corpo, sobretudo com pessoas leigas e sem formação médica: sempre que alguém nos procura, sobretudo se é menor de idade, demonstrando vontade de “botar silicone”, advertimos sobre os riscos que corre e desestimulamos o quanto podemos tal idéia. Vários desses jovens, anos depois voltaram ao GGB, uns para agradecer o conselho, outros arrependidos de não terem ouvido nossa experiência. Apesar de algumas bombadeiras e ex-bombadeiras frequentarem as reuniões da ATRAS, não apoiamos nem defendemos tais pessoas, pois muitas travestis já nos procuraram para denunciar sérios problemas de saúde devido à ação incompetente destas.

Portanto, ao divulgar essas informações, nosso objetivo é oferecer maior reflexão e possibilidades de escolha para diminuir o sofrimento e as conseqüências negativas às travestis que estão em dúvida quanto a essa decisão, que se de um lado pode causar alguns poucos anos de satisfação, alegria e sucesso, do outro, na maior parte das vezes, tem provocado muitas dores, tristezas e arrependimento para o resto da vida.

Há mais uma questão: muitas travestis confirmam que peito grande e formas exageradamente arredondadas são mais exigências dos clientes e da prostituição do que verdadeira e desejada opção – “sem peitão e bundão não tem prostituição”, disse certa vez uma defensora do silicone numa reunião da ATRAS. Muitos clientes estão preferindo ultimamente travestis menos bombadas, com corpo de mulher moderna. Mais uma razão para pensar melhor antes de enfrentar a dolorosa e problemática decisão de se bombar.

Leia atentamente as indicações desta cartilha, reflita e pense que a saúde é o bem mais precioso de nossa vida, e a pessoa pode estar cheia de dinheiro, beleza e vaidade, mas se não tem saúde, nada disso pode ser bem aproveitado. Não jogue fora nem destrua este manual: passe-o para outra amiga e se lembre de que quem avisa, amigo é!

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(1) A cartilha, de autoria de Luiz Mott, é resultado da cooperação de diversos coordenadores do GGB, ATRAS e CBAA, que ajudaram na classificação dos documentos no Arquivo, bem como na discussão e digitação. Este texto foi apresentado no VII Encontro de Travestis que Trabalham com Aids, em junho de 1999 em Fortaleza - CE, onde foi aprovado por unanimidade. Foi também minuciosamente discutido e aprovado em três reuniões da ATRAS, em julho e agosto de 1999.
(2) Mott, L. & Cerqueira, M. “As Travestis da Bahia e a Aids.” Salvador, Editora Grupo Gay da Bahia, Ministério da Saúde, 1996.
(3) “Os travestis à espera da morte”, Folha de São Paulo, 05-02-1983; “Terror no mundo gay – o silicone que mata”, Fatos e Fotos, 17-02-1983; “Laxante vendido como silicone mata 6 travestis”, Folha de São Paulo, 03-02-83; “O silicone corroeu Solange por dentro”, Folha de São Paulo, 05-02-1983.
(4) “Travesti diz que silicone deformou suas nádegas”. Folha de São Paulo, 26-04-1994.
(5) “Velhice é sinônimo de pavor para travesti”, Jornal do Commercio, 07-06-1998.
(6) “Travestis voltam ao Rio e tiram silicone”, Folha de São Paulo, 11-08-1992.
(7) “Travestis injetaram silicone em menores”, Correio Brasiliense, 05/04/99.

05 Dezembro, 2008

Ser ou não ser, eis a questão

“Como alguém pode saber a diferença entre ser disfórico de gênero¹ ou gay, tem que experimentar para saber? Parece arriscado, especialmente se não se sente nenhuma das duas coisas, não?”

Ora, a única pessoa que realmente pode lhe dizer o que você é é você mesmo. Você tem que indagar seu “eu interior” e se dar conta do que quer e como se sente. Terapia pode ajudar; amigos também. Tentar hormônios por seis meses idem. Ler a respeito e encontrar pessoas gays e trans pode ser útil. Freqüentar grupos de apóio, igualmente. Mas no final das contas você tem que decidir o que quer viver, arriscar, ser e encarar por si só. Nenhum teste, nenhuma pessoa, nenhum outro método pode fazer isso por você.

Então você precisa se aprofundar no assunto, descobrir as verdadeiras histórias de muitas pessoas para ver se elas se assemelham ao que sente, entender o que realmente sente e talvez experimentar um pouco, cuidadosamente.

De acordo com o que inferi de sua carta, acredito que você seja um rapazinho gay que idolatra a transexualidade como uma desculpa para de fato não admitir ser gay, ou pode ser uma fascinação. Pode ser que eu esteja errada e você seja transexual, ou simplesmente alguém que adora as pessoas andróginas. Enfim, você tem que decidir por si mesmo.

Lembre-se, homossexualidade e transexualidade brotam da mesma fonte – mudanças pré-natais no cérebro. Há alguma evidência que indica que a homossexualidade tem ainda um componente genético. Dito isso, a transexualidade não é uma boa saída para evitar a homossexualidade, até porque os gays são bem mais aceitos na sociedade em geral do que os transexuais.

Não é fácil ser um “T” [transexual ou transgênero]. Entretanto, há uma maneira fácil de se dar conta se você é gay ou transexual: se você é capaz de viver no corpo com o qual nasceu sem precisar mudá-lo a todo risco ou custo, então você não é transexual. Isso é o que transexuais fazem: cedo ou tarde elas [ou eles, para os rapazes trans] são levados a mudar seus corpos a todo custo, porque seus corpos simplesmente não se encaixam às suas identidades. Esse é portanto o fator decisivo, resumindo.

Tradução e adaptação: blogueira
Fonte: este texto faz parte da série “Letters”, do site norte-americano transsexual.org, que contempla perguntas e respostas sobre transexualidade e transgenerismo.
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¹ Disforia de gênero é um termo que designa indivíduos que vivem conflitos com seu gênero de nascimento (mente e corpo não convivem em harmonia até que se faça uma transição de gênero). O termo inclui transexuais, transgêneros (travestis) e por vezes alguns crossdressers.

04 Dezembro, 2008

Ponderações sobre o uso do silicone injetável

Por Andrea James
Tradução e adaptação: blogueira

Ok, pode ser que eu surpreenda a todos mas tenho conselhos para mulheres trans que procuram injeções de silicone – e não é uma condenação geral!

Bem, este procedimento é ilegal e muito perigoso, mas ainda há pessoas que o procuram, como se fosse droga que vicia. Portanto, em vez de dizer: “Não consuma drogas!”, é melhor fazer com que os usuários delas reduzam os riscos [até que encontrem uma ajuda efetiva para seu problema]. O mesmo se pode dizer com respeito ao silicone: será sempre um problema na comunidade trans, principalmente quando se é jovem e pobre e está desesperada por uma feminização rápida e barata do rosto e corpo.

Não se engane, silicone injetável pode matar e de fato mata muitas mulheres trans (principalmente travestis) anualmente, além de desfigurar muitas mais. Em vez de apenas dizer que é ruim, é importante mostrar exemplos de por que é ruim. Só assim você pode decidir se os riscos valem a pena.

Compilei [em meu site] uma lista de artigos recentes sobre o assunto, bem como dados médicos, começando com dados publicados sobre mortes e desfigurações dentro da comunidade trans. Também comecei a fazer uma lista de dicas de como minimizar os riscos.

A causa mais comum de morte após a aplicação imediata de silicone é por meio de uma alergia que faz com que os pulmões se encham de fluidos, ou em virtude de embolia pulmonar. Imagine se afogar por causa do muco e do silicone que começam a encher seus pulmões. Não parece ser boa coisa, não é mesmo?

Tanto a alergia quanto a embolia pulmonar podem causar morte certa e rápida, ao menos que sejam tomados cuidados emergenciais aos primeiros sinais de coceira, tontura ou dificuldade de respirar. Uma maneira de reduzir o risco é fazer pequenas aplicações em muitas sessões em vez de uma enorme quantidade de uma só vez. Contudo, ainda continuo recomendando veementemente a não aplicar silicone injetável no corpo. Os riscos de morte, machucados, resultados estéticos insatisfatórios e problemas a longo prazo são muito altos.

Tenho uma amiga que fez a transição e foi uma dançarina stripper por muitos anos. O bumbum dela era mais bonito que o de qualquer pessoa que pôs silicone injetável que alguma vez já vi. Ela o conseguiu através de dieta e exercícios específicos para os glúteos. Ela é imbatível fisicamente e tem o corpo mais arrebatador que já vi ao vivo, seja de transexual ou não.

Pessoalmente, tentaria esse meio antes de pensar em injetar algo no corpo. Enfim, é uma escolha sua. Espero que este texto tenha ajudado.


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As dores decorrentes da aplicação do silicone são chocantes: se reclamamos da picada de uma injeção de 5 mg no bumbum, com agulha fininha, imagine a dor repetida por até 300 furos de agulha de uso veterinário (da grossura de um palito de dente), para aplicação de um copo ou de até 15 litros de silicone industrial – produto tão perigoso que na embalagem adverte-se para lavar bem a superfície afetada no caso de cair sobre a pele. Para impedir que o silicone escape através dos orifícios deixados pela agulha após sua aplicação, as ‘bombadeiras’ [como são chamadas as travestis que aplicam o silicone nas outras] tapam os buraquinhos com cola Super bonder, produto também altamente tóxico. (...) com o tempo, o silicone ‘desce’ do peito ou dos quadris para a bolsa escrotal, ou das cadeiras para as pernas e pés, provocando deformações semelhantes à elefantíase.” -Luiz Mott, presidente do Grupo Gay da Bahia.


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Texto extraído do site Trans Road Map, exceto a citação de Luiz Mott. Para saber mais sobre silicone injetável e ver fotos impactantes, veja os sites Indústria da Solidariedade.Org e Silicone Holocaust.Org ou acesse artigos sobre o assunto no Google.

22 Novembro, 2008

Por que alguns fazem o caminho de volta?

São muito raros os casos de destransição de gênero (voltar ao sexo biológico após ou durante uma transição). Entretanto, recentemente o caso de um jornalista do Los Angeles Times, Mike Penner, gerou bastante alvoroço, principalmente na blogosfera trans de língua inglesa.

Ele confirmou sua volta ao jornal em que trabalhava dezoito meses após desistir publicamente de sua transição (o processo durou de abril de 2007 até outubro de 2008). Seu retorno gerou uma chuva de artigos na net, como o do blog Sports by Brooks, onde se lê: Mike Penner Throws Christine Back In The Closet (“Mike Penner joga Christine de volta ao armário”).

Entre os muitos textos que li a respeito, achei o seguinte bastante interessante e pertinente – é um comentário tirado do post When not to Publish (“Quando não Publicar”), do blog Gender Variant Biography:

Mike Penner destransicionou, e isso não é apenas uma questão de assinatura [do nome dele como jornalista]. Sinto muito por ele, a dor que deve ter passado, e espero que ele tenha feito a decisão certa. É uma pena que sua transição tenha que ter sido tão pública.

Honestamente não posso dizer se alguma vez ouvi falar de alguém que destransicionou e se sentiu especialmente satisfeito. Geralmente terminam por ter uma crise e retransicionar um pouco mais tarde na vida (como foi o caso de Renée Richards e Donna Rose), ou continuam num estado de eterna insatisfação com respeito a sua identidade sexual e seu corpo. Alguns encontram alguma paz ao se identificar como ‘genderqueers’ [numa tradução livre: “homossexuais com questões de gênero”] ou, no caso de alguns outros, se auto-intitulando ‘homens com identidade mental intersexual’.

Sempre achei que uma transição de gênero fosse uma dádiva... obviamente teria sido melhor ter nascido uma mulher genética como as outras. Mas apesar de todas as imperfeições e pressões sociais, legais e médicas, a transição permite à minha convicção interior de quem sou um invólucro conveniente para sentir o mundo, e me sinto muito sortuda em ter essa segunda chance. Alguns idealizaram fantasiosamente o que uma transição pode lhes trazer (o caso de
Cora Birk?), fantasias que não estão calcadas na realidade ou mascaram outros aspectos de suas vidas.


De um ponto de vista puramente ‘seco’ politicamente, acredito que só porque uma pessoa é famosa, passável e teve uma transição bem-sucedida, isso não significa que ela se transforme numa boa porta-voz para a comunidade trans. Acho que tanto nós quanto a mídia perdemos a noção disso.


Todo o comentário acima resume o que eu pretendia escrever neste post, por isso decidi traduzi-lo em vez de escrever.

Para saber mais sobre as poucas histórias de destransições documentadas, indico a página “Advertência àquelas que pensam em se submeter à CRS de homem para mulher”, do site em português da cientista Lynn Conway, do qual por coincidência fui colaboradora. Nele, explicam-se as principais causas de uma destransição.

20 Novembro, 2008

Cora Birk, a história de uma destransição

James (antes Cora) Birk é um ex-punk alternativo de 30 e poucos anos que mora no Brooklyn, Nova York. Ele escolheu rejeitar a arte corporal – relativamente a um conceito de transformação do corpo inteiro (sua transição) – como modelo de estética e em vez dela abraçar o processo da sua forma natural.
James gosta de gatinhos e cachorros de grande porte, assim como botas de combate, bolos, computadores Thinkpads e do escritor Chuck Palahniuk. Ele não gosta de rótulos de nenhum tipo, especialmente os ligados a identidade de gênero e sexualidade, embora reconheça a importância deles para a comunicação e o entendimento da sexualidade, por isso os usa bastante, especialmente em referência a si mesmo.”
Era com esse texto que terminavam todas as colunas de James Birk, que em 2005 e sob o pseudônimo de Cora, fez uma tentativa de transição de gênero que durou alguns meses.
Durante esse tempo, ele escreveu no site canadense BMEzine, voltado para arte corporal, uma coluna denominada Shapeshift (“Mudança de Forma”), editada de abril de 2003 até fevereiro de 2005. Nela ele descrevia os sabores e dissabores do dia-a-dia de uma transformação física de um sexo a outro. Meses depois do início de sua transição, James se deu conta de que de fato não era transexual e fechou sua coluna explicando o porquê de destransicionar.
Por isso, antes de iniciar uma transição de gênero, recomendo a leitura desse texto, traduzido para o português exclusivamente para este blog. Infelizmente, talvez a pedido do próprio autor, as colunas originais no BMEzine foram apagadas. Entretanto, a última delas ainda pode ser encontradas em inglês no Transgender news do Yahoo Groups.
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Coluna Shapeshif no. 10, de 2 de fevereiro de 2005
Por James Birk
Tradução:
blogueira

Nenhuma satisfação baseada na decepção é concreta; e embora a verdade possa incomodar, é melhor encará-la de uma vez por todas, para se acostumar e começar a construir sua vida de acordo com ela.” Bertrand Russel

Esta é a coluna Shapeshift mais difícil que escrevo. Fiz cinco revisões, quatro esboços e duas deleções completas com recomeços. Tenho tido problema com o grande volume de material que tem se acumulado, bem como com a própria quantidade de detalhes apropriada para o assunto. Decidi, portanto, que para que eu conseguisse concluir e ter o sentimento de “fechamento” do assunto os detalhes deveriam ser sacrificados. Abaixo está o que escrevi em meu diário na tarde de 25 de abril de 2004.
Esta é a nanoexegese¹ que seguiu:
Não foi uma decisão rápida. Ponderei por meses e mesmo agora, à medida que escrevo o que prometi ser a versão final desta coluna, estou tendo muita dificuldade em articular exatamente por que voltei atrás na transição.
Agora que meu cérebro está de novo palpitando de testosterona, o desejo de dissecar tudo para ser examinado publicamente parece ter desaparecido completamente. De fato, quando volto a pensar no raciocínio que me levou a expressar o que escrevi nas outras colunas, chego a tremer com um sentimento semelhante à humilhação. Quase não consigo me dar conta do que se passava em minha cabeça quando as escrevi. Foi tão completamente diferente de qualquer perspectiva que alguma vez eu já experimentei que quase parece ter acontecido a outra pessoa.
Contudo, de uma coisa tenho certeza no que se refere ao meu estado mental: foi quase uma combinação letal de indução de hormônios em grande quantidade mais o que basicamente equivale a uma completa ignorância da realidade. É um assunto muito complexo, então vou esmiuçar o que aconteceu e os componentes que estavam em jogo nisso.
Eis as possibilidades mais prováveis:
O termo transexual refere-se a muitos aspectos complicados da disforia de gênero. Esta por sua vez refere-se a qualquer variedade de identidade gênero, freqüentemente associada a coisas como crossdressing, que em meu caso parece ter significado “indumentária cultural com o único intuito de expressar a minha variância de identidade de gênero”. Sim, pois gosto de roupas e apetrechos do visual que é geralmente associado a mulheres. Não sou mulher. Então o problema é evidente.
É ainda – e sempre tem sido – verdade que eu quero ser uma mulher. Entretanto, em algum ponto no caminho parece que me convenci de que este desejo era muito mais do que um simples e inofensivo desejo – acho de fato que foi mais uma ânsia, que se eu não conseguisse o que queria não poderia seguir adiante. Não estou exatamente certo quando isso aconteceu, embora suspeite de um intenso “clique” psicológico em um mês qualquer de 1998.
Tinha o diagnóstico a meu favor: tive três psicólogos, dois psiquiatras e um endocrinologista todos me dizendo que eu era mesmo transexual. Depois de um tempo, tornou-se difícil pensar o contrário, e acabei por me acostumar a me comportar de acordo com o que achava. O autor Ken Kesey disse um monte de coisas interessantes sobre esse tipo de aderência consciente aos sintomas de uma patologia para validar o diagnóstico dela.
Foi fácil, de fato. Eu sentava no divã usando próteses removíveis bem caras nos seios, atreladas ao meu peito por um sutiã de seda Victoria’s Secret, uma camiseta simples sobre ele, em nome da discrição – sim porque garotas de verdade não sentam pela casa vestindo conjuntinhos e lacinhos no cabelo o dia todo, mas usando shorts e camisetas, como eu fazia. Compartilhei um pouco do raciocínio que evidentemente é compartilhado por muitas transexuais de homem para mulher (MtF) — a sutileza é a chave. O medo de aparecer para alguém como sendo um autoginecófilo² foi palpável e horrível. Mas admito que entre você e eu realmente preferiria estar usando anáguas e espartilhos.
Disforia de Gênero é um termo muito amplo usado para descrever todas as pessoas que têm “confusão ou desconforto sobre seu gênero de nascimento”. Sendo assim, em nome da classificação, algumas pessoas jogam os crossdressers dentro dos “disfóricos de gênero”, mas na minha cabeça nem sempre é o caso. Eu digo que há uma enorme gama de significados para o termo crossdresser. Aqui vão alguns do meu próprio ponto de vista sobre crossdressing de homem para mulher e troca de gênero, os quais tendem a variar bastante das definições aceitas.
Drag Queens
São pessoas que se vêem no palco de boates fazendo shows e nas paradas gays. Acho que são na maior parte gays, e muitos não são transexuais. Alguns se submeteram a pequenas cirurgias – feminilização facial ou mesmo implante de próteses nos seios, por exemplo, mas geralmente para que se tornem drag queens mais convincentes e não mulheres.
Além disso, acho que a drag queen é um monte de tipos de crossdresser, pois incorpora qualquer uma das definições abaixo, dependendo do indivíduo.
Crossdressers (“travestidos”) fetichistas
Tirei este termo diretamente dos chatos textos acadêmicos clássicos. Acho que é um termo excelente, embora muitos crossdressers tenham desconforto com o temo “travestido” por uma razão ou outra.

Na minha mente, travestido fetichista define um indivíduo que recebeu estímulo sexual da roupa em si, há uma conexão entre sua libido e os apetrechos de mulher.
Crossdressers teatrais
Esse é um termo que inventei. Uso para descrever o tipo de pessoa que não parece ser sexualmente estimulada por usar roupas femininas, e não tem desejo, libido ou algo do tipo em ser mulher. Vestem-se como parte da indumentária de sua subcultura ou “tribo” – vão de góticos usando saias negras a aficionados do filme Rocky Horror Picture Show (e é interessante ver que parece haver uma imensa transformação neste caso).
Crossdressers acidentais
Conhecidas também como “crossdresser halloween” na minha mente. São pessoas que não se travestem habitualmente, mas o fazem para ocasiões especiais apenas porque é divertido ou interessante, ou mesmo por travessura. Por exemplo, um cara que aparece em uma festa Halloween como um animador acompanhado de sua namorada travestida de jogador de futebol. Isso é bem divertido!
Crossdressers libidinosas
É um grupo muito maior do que muitas pessoas se dão conta. Uma crossdresser libidinosa é uma pessoa que encontra prazer sexual no ato de se comportar como mulher, usualmente com ajuda de um número maior de apetrechos do que outros crossdressers requerem.
Eles têm uma falta de clareza na ilusão do que é feminilidade e geralmente têm pouco ou nenhum desejo de se tornarem mulheres na vida real, nem acreditam serem mulheres, mas desfrutam da ilusão da conquista da feminilidade, mesmo que por pouco tempo.
Este tipo de crossdresser é de algo modo conhecido pelo ato de “purgar” como uma forma de alívio do estresse. O sentimento de culpa associado com o “retorno” da personagem feminina cria uma propensão à destruição total da indumentária feminina que possui – a “purgação”. Essa purgação vem geralmente associada à decisão de nunca mais se travestir, e é quase sempre seguida pela eventual diminuição da recriação do freqüentemente caro guarda-roupa feminino.
Crossdressers autoginecófilas-transexuais
É um dos tabus mais sérios da cultura transexual, embora ninguém realmente saiba qual percentual de transexuais diagnosticadas esse termo define. A crossdresser autoginecófila-transexual não necessariamente quer ser mulher — o que elas querem é um corpo de mulher. E isso não é a mesma coisa!
Querer ser mulher é querer o aspecto físico, claro, junto com a identidade social, o estado mental e o estilo de vida. Autoginecofilia, bem precisamente, foi descrito pela médica transexual Anne Lawrence como “homens presos num corpo de homem” [mas que buscam mesmo ficar presos num corpo de mulher]. Porque ser autoginecófilo é conectar a excitação sexual com a possibilidade de viver dentro de um corpo de mulher.
Uma das muitas razões para que esse termo seja tão amedrontador para transexuais é seu uso obsessivo por um cara bem conhecido de nome Ray Blanchard³, que fere quase todos os autoginecófilos por não perguntar algo como “que tipo de coisa causa a autoginecofilia?”, mas “que tipo de defeito de desenvolvimento está presente no filho da mãe que abraça a perversão da autoginecofilia, em vez de buscar um estilo de vida agradável e saudável?”
Outra razão por que a autoginecofilia é tão desagradável para tantos transexuais é que ela tende a invalidar a sua transexualidade. A possibilidade de que eles possam passar por procedimentos tão extremos e perigosos simplesmente pela excitação sexual é algo ofensivo.
O que Blanchard nunca parece ter se dado conta é que em transexuais de homem para mulher (MtF) a inserção de estrógeno nos seus corpos elimina a libido quase que completamente e torna difícil ou mesmo impossível ter ereção. Na minha percepção, um autoginécofilo que faz toda transição transexual e ainda consegue manter o fetiche é mesmo porreta, um danado. Mais poder para ele então!
Crossdresser por identidade
Um crossdresser por identidade usa roupas femininas porque é o que “faz sentido”. Eles identificam a si como mulheres, embora passem ou não por uma redesignação de gênero. Às vezes vivem e trabalham como mulheres, já outros vivem exteriormente como homens, mantendo seus segredos de variância de gênero escondido de todos.
Não vejo essas pessoas como transexuais. Para mim, um transexual é uma pessoa que de fato procura ativamente uma redesignação de gênero. É uma definição de ação, não de estado de ser.
Transexuais
Transexualidade é um estado ativo. É uma conversão de vida. Um transexual é alguém que está em algum estágio do processo de mudar seu gênero. Quando alguém que é transexual termina a transição, ele(a) deixa de ser transexual e torna-se ou homem ou mulher.
Conclusão

O que há de errado com essas definições? Alguém que se enquadra em alguma delas deve se sentir errado ou culpado? Eles deveriam parar com seus “atos doentios” imediatamente e adotar uma atitude certinha, saudável?
Claro que não! Qualquer pessoa que se enquadra em quaisquer das classificações anteriormente referidas deve se sentir bem com quem é e fazer o que quer que queira para buscar estímulo físico ou não. Eles têm que ser felizes consigo mesmos e com sua sexualidade. É isso que os faz diferentes e interessantes como pessoas.
Eu, por exemplo, não estava pensando nada próximo a isso quando pulei de algo entre “libidinoso, autoginecófilo e crossdresser por identidade” para decidir que era transexual. E esse é o problema com esses termos — leva pelo menos três deles para explicar onde minha cabeça estava, e mesmo assim muitos detalhes importantes ainda faltam.
É verdade que eu às vezes me excitava com o próprio conceito de ter um corpo feminino... enquanto eu fantasiava em usá-lo para conseguir sexo, sendo muito infeliz com os atributos físicos do meu próprio corpo e estando desconfortável em qualquer papel sexual de homem.
É verdade que eu às vezes me excitava com a ilusão opaca da feminilidade; nela, eu me olharia num espelho e iria me admirar toda maquiada e vestida quando tudo pareceria certinho, pois eu me sentia mais sexy como mulher – a imagem da feminilidade bloqueava meu desconforto com a minha própria masculinidade e permitia minha libido fluir livremente.
É verdade que eu às vezes me identificava como mulher na minha mente, pois rejeitava minha masculinidade a todo custo, e a aceitação da identidade de mulher era uma maneira natural de validar essa rejeição.
Eu abracei a transexualidade, acredito, porque estava extremamente desconfortável com as outras terminologias que eu ouvia falar. Se eu fosse um mero crossdresser de um tipo ou outro, não seria encarado como nada mais nada menos que “um pervertido muito mal-entendido usando um monte de maquiagem”. Mas se eu fosse transexual então eu estava validado, poderia ser ajudado. Poderia tomar hormônios e um dia fazer uma cirurgia de redesignação de sexo, tudo sob a proteção dos ativistas LBGTs politicamente corretos, que veriam minha condição como algo para se orgulhar. Poderia levantar minha cabeça orgulhosamente nas paradas gays e todos ao meu redor poriam de lado o desconforto com a minha situação e usariam todos os pronomes corretos. Algum de vocês alguma vez já viu uma parada com um crossdresser heterossexual, masculino e casado? Também não!
Então quando alguém com um currículo de fazer inveja e uma consulta cara disse “transexual” eu me animei. Quando outro disse o mesmo, me animei ainda mais. Depois que o sexto disse isso e eu estava tomando hormônio, me tornei a autoginecófila libidinosa e transexual de identidade crossdresser mais feliz desse mundo – por dois meses.
Não importa o quão eu minta para mim mesmo e para todos ao meu redor, uma das coisas que acho mais interessantes sobre a realidade é a sua tendência para eventualmente se infiltrar na minha experiência subjetiva. Menti para mim mesmo constantemente durante toda essa minha “mudança de forma”. A mentira que todos os outros mentem resumindo foi esta: “Estou fazendo a coisa certa.”
Não há nada falso em nenhuma das colunas escritas por mim no Shapeshift. Escrevi cada uma precisamente com o que estava sentindo no momento, e estou longe de me arrepender por algo que escrevi – sou incrivelmente sortudo e feliz por ter tido a oportunidade de escrevê-las.
Elas agora existem como nada mais nada menos que a validação de minha experiência como se passou. Acho que no momento não tenho palavras reais para descrever o lugar em que minha “mudança de forma” tem em mim agora.
Hesitei em escrever o que realmente penso da experiência porque parece muito estranho para mim que eu teria na vida a ocasião de passar por isso tudo. É o tipo de coisa que eu li que acontece com os outros, em que pessoas que tiveram experiências semelhantes acabam por mudar seus nomes e inventar uma religião – ou talvez escrever um livro.
__________
¹ Exegese é o comentário ou a dissertação que tem por objetivo esclarecer ou interpretar minuciosamente um texto ou uma oratória. Nano (do grego nánnos) significa minúsculo, anão.

² Autoginecofilia (do grego autós = em si próprio, gunaikós = mulher e philos = atração, querer) é a obtenção de prazer sexual pelo fato de “se sentir uma mulher”, seja se vestindo, seja adquirindo características femininas por meio de hormônios. O objeto de desejo está na mulher que aparece em si mesmo, uma atração por seu alter ego feminino. É uma parafilia tipicamente masculina e comum em crossdressers MtF, já que não há referência na bibliografia médico-psicológica de mulheres que se excitam ou sintam prazer sexual pelo fato de serem mulheres, pois o objeto de sua sexualidade está fora delas, no outro (homem ou mulher). Contudo, há casos de crossdressers masculinos (FtM) que apresentam a auto-androfilia.
³ Dr. Ray Blanchard foi um psicólogo clínico do Clarke Institute of Psychiatry, em Toronto, Canadá.

13 Novembro, 2008

Transicionando como uma borboleta


Embora não goste de fazer apologias a tratamento xis ou ípsilon, acredito que idéias interessantes devem sim ser divulgadas. Por isso abrindo a postagem deste mês vou continuar falando sobre “transição de gênero” e especificamente sobre uma abordagem de transição bem peculiar, utilizada por um site que lida com questões de gênero e do qual eu mesma já utilizei proveitosamente os serviços – a clínica virtual Gendercare.

Eles trabalham com um método de transição chamado “Estratégia da Borboleta”, que utiliza basicamente os Standards of Care – SoC preconizados pela WPATH¹, retardando contudo a fase chamada “Teste da Vida Real”.

Esse teste recomenda basicamente começar a viver no gênero escolhido desde o começo e durante toda a fase andrógina, para ver se realmente é o que se quer. Mas sejamos coerentes, essa exposição precoce pode ter um preço alto para os estudos, trabalho e no nível psicológico. Pela abordagem da Gendercare, o ideal é fazer um tipo de transição disfarçada, na qual os hormônios são tomados e segue-se com os outros tratamentos e cirurgias para se adequar e chegar ao sexo-alvo ainda vivendo no sexo físico original, sem chamar a atenção (as mesmas roupas do sexo original, atitude e comportamento discretos etc.).

Achei a técnica bem interessante e particularmente minha própria transição tem seguido por esse caminho. Por exemplo, desde o começo decidi não deixar meu cabelo crescer para além das orelhas até que eu estivesse pronta física e psicologicamente para viver como mulher e ser passável – o que seria no fim do segundo ou terceiro anos.

Fase andrógina, momento difícil

A fase andrógina nos expõe muito e é quando a gente se sente mais rechaçada, apontada e fragilizada (pus no feminino, mas me refiro também aos meninos trans). Vamos admitir que querer que todos que nos conheciam como “João” nos vejam como “Maria” da noite pro dia é forçar muito a barra. Infelizmente, nem todos têm essa grandeza de espírito, principalmente quem não nos conhece e não tem sentimentos por nós.

Imagine começar o período escolar se vestindo de homem e ir se transformando publicamente e começando a sofrer os impactos disso. A mesma coisa no trabalho: começar a ir de batom, maquiagem, roupas mais femininas ainda tendo uma imagem masculina... pior ainda quando se trabalha em uma área não-simpatizante (por área simpatizante digo beleza, arte etc.). Enfim, particularmente acho desnecessário forçar tanto.

A própria Andrea James disse o seguinte no post Planejando a Transição de Gênero: “Viver integralmente como mulher é em geral melhor quando se preparou o máximo possível (...) Além disso, fica mais fácil para as pessoas aceitarem você se você se comprometeu de corpo e alma com a transição, fazendo-a passo a passo e não do dia para a noite.”

Aliás, acho os conselhos dela muito convenientes e sábios, a única coisa da transição que ela aconselha que eu particularmente não acho muito viável é deixar o cabelo crescer desde o comecinho, quando se assume transexual. Deixar o cabelo crescer quando ainda se é fisicamente homem é meio que entregar o ouro ao bandido (já que cresce indefinidamente, podemos fazer isso no fim da transição, que dura em média dois, três anos). Acredito que cabelo longo (para mulheres MtF) ou curto (para homens FtM) fará a vida mais difícil ainda nesta fase, porque ficar andrógino é uma coisa, mas andrógino e com cabelo excessivamente de longo (ou curto, no caso dos meninos trans) é outra.

Hoje em dia há tantas mulheres femininas com cabelos curtos por aí, tipo à la garçonne (“rapazinho”). Cabelo é como planta, sempre crescerá a qualquer momento (o cabelo cresce em média 1 cm por mês, então, em dez meses se tem 10 cm). Portanto, podemos ser mulheres e poderosas, sem deixar de sermos discretas nessa fase que necessitamos de discrição (e para o caso de querermos um cabelo longo ocasional, há possibilidades de perucas e apliques, por exemplo).

Mas alguém pode então dizer: “Mas hoje em dia tanto homem deixa o cabelo crescer até os ombros ou mais!” Ok, mas eles geralmente também malham muito ou deixam a barba crescer para reafirmarem a masculinidade. É muito difícil ver um homem hétero com o rostinho limpo, corpo depilado, sobrancelhas feitas e jeito delicado com cabelo grande. Existe? Por isso que fica óbvio para quem vê quem é quem.

Saída radiante do casulo
Mas voltando à “Estratégia da Borboleta”, o interessante é que podemos continuar nossas vidas sem chamar atenção e continuar nos preparando nos estudos e na profissão até nos sentirmos prontas para “sair da toca” (no caso, do casulo). Quer dizer, esse tipo de estratégia nos expõe menos publicamente e como conseqüência nos traz menos sofrimentos. Inclusive eles só recomendam sair do casulo após a Cirurgia de Redesignação de Sexo – CRS.

No site deles lemos o seguinte: “Quem passa por uma transição sabe o que acontece com seu corpo. Contudo, colegas, amigos, vizinhos e conhecidos não precisam saber (...).” Enfim, a última coisa que alguém quer numa transição (em que há muito gasto) é ter que deixar o ano letivo ou ficar desempregada por causa de preconceito ou exclusão por não-aceitação nesses ambientes.

Para saber mais: Gendercare
__________
¹ Associação mundial que lida com as questões de transexuais, transgêneros e intersexuais, anteriormente denominada HBIGDA.

06 Novembro, 2008

Modelo da escala de transição de Kara Flynn

Para ilustrar mais uma vez e estimular a criatividade, decidi expor outro exemplo de escala de transição, além do seguida por Andrea James, que postei anteriormente.

Feita previamente, uma escala ajuda a guiar a transição, principalmente quando leva em conta os recursos financeiros disponíveis e o tempo de atingimento realista das fases.

A escala abaixo é da transexual Kara Flynn, cujo site infelizmente saiu do ar recentemente com a falência de mais uma unidade da AOL americana. Acredito que ela fará a transferência do site e em breve porei o novo endereço aqui.
_________________________
2000
Janeiro
Fevereiro
Março
Abril
Maio
Junho
Primeira vez em minha vida que vi uma transexual.

Julho
Meu aniversário de 30 anos.

Restante do ano
Experimento os primeiros sintomas de ansiedade por causa de minha Disforia de Gênero (presente desde os 7 anos de idade).
A perda de meu cabelo se torna aparente na coroa de minha cabeça (vértice). Começo a tomar finasterida.

2001

Janeiro
Decido ir morar sozinha em São Francisco, Califórnia. Começo a deixar meu cabelo crescer.

Fevereiro
Março
Abril
Maio
Julho
Experimento o segundo sintoma sério de ansiedade pela minha Disforia de Identidade de Gênero (Gender Identity Disorder - GID).
Conto meu amigo L, a primeira pessoa que de fato me conhece pessoalmente (até então só contei a contatos da internet).
Aniversário de 31 anos.

Julho
Agosto
Primeira vez que me visto de mulher em público em uma butique especializada em produtos transgêneros, a
Carla’s.

Setembro
Primeira vez em um grupo de apoio a trans, terceira vez em público como mulher (fui e voltei de carro).

Outubro
Novembro
Conto ao meu melhor amigo J.
Dezembro

2002

Janeiro
Comecei a depilação definitiva a laser.
Procuro um terapeuta.

Fevereiro
Março
Abril
Começo minha psicoterapia.

Maio
Primeiro dos três depósitos num banco de esperma, para o caso de querer ser mãe um dia.

Junho
Conto a minha família mais próxima (pai, mãe e irmãos).

Julho
Aniversário de 32 anos.

Agosto
Começo os hormônios.
Faço o primeiro exame de sangue pós-hormonização.
Meu nível de testosterona é de 754.

Setembro
Aumento a dosagem de hormônios com auxílio do médico.

Outubro
Faço mais sessões de depilação definitiva.
Revelo o que sou para os amigos J e S.

Novembro
Teste de sangue para ver taxas gerais (se a hormonização está afetando negativamente algo).
Dezembro

2003

Janeiro
Cinco meses nos hormônios já.
Nível de testosterona menor que 20, infelizmente os hormônios também têm tido efeito negativos em minhas taxas sangüíneas. Farei avaliação em 2 - 3 meses de novo.
Primeira tentativa de contatar o departamento de Recursos Humanos para que este trabalhe meu caso no anonimato.
Abri o jogo para meu cabeleireiro.

Fevereiro
Fiz contato com o gerente de Recursos Humanos de minha empresa.
Continuo a depilação definitiva (tenho peito e costas para fazer também).

Março
Empresto o livro True Selves (fala do que é transexualismo) aos Recursos Humanos.

Abril
Nove meses sob hormônios.
Nível de testosterona menor que 20. Taxas sangüíneas voltam ao normal.
Primeiro relacionamento com um cara.

Maio
Empresto o livro Transsexual Workers: an Employers Guide para o RH.

Junho
Continuo a depilação definitiva.
Abro o jogo pros colegas de trabalho.
Abro o jogo para antigos colegas de classe.

Julho
Aniversário de 33 anos.

Agosto
Planejo uma visita ao RH de minha empresa para conversar mais abertamente.

Setembro
Outubro
Continuo a minha depilação definitiva.
Marco a minha Cirurgia de Feminilização Facial – CFF para janeiro de 2004.
Faço terapia de voz com um fonoaudiólogo.

Novembro
Começo o processo para mudança de nome.
Teste de sangue para verificar taxas.

Dezembro
Remarco a CFF para fevereiro em virtude da falta
de espaço na agenda do médico.

2004

Janeiro
Abro o jogo para 8 colegas de trabalho direitos.
Continuo minha depilação definitiva.
Encontro o chefe do RH para um tête-à-tête.
Consigo mudança de nome.

Fevereiro
Teste de sangue para verificar taxas.
Paro as sessões de laser definitivo para fazer minha cirurgia.
Já vivo como mulher 100% do tempo.
CFF com Dr. Ousterhout.
Todos os outros colegas trabalho ficam sabendo de minha transição.

Março
Mudo minha documentação.
Trabalho como mulher 100% do tempo.

Abril
Planejo consulta com o Dr. Meltzer (para minha vaginoplastia).
Recomeço as sessões de depilação definitiva.

Maio
Consulta com Dr. Meltzer, marco a vaginoplastia para fevereiro de 2005.
Começo a fazer depilação definitiva na área genital (já que este médico recomenda).

Julho
Aniversário de 34 anos.
Faço várias horas de depilação genital definitiva.

Julho
Agosto
Faço as últimas sessões de depilação facial.

Setembro
Faço uma c
onsulta para falar sobre implante de cabelo com o Dr. Ousterhout.

Outubro
Ainda continuo na depilação a laser nos genitais.

Novembro
Transplante de cabelo com Dr. Ousterhout.

Dezembro
Marco a vaginoplastia.


2005

Janeiro
Mais depilação definitiva nos genitais.

Fevereiro
Paro os hormônios um mês antes da CRS.
Paro todas as outras medicações.
Faço a vaginoplastia com Dr. Meltzer.
Volto aos hormônios.
Começo as dilatações 4 vezes por dia (por um mês).

Março
Primeira infecção vaginal causada por fungos.
Volto ao trabalho para meio expediente.
Faço duas dilatações diárias durante mais 3 meses.

Abril
Volto de vez ao trabalho.

Maio
Mudo meu passaporte para o meu novo gênero.
Perco a virgindade.

Junho
Mudo o regime hormonal.
Faço consulta para implante mamário.

Julho
Faço uma labioplastica com Dr. Meltzer.
Começo a dilatar apenas uma vez por dia.

Agosto
Setembro
Faço a dilatação apenas uma vez por semana para o resto de minha vida.
Outubro
Novembro
Dezembro

Para o futuro
Prótese mamária.
Mais um implante capilar.
Rinoplastia.
__________
Observação: meses em branco significam falta de atividade na transição.

30 Outubro, 2008

Planejando a transição de gênero

Por Andrea James
Tradução: blogueira


Muitas de nós queremos fazer isso rapidinho, mas temos que ser realistas: quanto mais planejamento se faz para viver cem por cento no sexo-alvo, mais tranqüila provavelmente será a transição. Aquelas que querem ser aceitas como mulheres pelos outros têm que se ajustar ao novo papel fisicamente, mentalmente e financeiramente. O mesmo se aplica aos transexuais homens (FtM).

A transição leva muitos anos e, falando de modo geral, pessoas mais jovens passam pela metamorfose mais rápido mas levam mais tempo para concluir o processo (principalmente por causa de questões financeiras). Mulheres mais maduras geralmente precisam de mais tempo para a “experiência da vida real” e por isso conseguem tomar todos os passos da transição antes.
__________

“O foco da transição deve

ser a busca para viver no

sexo-alvo o quanto antes.”

Andrea James
__________

Recomendo pensar na transição em três fases:

1. Fazer tudo que tem que ser feito fisicamente

2. Ajustar-se ao novo papel

3. Viver no sexo-alvo

Para viver no sexo-alvo, recomendo terminar o máximo de mudanças físicas possíveis. É duro ter que dizer isso, mas sua apresentação física vai ter um impacto enorme no nível de aceitação social que terá. Quer dizer, quanto mais passável mais bem aceita no dia-a-dia. Considerações iniciaisEmbora mulheres e homens transexuais que transicionam mais jovens tenham necessidades sensivelmente diferentes, o que exponho abaixo se aplica basicamente a todos.

Atente para o fato de que apenas a metade de tudo é relativa a aspectos físicos. Muita gente cai no erro de achar que a transição é uma coisa meramente física. As mudanças físicas são apenas uma fração do todo. Portanto, eis os itens mais importantes para planejar uma escala de transição.
Pesquisar

Pesquisa é essencial! Quanto mais se sabe melhor trilha-se o caminho. Por isso que me encarreguei de fazer o Trans Road Map (“Mapa da Estrada Trans”), para servir de referencial a outras pessoas na minha mesma situação. Leia livros e assista o maior número de filmes possível. Acesse informações de organizações voltadas a LGBTs, por exemplo. Pesquise os Standards of Care – SoC,² que muitos profissionais de saúde usam para tratar transexuais. Acesse a internet com freqüência e pesquise as histórias daqueles que passaram por transições bem-sucedidas.
Escreva para pessoas cujos sites ou grupos de apoio chamam a sua atenção. Enfim, conhecimento é poder! A internet tem se tornado uma das ferramentas mais importantes na história da comunidade transexual, ao oferecer uma maneira prática e rápida de coleta e disseminação de informação a todos os lugares do mundo. Entretanto, é importante considerar as questões de segurança na internet, pois pode ser que seus “segredos” sejam revelados antes do tempo ou mesmo seus rastros no sexo anterior marquem sua vida no período pós-transição, caso tenha problemas com isso.

Auto-aceitação
Essa é a parte mais difícil da transição e a primeira coisa que tem que ser trabalhada. Muitas pessoas acham que um terapeuta pode ajudá-las a resolver suas questões de auto-aceitação. O fato é que terapia ajuda a determinar o grau de importância das coisas em sua vida, já que muitas pessoas têm no início ilusões e conceitos errôneos sobre uma transição.

A terapia pode, desse modo, preparar o terreno para a realidade e mostrar como lidar com os fatores positivos e negativos desse caminho. A chave para tudo isso é sentir-se bem consigo mesma. Você vai enfrentar muitos altos e baixos na transição e terá que ter uma maneira de lidar com isso. Sendo assim, começar uma relação logo cedo com um terapeuta facilitará as coisas. Também é importante ver como ficará sua transição perante sua religião ou espiritualidade, caso siga alguma.

Abrindo o jogo

Abrir o jogo para família e amigos é algo muito pessoal. Cada um de nós tem desafios diferentes quanto a isso e, portanto, é muito importante pensar muito bem sobre quando e como contar às pessoas próximas a você. Para transexuais que moram com os pais e ainda são dependentes, esse é um dos passos mais críticos da transição e deve ser muito bem planejado.

Para mulheres transexuais mais maduras, é importante contar antes que as mudanças tornem-se aparentes, especialmente se é casada ou tem um relacionamento sério com alguém que não sabe de você. Seu parceiro merece saber o que está acontecendo com você, é um direito dele. E é bom considerar a possibilidade de ele não aceitar e você o perder. Alguns se vão, mas muitos outros certamente ficam.Contudo, apesar do medo de perder seu parceiro é injusto manter algo dessa importância fora do conhecimento dele, principalmente porque em muitos casos sua transição afetará a vida dele quase tanto quanto a sua. Fale com seu terapeuta sobre suas questões de família.
Trabalho

Abrir o jogo no trabalho é essencial, mas espere pelo momento certo. Você deve decidir logo se vai fazer a transição enquanto está trabalhando ou não. Acredito que a melhor coisa é fazer a transição no lugar que já está estudando ou trabalhando, e se quer mudar que o faça após todas as transformações físicas e jurídicas terem ocorrido. Isso porque não terá que lidar com as mesmas explicações no próximo emprego ou em entrevistas, já que tudo já foi mudado antes. [Nota da blogueira: após a mudança física e legal, ninguém no seu trabalho precisa saber que você passou pelo processo transexualizador, a não ser a quem você queira deixar isso claro.]

Se você ocupa um cargo que não é tolerante à causa LGBT (como nas Forças Armadas), pode considerar abandonar a carreira no começo da transição para uma empresa onde a tolerância seja maior. A chave de tudo é manter uma situação financeira estável o suficiente para cobrir os custos da transição (a não ser que seja rica ou tenha uma herança, o emprego é o que lhe dará as condições para a jornada). Recomendo, portanto, não abrir sua situação no trabalho até que seja absolutamente necessário.

Finanças

Financeiramente, uma transição de gênero completa é algo muito caro, e muitas mulheres transexuais contabilizam milhares de dólares após ter feito tudo. Por isso, crie sua escala de transição somente após cuidadosamente fazer seu orçamento e ver quanto pode dedicar a cada fase. Leve em conta um plano de transição financeiramente realista e sem ilusões.

Questões jurídicas

Juridicamente, você precisará levar em conta se é casada ou tem um negócio próprio. Pode ser que você se divorcie ou enfrente um caso de custódia de um familiar.

Por outro lado, se você trabalha em uma companhia, recomendo que dialogue sobre a sua situação com um bom advogado que lida com discriminação antes de começar a transição. Uma boa orientação pode guiá-la para evitar ser demitida ou mesmo ajudar a juntar evidências para o caso futuro de precisar abrir um processo por uma demissão errada. Tenha em mente que muitas transexuais perdem essas causas se elas têm a discriminação como fator. Sendo assim, não conte com uma demissão gorda em caso de demissão.

Procurar aconselhamento jurídico é algo que deve ser considerado para não correr o risco de ser demitida. Também recomendo fazer sua mudança de nome tão logo seja possível.³
Escolha do nome

Escolher um nome pode parecer fácil mas é algo que se deve pensar bastante antes de fazer, já que sua escolha pode afetar a percepção das pessoas sobre você. Ou seja, um nome muito elaborado pode chamar bastante atenção e fazer as pessoas desconfiarem de sua identidade mesmo após anos de sua transição.

Considere escolher um nome bonito, contudo discreto.

Depilação

A depilação dos pêlos da face particularmente é uma das coisas que levam mais tempo para terminar e dependendo do caso a coisa mais cara de toda a transição. É vital começar o processo tão logo quando se começa a transição, principalmente para aquelas que desejam ser aceitas como mulheres, as quais devem considerar métodos mais efetivos de depilação, em vez dos temporários.
Insisto em afirmar que é necessário remover o máximo de pêlos da face antes de considerar sair como mulher por aí. Faça sessões as mais regulares possíveis e no menor prazo recomendado pelo profissional que a executa. A partir do momento em que se pretende sair como mulher na rua, lidar com os pêlos da face pode ser um grande problema. Pergunte a qualquer uma, elas dirão que deveriam ter começado mais cedo para ter evitado os problemas.

Voz

A voz é uma das partes mais negligenciadas da transição, embora seja fundamental para se passar bem no sexo-alvo.Ainda me espanto com o fato de tão poucas mulheres transexuais terem vozes femininas. É algo tão revelador, que entrega logo de cara. Felizmente, feminizar a voz não-cirurgicamente não custa tanto. Eu mesma gastei menos de U$ 100 dólares em manuais com técnicas de treinamento, e nunca deixei de passar como mulher ao fone. Treinar a voz é algo que requer tempo e compromisso sério por uns seis meses. Pode-se também ir a um fonoaudiólogo para ter resultados bons.

Cuidar da voz é algo que você pode fazer bem antes da transição sem afetar sua voz antiga (pode-se nessa fase ter paralelamente duas vozes).

Cabelos

Os cabelos são algo que se deve pensar bem sobre. Por exemplo, se você não tem recessão capilar (“entradas”), sugiro que comece a deixar o cabelo crescer no início da transição, já que leva um bom tempo.Se possui entradas ou a famosa coroa-de-frade no vértice da cabeça (atrás), pode pensar em fazer transplante capilar com um bom médico.

No caso de sua área calva ser de média para grave, é interessante considerar lidar com esse problema com o uso de perucas ou apliques. Mas se decidir por transplante, pesquise bem e busque o melhor profissional, pois uma cirurgia malfeita (ou com um péssimo profissional), nem sempre dá vazão a consertos, já que cabelo é um recurso não-renovável.

Hormônios

Costuma-se esperar muito dos hormônios com respeito a sua capacidade de ação sobre a aparência. Muitos dos efeitos são bem aparentes, como a melhora da pele, redistribuição da gordura do corpo e suavização do aspecto da face, além de mudanças emocionais, parada da perda dos cabelos, redução dos pêlos do corpo etc. Contudo, muitas dessas transformações são graduais e sutis.
Os hormônios não são uma varinha-de-condão que transformarão sua aparência. Eles definitivamente não afinarão a sua voz ou diminuirão seus pés, pêlos faciais ou ombros largos. Além do mais, considere a estocagem de esperma caso pretenda fazer uma orquiectomia ou mesmo antes de começar a tomar hormônios, já que eles podem lhe deixar permanentemente estéreo.

Cirurgia de Feminilização Facial

Essa cirurgia pode ser cara, até bem mais que a vaginoplastia. Entretanto, ela pode fazer uma grande diferença no seu dia-a-dia, até maior do que ter uma neovagina.

A vaginoplastia não fará nada para ajudá-la a ser aceita como mulher no dia-a-dia. Se seu rosto ou sua calvície é masculina demais para fazer você passar despercebida, recomendo veementemente pensar em fazer uma Cirurgia de Feminilização da Face antes de uma vaginoplastia.
Uma face feminina fará uma grande diferença na sua qualidade de vida. Melhorará sua vida em muitos aspectos, desde andar pelas ruas sem que mexam com você, até no trabalho e em situações sociais ou íntimas. No meu caso, acredito que a feminização da face foi o investimento mais importante de toda minha transição.

Acessórios

Brincos, unhas pintadas, maquiagem e roupas não recomendo usar antes que esteja passável o suficiente para viver como mulher. Esses acessórios não farão as pessoas a aceitarem melhor. Portanto, espere até que esteja pronta para viver integralmente como mulher. As pessoas notam e você pode ser descoberta antes que esteja pronta. É algo arriscado fazer, ao menos que esteja pronta pra enfrentar as conseqüências.

Viver integralmente como mulher é em geral melhor quando se preparou o máximo possível (ou seja, tudo o que foi dito acima). Além disso, fica mais fácil para as pessoas aceitarem você se você se comprometeu de corpo e alma com a transição, fazendo-a passo a passo e não do dia para a noite.

Cirurgia de Redesignação de Sexo – CRS (vaginoplastia)

A vaginoplastia não deve ser uma prioridade até que você já viva totalmente como mulher. Embora seja interessante manter-se atualizada sobre médicos e procedimentos disponíveis antes de uma CRS, você precisará já estar vivendo totalmente como mulher (e provavelmente empregada ou bem financeiramente) para conseguir uma Carta de Encaminhamento (Referral Letter, em inglês,) para a cirurgia.

Eletrólise (ou laser) genital pode ser recomendada antes da cirurgia. Após ter decidido pelo cirurgião, é necessário verificar se ele requer que esse tipo de procedimento seja feito previamente. Em caso positivo, o ideal é iniciar um ano antes da cirurgia, se possível.

A labioplastia (construção dos pequenos lábios) pode ser necessária em uma segunda cirurgia. O procedimento é feito por alguns cirurgiões para completar a forma do órgão genital, quando são confeccionados tanto os pequenos lábios quanto o monte de Vênus, ou ainda para fazer pequenos reparos cosméticos ou funcionais na uretra e no clitóris. Alguns cirurgiões e pacientes não acham esses detalhes necessários, já outros acreditam ser fundamental.

Observação: alguns médicos – como os doutores Suporn e Kamol, na Tailândia – não requerem eletrólise (ou laser) antes da cirurgia, pois tanto a vaginoplastia como a labioplastia e a depilação genital são feitas em um procedimento único que dura entre 5 e 7 horas.

Mamoplastia

O aumento das mamas é uma opção que algumas buscam, embora não seja tido como necessário. Há muitos riscos que devem ser considerados ao decidir se é a melhor escolha para seu caso. Isso também é algo que é melhor fazer após alguns anos de transição, depois de ver o quanto os hormônios agiram em seu corpo.

__________
¹ Andréia James é uma consultora da indústria cinematográfica, atriz, ativista dos direitos humanos e empresária. Ela mesma passou por uma transição de gênero MtF.
² Os Standards of Care – SoC (“Diretrizes dos Cuidados”, em português) são as recomendações da WPATH (ex-HBIGDA), organização que rege as questões médicas de transexuais, transgêneros e intersexuais, as quais sugerem que após o diagnóstico de transexualidade – mas antes da cirurgia de redesignação de sexo – decorra-se um período de um a dois anos de exposição social (o dito “teste da vida real”).
³ No Brasil, a mudança de nome no registro civil só é permitida após a Cirurgia de Redesignação de Sexo – CRS nas mulheres transexuais (MtF) ou após histerectomia e mamoplastia, nos homens transexuais (FtM). Recentemente, contudo, Renata Finsk conseguiu a retificação de documento sem a necessidade de cirurgia.

29 Outubro, 2008

Elaborando uma escala de transição de gênero

Planejar sua escala previamente, além de guiá-la, pode facilitar na hora de traçar prioridades e evitar surpresas desagradáveis.

Uma escala de transição serve basicamente para orientar o passo a passo de uma transição de gênero, assim como equacionar o tempo a ser gasto versus os recursos disponíveis. É muito útil para quem quer manter o controle das finanças e não sair da trilha em virtude de falta de organização.

Recomenda-se fazer em forma de planilha (em Word ou Excel) e armazená-la ou em seu computador pessoal ou em uma pasta de e-mail, caso queira privacidade total.


Se tiver recursos suficientes para todos os passos, uma transição completa e muito bem-sucedida pode ser feita no prazo mínimo de dois anos após o diagnóstico da transexualidade, mas nesse caso pode-se gastar mais U$ 50 mil (em torno de R$ 100 mil) caso opte pelos melhores profissionais, inclusive cirurgiões internacionais. Deve-se ter em conta, contudo, que mais importante que a rapidez da transição é a qualidade do que se consegue nela.

O modelo abaixo foi o usado pela empresária americana Andrea James para planejar sua própria transição. Esta escala levou em conta a realidade sócio-econômica dela no período em que planejou transicionar - quase quatro anos. Como a realidade de cada um é diferente, a escala abaixo serve de parâmetro mas deve ser adaptada às condições pessoais.

Antes, segue um texto introdutório dela:

Minha escala de transição transexual

Toda minha transição demorou quase quatro anos do começo ao fim. Seria muito difícil fazer mais rápido que isso. Os aspectos emocionais da transição continuam por mitos anos mesmo depois que toda transição física está completa.

Fui capaz de seguir a escala que esquematizei quase fielmente. A chave para mim foi ficar no emprego para poder seguir todas as fases, então esperei até o último momento possível no trabalho para me revelar. Quando abri o jogo lá, tive poucos problemas em ser aceita como mulher. Como havia inteligentemente preparado tudo, também teria a possibilidade de arrumar outro emprego já como mulher, sem necessariamente ter que contar a todos sobre meu passado. Isso foi muito importante!

Recomendo muito que façam um plano similar de transição previamente, focando no que é mais importante para você. No meu caso, passei um ano depois que abri o jogo com meu namorado desejando que minha relação pudesse continuar, mas nos demos conta de que não dava mais. No tempo em que tentamos levar a relação adiante, fizemos um acordo sobre o que eu poderia fazer ou não em termos de mudanças na minha transição. Por fim, quando decidimos nos separar, comecei a trabalhar nas mudanças físicas a todo vapor.

Visto que muitas de nós tomamos decisões baseadas nas restrições financeiras, recomendo um planejamento bem sério quanto a isso.

_______Minha escala de transição_____

-Antes de 1995-
Profunda negação de minha transexualidade,
com reconhecimentos ocasionais, sempre interpretados
como errados, impossíveis, ridículos, etc.

-1995-

Janeiro
Fevereiro
Março
Abril
Instalei internet em casa e comecei a
pesquisar sobre o assunto. Aceitei minha
transexualidade e abri o jogo para o meu parceiro.

Maio
Comecei a depilação facial.

Junho
Comecei a deixar o cabelo crescer.

Julho
Fiz pesquisas detalhadas de livros, filmes,
organizações LGBTs e dos Standards of Care - SoC

Agosto
Comecei a terapia com com psicólogo.

Setembro
Outubro
Novembro
Abri o jogo para alguns amigos de
meu companheiro.

Dezembro
Comecei a ver os resultados das
sessões de depilação.

-1996-

Janeiro
Escolhi meu nome após fazer uma análise
minuciosa de qual seria a melhor escolha.

Fevereiro
Comecei a fazer os orçamentos de minha
transição (devia ter feito isso antes).

Março
Abril
Maio
Estoquei esperma para o caso de querer
ser mãe no futuro.

Junho
Comecei a abrir o jogo para família e amigos.
Aluguei um apartamento e fui morar sozinha.

Julho
Rompi com meu namorado e comecei
a terapia hormonal.

Agosto
Comecei a fazer terapia da voz (para soar
mais feminina e natural).

Setembro
Outubro
Transplante de cabelo malsucedido
(mais tarde tive que refazer).

Novembro
Última vez que fiz a barba.

Dezembro
Primeira parte da Cirurgia de feminilização
da face com o Dr. Ousterhout acertei a linha da testa,
as arestas das sobrancelhas, o pomo-de-adão, etc.

-1997-
Janeiro
Comecei a fazer um diário de tudo o que
estava se passando comigo na transição, juntar
informações para um futuro site.

Fevereiro
Março
Abril
Maio
Junho
Transplante capilar com Dr. Ousterhout.

Julho
Agosto
Setembro
Outubro
Novembro
Dezembro
Segunda parte da cirurgia
da face (mandíbula, queixo, nariz e algum
transplante capilar).

-1998-

Janeiro
Mudança jurídica do nome (acerto de
todos os outros documentos). As sessões de
depilação estão cada vez menos necessárias.

Fevereiro
Abri finalmente o jogo no trabalho e comecei a
ir pouco a pouco mais feminina. Marquei a vaginoplastia.

Março
Comecei a depilação definitiva na região genital
a pedido de meu médico. Minha terapeuta me liberou a
Carta de Encaminhamento (Referral Letter) para a cirurgia.

Abril
Maio
Junho
Vaginoplastia e colocação de
próteses na mama com o Dr. Meltzer.

Julho
Volto a trabalhar.

Agosto
Setembro
Outubro
Labioplastia com Dr. Meltzer.

Novembro
Dezembro

-1999 em diante-

Continuo me ajustando ao novo papel social
(que é a verdadeira transição).”
__________
Observação: os meses em branco significam ausência de acontecimentos na transição. O modelo original pode ser visto no link: Trans Road Map.

26 Outubro, 2008

O drama das transexuais nas prisões americanas – Parte 2

Luisa Espinoza tem estado ultimamente apreensiva. Durante uma recente entrevista através do espesso vidro da sala de visita da cadeia, ela visivelmente se intimidava toda vez que um guarda passava próximo, coisa que os guardas fazem freqüentemente. Ela fala inglês com alguma dificuldade e tem o hábito de dizer “exaaaaactly” com seu forte sotaque hispânico quando sente que está sendo bem compreendida.
Embora os presos tenham a permissão de falar uma hora com qualquer visitante, o guarda interrompeu a entrevista com Espinoza bem antes do término do tempo, alegando que recebeu instruções “lá de baixo” para encerrá-la. Todas as conversas nos fones que os presos usam para falar com visitantes são gravadas pelo Departamento de Polícia.
Espinoza deixou a Nicarágua em 1987, depois de conhecer membros de um recém-criado movimento de direitos civis LGBT nesse país e de se convencer de que seria mais feliz se fosse para os Estados Unidos. Lá ela viveu legalmente em Nova York durante dois anos, onde foi garçonete, antes de se mudar para São Francisco, na Califórnia. Mas após algum tempo, ela deixou de comunicar seu paradeiro ao Serviço de Naturalização e Imigração - SNI, bem como de trabalhar oficialmente em virtude de seu status de ilegal. Desde então, ela tem vivido irregularmente nos EUA por 12 anos, até ser presa e condenada por vender maconha.
Dessa condenação, ela cumpriu apenas 45 dias numa prisão em São Francisco. Contudo, seu crime provocou o envio de um aviso ao SNI, o qual esperava por ela quando sua pena expirasse. Foi aí que ela entrou no período sombrio de “prisão indefinida”, enquanto a agência de imigração se esforça para deportá-la para a Nicarágua.
A Espinoza disseram que o SNI usa três prisões nessa área ao norte da Califórnia para abrigar detentos que estão em casos semelhantes ao seu: Oakland, Condado de Yuba e Sacramento. Como ela estava fisicamente mal nesse período, pediu para ser enviada a Sacramento porque lhe disseram que os cuidados médicos lá eram melhores e que lhe dariam “uma cama especial”. Entretanto, segundo ela, aconteceu justamente o contrário. Espinoza, como HIV-positivo, resolveu abrir um processo federal contra a cadeia por administrarem irregularmente sua medicação.
Segregação e ameaça de deportação

Agora ela luta contra sua deportação sob as diretrizes que guiam a Convenção Internacional Contra a Tortura. Ela diz que foi presa muitas vezes na Nicarágua sob as leis anti-sodomia do país e que apanhou, foi torturada e até estuprada pela polícia em Manágua.
Na cadeia de Sacramento, ela encontrou muito da mesma intolerância – que ela descreve como a “cultura machista” que a afligiu em seu país. Também afirma que os carcereiros rotineiramente se referem a ela com o termo pejorativo de “ele-ela” e que as refeições são postas no chão fora de sua cela, no intuito de que ela pegue a bandeja “como um animal”, enquanto os presos não-transexuais são servidos normalmente em suas celas.

Na maior parte do tempo, entretanto, ela, bem como Tates, é mantida em total isolamento, presa em sua cela durante 23 horas do dia, apenas com uma hora para ir ao pátio de recreação. Espinoza é o que os guardas chamam de “T-Sep”, diminutivo em inglês para Total Separation (“separação total”), que é geralmente reservada a presos que têm problemas disciplinares. Mas no caso delas o isolamento reside apenas no fato de serem transexuais.
A elas foi dito que o "T-Sep" foi imposto para a própria segurança delas, o que é paradoxal. De um lado, os guardas estão reconhecendo que eles devem fazer algo para proteger transexuais contra o abuso de outros presos. Já por outro, isso pode ser entendido que presas transexuais estão recebendo tratamento pior por causa de sua condição. Ambas Espinoza e Tates reclamam que são incapazes de conversar entre si ou com outros presos, e que, além de estarem confinadas numa cela sozinhas durante o dia todo – no monótono e angustiante isolamento total –, elas raramente têm tempo suficiente para um banho ou fazer telefonemas.
Direitos Humanos à vista
Chris Daley, do Centro Jurídico Transgênero (Transgender Law Center, em inglês), de São Francisco, afirma que ele não tem certeza de que o regime de separação total é legalmente correto para presos transexuais. “É mesmo uma piada. É penalizar alguém simplesmente por causa de sua identidade de gênero”, desabafa.
Espinoza disse que o tratamento para transexuais na prisão de São Francisco é nitidamente diferente. Lá ela foi posta numa área com outros presos transgêneros e disse que todos tinham acesso a saídas ao pátio e às outras recreações, além de oportunidades de assistir aulas e fazer tratamento antidrogas. Elas nunca foram obrigadas a ficar de seios de fora perante outros presos não-transexuais, como já havia acontecido em outras prisões californianas por onde passou.
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“É mesmo uma piada. É penalizar

alguém simplesmente por causa de

sua identidade de gênero.”

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A superintendente Jan Dempsey, que cuida de todas as prisões do Condado de São Francisco, disse que em virtude do perigo de estupro, uma transexual jamais seria posta junto com presos comuns. Contudo, ainda há falhas no sistema penitenciário de São Francisco, ela admite. “Podemos fazer mais, claro, mas pelo menos tratamos as pessoas com respeito”, completa.
São Francisco tem certamente mais experiência com presos transexuais, onde há atualmente mais de 20 casos assim em suas dependências. Lá, elas têm também o benefício de contatos regulares com organizações de apoio, como a Comissão Municipal de Direitos Humanos e o Centro Jurídico Trans. A superintendente Dempsey disse que ela não recebeu nenhuma queixa de estupro de transexuais por outros presos. Infelizmente, o Departamento Policial do Condado de São Francisco passou um período agitado quando houve a denúncia de que um carcereiro estuprou uma transexual. O carcereiro foi posteriormente demitido.
Um dos advogados de Espinoza, Dani Williams [foto logo acima], que é ela mesma uma transexual MtF pré-operada, disse que a política de acolhida de transexuais da cadeia de Sacramento está de pernas para o ar. “Quando eu olho para elas, vejo uma mulher. Usar um pênis como referência para a sexualidade de alguém é absolutamente ridículo.”, disse Williams.
Ela acha que transexuais femininos (MtF) deveriam ser postos do lado feminino da cadeia, com as presas. Quando perguntada se as presas iriam reclamar de tal mudança, Williams diz que provavelmente sim, mas que essa política iria ser muito mais adequada às transexuais em termos de segurança.
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“Quando eu olho para elas, vejo uma
mulher. Usar um pênis como referência
para a sexualidade de alguém é
absolutamente ridículo.”
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“Se vamos ser incoerentes pondo-as do lado feminino, que sejamos. É melhor sermos incoerentes e protegê-las que seguirmos os manuais à risca e as pormos em perigo do lado masculino”, conclui.
Advogados dos direitos dos transexuais e de presos em geral dizem que muitas instituições de correção têm problemas em proteger presas transexuais, gays ou heterossexuais de serem abusados sexualmente. De acordo com a organização Stop Prison Rape (“Parem os Estupros na Prisão”, em português), em torno de 25 por cento de todos os homens em custódia prisional são sexualmente molestados. Chris Daley, promotor do Transgender Law Center disse que as estatísticas sobre abuso sexual e maus-tratos das presas transexuais são quase inexistentes, mas que recebeu dezenas de tais queixas somente no ano passado.

Como Espinoza, Tates também cumpriu pena na cadeia do Condado de São Francisco antes de vir para Sacramento, e também achou a situação bem diferente lá. Tates já está na cadeia de Sacramento há mais de dois anos, enquanto espera julgamento por supostamente ter ameaçado o ex-governador da Califórnia, Gray Davis, enquanto esteve em custódia em São Francisco.

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“Em torno de 25% de todosos homens

em custódia prisional são sexualmente molestados.”

Organização Stop Prison Rape

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Tates disse que foi presa no passado sob acusação de prostituição e por porte de mercadorias roubadas. Ela afirma não ser culpada por ameaçar o governador de morte em uma carta que aparentemente passou pelos guardas da prisão de São Francisco, mesmo levando em consideração que ela estava temporariamente insana. Seu advogado, Frances Huey, recusou-se a ser entrevistado sobre o caso.

“Já terminou?”

Tates é, de longe, a mais feminina das transexuais que prestaram queixa contra a cadeia. Ela tem olhos grandes e brilhantes e um rosto arredondado, com linhas suaves, além de um penteado de trancinhas. Em uma conversa normal ela ri bastante, como se fosse algo de sua própria personalidade. Quando se fala com ela se tem a impressão de também não poder controlar os risos.

Ela começou a ter problemas com os guardas da cadeia do Condado de Sacramento por causa de um pedaço de elástico com o qual ela costumava amarrar os cabelos em rabo-de-cavalo, embora nunca tivesse tido problemas com isso enquanto esteve na cadeia São Francisco. Tates acredita que os maus-tratos começaram quando ela irritadamente jogou o pedaço de elástico no chão quando o segurança a mandou tirá-lo. Esse pequeno ato de protesto a levou ao sétimo andar da cadeia, ala reservada a “presos problemáticos”.

Foi lá, enquanto estava em sua cela lendo durante uma tarde que ela escutou a porta da cela se abrir – as portas das celas são controladas remotamente pelos guardas das cabines de controle, longe das celas. Para que a porta se abra, ela teria que ser aberta por um guarda. Tates então afirma que por ela entrou outro preso muito maior e mais corpulento que ela. Trazia em sua mão um envelope grosso, ela afirma. Ele bateu a porta, tirou um punhado de fotos do envelope e disse: “Isso é o que costumo fazer com gente que ‘suja’ comigo.” Tates narra que as fotos mostravam um corpo morto no que parecia ser uma mesa de necropsia de um necrotério.

“Foi horrível”, lembra. “O corpo estava todo cortado e mutilado.” O intruso também tirou do envelope o que Tates descreve como um “tubo com algum tipo de graxa.” Ela diz que o preso então a forçou a fazer sexo oral nele e a sodomizou. Ela acha que o estupro durou entre 30 e 40 minutos, tempo no qual ela escutou uma voz no interfone de sua cela. Ela disse que era a voz de um carcereiro perguntando: “Já terminou?” Nesse momento a porta se abriu e o preso saiu.

Novamente, os guardas não quiseram comentar sobre a queixa, além de dizer que ela estava sob investigação interna. Os guardas deram uma entrevista a um meio de comunicação afirmando que eles tinham certeza de que a queixa de Tates afirmando que os carcereiros facilitaram o ataque se mostraria posteriormente incongruente.

Tates está convencida de que o estupro foi um complô, e sua queixa narra que os carcereiros permitiram o outro preso entrar em sua cela intencionalmente para possibilitar que o estupro fosse consumado. “Não tenho dúvidas. Eles o deixaram entrar aqui para fazer o que ele queria.” Mas Dean Johansson, advogado que toma conta dos casos das três transexuais, admite que existe pouca evidência direta de que Tates foi violada, além do que ela mesma alegou. Ele acredita que outras evidências se mostrarão no desenrolar do processo. O júri também deve duvidar das razões pelas quais Tates esperou tanto tempo – mais de dois anos – para fazer queixa.

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“Não tenho dúvidas. Eles o

deixaram entrar aqui para

fazer o que ele queria.”

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Tates disse que ela nunca relatou o ataque porque se o fizesse seria como relatar às próprias pessoas que ela acredita ter permitido que tudo ocorresse. Gradualmente, pessoas em quem ela confidenciava a convenceram a contar a história. Ela concordou porque não queria que seu agressor ou a cadeia saíssem ilesos do que aconteceu com ela. “No início, tive medo. Tentei apagar de minha mente porque não queria pensar sobre isso”, ela relembra. “Comecei a me culpar, achando que se eu não fosse transexual nada teria acontecido comigo.”

Não importa o resultado dos casos de Tates, Espinoza ou McAllister, esses provavelmente não serão os últimos casos desse tipo a acontecer na cadeia de Sacramento. “Acredito que ocorrerão muitos outros”, admitiu Johansson. Desde que começou a cuidar desses três casos ele tem ouvido histórias preocupantes de outras transexuais presas. Por isso mesmo, ele crê que os seguranças dessa prisão rotineiramente colocam presas transexuais em perigo por negar a necessidade delas por abrigo especial. Esse promotor prepara para formalizar uma nova queixa em nome de outra presa transexual, a qual afirma que os guardas permitiram que ela fosse sexualmente abusada.

“Estou boquiaberto com o número de casos de transfobia com que tenho lidado recentemente. E isso é somente a ponta do iceberg”, encerra o promotor.

__________
Tradução: blogueira
Fonte: Sacramento News & Review

21 Outubro, 2008

O drama das transexuais nas prisões americanas – Parte 1

Circulando seminuas, sendo estupradas e mantidas no isolamento. A vida de transexuais em algumas prisões americanas é basicamente um inferno.

Uma vez por semana os detentos que dividiam a cela com Luisa Espinoza [foto logo abaixo] a submetiam ao ridículo: ela era forçada a andar com os seios de fora diante de homens que a ridicularizavam e diziam piadas e palavrões enquanto olhavam para seus seios. Também era chamada de “bicha” e assediada sexualmente. “Era terrível. Os presos, bem como os carcereiros, ficavam zombando de mim, rindo e fazendo piadas homofóbicas”, ela afirma. Era o tipo de humilhação que ela esperaria ter em sua terra natal, a Nicarágua. Mas nesse caso não era a Nicarágua, ela estava presa no Condado de Sacramento, na Califórnia, e pior: do lado masculino da prisão.

Espinoza é uma transexual. Ela nasceu homem – anatomicamente falando – mas desde criança se identificava como menina. Ela se veste e fala femininamente e tem cabelos de mulher, longos e oxigenados, embora muitos centímetros de seu cabelo castanho natural tenham crescido durante o tempo em que passou na prisão, desde que foi posta lá enquanto o Serviço de Imigração e Naturalização se esforça para deportá-la. E, como se percebe, Espinoza prefere que se refiram a ela no feminino.

Transição difícil na terra natal e fuga para os EUA
Dois anos atrás ela começou sua transição de gênero. A transição envolve muito mais do que a Cirurgia de Redesignação de Sexo – CRS (comumente conhecida como “mudança de sexo”), na qual o pênis cede lugar a uma vagina. Espinoza é uma transexual pré-operada e ainda está a anos de sua cirurgia. No entanto, ela assumiu nome e maneira de se vestir femininos.

Todo transexual MtF (Male to Female, que em inglês significa “de homem para mulher”), ou vice-versa, que pretende fazer uma transição de gênero, necessita se submeter a pelo menos dois anos de psicoterapia para ter certeza de que realmente quer ir além na transição. Espinoza também vem tomando hormônios femininos, o que têm ajudado seu corpo a se transformar no de uma mulher de sua idade. Embora tenha quase 40 anos, sua barba e bigode já são tão ralos como os de um adolescente de 16 anos e com o tempo desaparecerão. Espinoza também desenvolveu fartos seios.

Ela deixou a Nicarágua por causa das violações aos Direitos Humanos e em busca de asilo nos Estados Unidos. “Na Nicarágua é ilegal ser gay ou transexual. Lá em meu país eles nos matam”, assegura.

De acordo com denúncias formais feitas ao Conselho de Supervisores do Condado de Sacramento por Espinoza e outros transexuais presos, a Prisão de Sacramento também viola os direitos dessa minoria. As queixas são embriões de futuros processos legais e demonstram várias instâncias de segregação contra Espinoza e as demais transexuais, bem como discriminação verbal e assédio sexual constante. Postas juntas, essas reclamações mostram que os transexuais são punidos de forma cruel e pouco comum na principal cadeia do Condado de Sacramento.

Humilhação constante no cotidiano da prisão

Um exemplo disso é a humilhação na hora da troca de uniforme, quando os presos do lado masculino da cadeia são obrigados a deixar as celas vestindo nada mais do que uma toalha, a fim de trocar os macacões por outros limpos. Espinoza e outra transexual de nome Jackie Tates protestaram junto aos carcereiros porque a elas foram negados sutiãs. A cadeia distribui esses acessórios às presas do lado feminino, mas a Espinoza e Tates esses direitos foram negados porque ambas ainda têm pênis, apesar de suas aparências serem totalmente femininas. Tates disse que um guarda simplesmente argumentou: “Você é um homem, não há razão para usar sutiã.” Ela afirma que ouviu isso mesmo já tendo feito uma petição médica a uma das enfermeiras para que sutiãs lhe fossem fornecidos.

Desse modo, para Espinoza e Tates, a hora de trocar o uniforme significa ficar expostas a pilhérias e insultos dos outros presos. Tates revela: “Eles sempre gritam coisas do tipo: ‘Ei, vaca!’ ou ‘Olha esse cara, ele tem tetas!’” Ambas dizem que até os carcereiros de vez em quando também se juntam à farra.

O sofrimento da troca dos uniformes fez efeito em Tates. “Comecei a ter pensamentos suicidas. Comecei a odiar o fato de ser transsexual.” A queixa formalizada por Tates demonstra que embora ela tivesse feito numerosos relatos sobre assédio sexual e outros maus-tratos, ela continuou sendo ignorada pelos guardas da prisão.

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“Eles sempre gritam coisas do tipo:

‘Ei, sua vaca!’ ou ‘Olha esse cara,

ele tem tetas!’”

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Espinoza e Tates disseram que a cadeia recentemente mudou sua política e começou a distribuir sutiãs a elas na maior parte das vezes, assim como parou de obrigá-las a sair das celas com seios à mostra. Ambas acreditam que isso é fruto da pressão de seus advogados e em virtude da recente atenção gerada por casos mais sérios de maus-tratos de transexuais na cadeia – tratamentos que vão bem além de insultos e gritos.

Estupro com conivência dos guardas

Uma ex-presa transexual, de nome Kelly McAllister, alega que guardas negligentes a puseram em uma cela com outro preso que a violentou. Tal incidente ocorreu, segundo ela, apesar do que ela acredita ser a política da cadeia em manter presas transexuais separadas da população geral. Do mesmo modo, Tates afirma que dois anos atrás alguns guardas facilitaram o estupro dela por outro preso.
Em setembro de 2002, McAllister estava cumprindo pena no Centro Correcional de Rio Cosumnes, no Condado de Sacramento, após ser acusada de agredir um vizinho numa discussão. No dia 6 desse mesmo mês, ela foi levada à cadeia principal para ir posteriormente à corte por ter resistido à prisão em outro caso. De acordo com a queixa feita contra o condado, a corte não deliberou sobre seu caso nesse dia, o que tornou aparente que McAllister iria ter que passar a noite na prisão principal, por ser mais próxima à corte, e seria transportada para o Centro Correcional no outro dia.
McAllister, que mede apenas 1,70 de altura e pesa em torno de 60 kg, é magra e delicada. Como está no princípio de sua transição, sua barba ainda não foi totalmente eliminada e a aparência de barba por fazer é nítida. O pomo-de-adão ainda é proeminente e as mãos são masculinas. Mesmo assim, não dá para deixar de notar que ela é transexual, já que tem algum seio e quando chegou à cadeia ela usava tranças e trajes femininos. Por isso, durante o tempo em que ficou no Centro Correcional ela foi posta em custódia em virtude de seu status de transexual.
A maioria das prisões e cadeias da Califórnia e por todos os Estados Unidos classificam transexuais pré-operados de acordo com seus genitais. Em virtude de sua feminilidade, aquelas que se identificam como mulher são vistas como sendo particularmente vulneráveis a abusos sexuais, então muitas instituições têm abrigo especial para elas. Por isso, em algumas cadeias há unidades especiais onde transexuais são postas à parte.

No Sistema Penitenciário Californiano quase todas as transexuais são abrigadas no Centro Californiano Médico, em Vacaville, pois seu status requer cuidados médicos (hormônios, exames médicos freqüentes etc.). O porta-voz do referido sistema, Russ Heimrich, disse que poucos problemas ocorrem em Vacaville, já que a maioria dos presos não é tão “casca grossa” como nas prisões de segurança máxima.
Quando a mãe e o companheiro de McAllister se deram conta de que ela estava sendo negligenciada na principal prisão de Sacramento, eles fizeram uma série de ligações desesperadas e tentaram pô-la em custódia do estado, visto que ela estava no Centro Correcional de Rio Cosumnes. Em vez disso, McAllister afirmou que os carcereiros a puseram em celas com presos maiores e mais fortes que ela, apesar de seus protestos e de ter deixado claro que ela temia por sua segurança ao ser posta na população geral.

No começo, as coisas pareciam bem com o outro preso da cela, e não havia indício de problemas. Ambos jantaram juntos e conversaram. “Ele parecia gente boa. Nem imaginei que faria o que fez”, completa. Após o jantar, os guardas levaram McAllister para fazer uma ligação para seu companheiro, com quem então teve uma discussão. Ela voltou à cela preocupada com o desentendimento que havia tido. Poucos minutos depois, sentiu que o outro preso começou a afagar seus ombros e cabelos, como que tentando comfortá-la. “De repente, ele me deu um soco”, McAllister relembra com uma voz emotiva. Ela disse que seu primeiro pensamento foi apertar o botão de alarme que fica na cela e chamar os carcereiros. Mas, segundo seu relato, o outro preso com quem dividia a cela, começou a apertar sua garganta e a dizer que se ela apertasse o botão ou fizesse escândalo ele a mataria.

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“Ele parecia gente boa.

Nem imaginei que faria o que fez.”

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“Eu tentei arranhá-lo. Tentei me desvencilhar dele. Entretanto, ele me dominou por causa da maneira violenta como agarrou meu pescoço.” A queixa feita formalmente narra que ela foi selvagemente estuprada, repetidamente golpeada, teve o pescoço estrangulado, apanhou e foi sodomizada. Após isso, ela tinha ferimentos no pescoço e bochecha, além de no mamilo esquerdo, onde o estuprador havia mordido. Ela rastejou até o seu leito, que não ficava a mais de um metro de onde havia sido atacada no espaço espremido da cela, e fingiu estar dormindo.

A vítima vira algoz

McAllister alega em sua queixa que após ter relatado o ataque, os carcereiros a acusaram de arquitetar tudo. Mas após outra série de telefonemas de sua família e amigos à administração da cadeia, ela finalmente foi levada ao Centro Médico UC Davis para exames. Seus advogados alegam que o exame de corpo de delito mostra de fato evidências de estupro, como ela relatou, incluindo fotos de seus ferimentos tiradas pelos carcereiros depois do exame no UCD. Mas o departamento de polícia recusou-se a entregar os laudos a McAllister ou a seus advogados e argumentou que a informação é privilegiada porque agora uma queixa foi feita e uma ação está pendente.

O porta-voz do Departamento de Polícia, sargento Lou Fatur, disse que o alegado estupro estava sendo investigado internamente e criminalmente e que logo mais o processo poderia ser enviado ao advogado do distrito de Sacramento para possível acatação.

Fatur insistiu que quaisquer perguntas da mídia fossem feitas por escrito. Além disso, ele afirmou que muitas perguntas ficariam sem respostas em virtude de processos judiciais pendentes. Mesmo assim, muitas questões sobre as queixas legais, além da política geral em relação às dificuldades em abrigar presos transexuais, foram feitas pela mídia. Fatur também foi questionado por que as alegações de abuso – relativas ao tratamento dos presos pelo departamento de polícia e alegações de conduta criminosa dentro da cadeia – estavam sendo investigadas internamente, sem que uma organização externa pudesse ter acesso.

Os oficiais do Departamento de Polícia recusaram-se a responder às questões escritas. A única explicação de Fatur via telefone, antes que desligasse bruscamente, foi que os policiais do departamento estavam descontentes com a cobertura da mídia do que ocorre dentro das cadeias. Posteriores ligações a Fatur e ao delegado Lou Blanas não tiveram retorno.

-Em breve, Parte 2 desta matéria.

25 Setembro, 2008

Entendendo a transfilia

Transfilia é o desejo, a valorização e a atração pela condição, os valores e o comportamento transexual e transgênero. Basicamente, manifesta-se como uma simpatia e uma vontade de adquirir ou manter amizade, relacionamento ou proximidade com pessoas trans.

A palavra provém da junção dos termos transexual (através dos sexos) + philos, afixo grego que significa amar, gostar. O termo oposto à transfilia é a transfobia.

A transfilia se manifesta de muitas maneiras, independentemente da orientação sexual da pessoa (heterossexual, homossexual, bissexual, assexual etc.). Uma parte dos transfílicos é formada por transexuais e transgêneros latentes, que de algum modo tencionam pertencer ao grupo, usar os códigos, as maneiras e viver como, mas não tiveram oportunidade ou possibilidade, seja por fatores externos (pressões da família e da sociedade), ou internos (pressão fomentada dentro de si mesmo). Outra parte é formada por pessoas que de alguma forma têm relação profissional, de amizade ou parentesco com o transgênero e/ou transexual e entende a sua condição.

Há ainda os homens que preferem relacionar-se com transexuais ou transgêneros, mesmo sendo bi ou heterossexuais e agindo como tal dentro relacionamento. Nesse caso, a transfilia está relacionada ao fetiche de se relacionar com uma figura feminina que possui um pênis (travestis), ou uma mulher que já foi homem anatomicamente (transexuais MtF operadas e hormonizadas), ou ainda - no caso das mulheres heterossexuais - relacionar-se com um homem que já foi anatomicamente uma mulher (transexuais FtM mastectomizados e hormonizados).

Foto: atriz transexual Candis Cayne e ator William Baldwin durante concorrência para o Emmy pelo seriado Dirty Sexy Money .

11 Setembro, 2008

A Fábula das Princesas

Il était une fois...

Num dado momento da história, havia duas belas princesas que habitavam reinos bem distantes: Pré-opée, que reinava nas altas e frias montanhas das Terras do Norte, e Pós-opée, suprema nas quentes e baixas Terras do Sul.

Ambas eram aparentemente belas, inteligentes, refinadas e muito bem educadas, como se espera de uma verdadeira princesa. Contudo, elas não tinham conhecimento da existência uma da outra, apenas dos reinos em que habitavam.

Um dia, a princesa Pré-opée resolveu explorar os arquivos reais para ver se havia possibilidades de contatar outros principados mais ao sul, com os quais pudesse ter afinidades e interesses mercantis em comum (até então tal princesa só tinha contatado os ditos “Reinos do Norte”, onde as princesas tinham em geral interesses mais “ortodoxos” e “monárquicos” que as do Sul).

Foi nessa exploração que ela se deu conta da existência de uma princesa de nome Pós-opée, uma virtuosa donzela que aparentemente tinha algo diferente da maioria das princesas dos Reinos do Sul: demonstrava ser mais refinada e bem-criada.

Pré-opée então pensou em contatá-la, tendo em vista as aparentes afinidades de ambas e enormes coincidências no rumo das histórias dos dois reinos. Começou então a enviar mensagens ao Reino do Sul, de Pós-opée, mensagens corteses e com conteúdo que aparentemente também interessaria àquela vestal monarca.

Para a surpresa da princesa Pré-opée, Pós-opée era sempre muito lacônica nas mensagens e aparentemente não muito afeita a novos contatos, mesmo sabendo que estes poderiam em muitos aspectos eventualmente se mostrar valorosos diplomaticamente ao seu reino.

Supondo que o aparente desinteresse da princesa Pós-opée eram as muitas atividades ligadas à administração de seu reino, Pré-opée resolveu enviar-lhe três cartas. Entretanto, mesmo detentora de uma primorosa educação e bons modos, Pós-opée nunca se deu ao menor trabalho de ao menos respondê-la, para o espanto e a admiração da princesa Pré-opée, que via nesses contatos uma frutífera oportunidade de estreitar laços de vidas supostamente muito semelhantes (como disse, ambas eram belas, tinham a mesma faixa etária, eram muito bem versadas nos mais diversos assuntos e – o mais importante – tinham trajetórias de vida semelhantes).

Um dia, um nobre cavaleiro viajante apareceu no reino da princesa Pós-opée e sugeriu-lhe uma visita formal a seu reino, pois ele estava convidando jovens princesas a participar de uma audiência real beneficente, cujo objetivo-mor era mudar a imagem negativa de um grupo minoritário desfavorecido do Reino do Sul, onde vivia e reinava Pós-opée. Sem titubear, ela logo aceitou participar do evento, que beneficiaria seu reino e conseqüentemente reinos vizinhos.

Dias depois, animada e feliz com o resultado da audiência real, a princesa anuncia por carta a todos os reinos que o evento havia sido muito proveitoso e cita o nome do gentil cavaleiro que a havia convidado. Pré-opée, feliz com o que tinha se passado, parabenizou a recém-conhecida princesa e pensou: “Por que não contatar também o cavaleiro para que possamos contar-lhe que há outras princesas e rainhas em outros reinos que podem também se beneficiar com a participação na audiência beneficente promovida por seu reino?”

Com isso em mente, Pré-opée resolveu mandar um emissário a contatá-lo (e nem cogitou enviar carta à princesa Pós-opée comunicando-a, afinal ela nunca se deu ao trabalho de respondê-la mesmo, e não seria agora...). Dias se seguiram e mensagens foram trocadas com o nobre cavaleiro, o que logo caiu nos ouvidos da princesa Pós-opée.

Irremediavelmente furiosa e enciumada ao saber disso, ela de modo tirano e impiedoso – e nada diplomático – cortou radicalmente os contatos com Pré-opée e o seu reino, fechando todas as fronteiras entre os reinos permanentemente e colocando sua guarda real para impedir qualquer tentativa de contato.


E assim termina tristemente a fábula das princesas dos Reinos do Norte e do Sul, que tinha tudo para ser um conto feliz, mas esbarrou na imaturidade e irreflexão de uma jovem princesa.

Minhas considerações sobre a fábula

Será que a princesa Pós-opée é egoísta o suficiente para querer se destacar mais que as outras princesas de todos os outros reinos na audiência real do cavaleiro?

Será que ela tem trauma e evita contatos com outras princesas como ela, ou se sente diferente, digo, melhor e portanto “au-dessus” e “au-délà” das outras? Prefiro acreditar que não.

Não será muita presunção da princesa Pós-opée se achar “la crème de la crème” (se é o caso), visto que há várias outras princesas nos ditos Reinos do Norte e do Sul com experiências diversas às suas, em termos de viagens e estudos, além de versamento em línguas, et cetera e tal?

Aonde Pós-opée chegará agindo assim, achando que o “IDH” de seu reino é maior que o de todos os outros?

Pós-opée é muito versada mas comete erros também em vários de seus decretos imperiais, como quaisquer outros seres humanos (como “salve a” com crase, entre outros). Moral da história: Pós-opée, embora versada, tem que descer do trono, pôr os pés no chão e se dar conta de que seu reino é de fato bastante bom, mas NÃO é tão perfeito (como ela crê)!

Por fim, de que servirá a dura e supostamente enriquecedora jornada de Pós-opée até o trono aonde chegou se ela ficar amarga e cruel para si e os outros? Pré-opée definitivamente não quer isso para si e aprende com o exemplo nada nobre da jovem soberana.

Suponho, assim, que Pré-opée tenha portanto ficado meio traumatizada e provavelmente reticente em fazer novos contatos com outras princesas supostamente versadas dos Reinos do Sul, decidindo assim concentrar seus contatos basicamente nos frios Reinos do Norte, onde há muitas princesas de falas estranhas que pensam e – o melhor! – agem como Pré-opée. Portanto, de que serve tanta suposta educação formal de Pós-opée se ela sequer a usa para ser polida em seus contatos com outras princesas?

Chego assim à conclusão de que talvez ela seja mais uma plebéia disfarçada de princesa, o que é um enorme banho de água fria em minhas expectativas com respeito à finesse no comportamento da realeza (das princesas) dos Reinos do Sul. Isso é uma pena, porque deixa transparecer que não mudou muita coisa por lá desde a última visita de Pré-opée.

Conclusões finais

Fábulas são fábulas e cada um tem mesmo uma interpretação pessoal delas. Eu particularmente acho que a princesa Pós-opée não seja má, acho que ela é apenas – e ainda – bastante imatura, já que em vez de resolver as diferenças de seu reino formal e inteligentemente, com negociações, como qualquer outro bom chefe de estado faria, prefere declarar uma guerra à revelia e isolá-lo, fechando as fronteiras. Enfim, eu na pele de Pré-opée sentiria grande decepção... para dizer o mínimo.

Rivarol não tinha razão

Encerro a fábula das princesas com a menção à língua francesa do discurso de Antoine de Rivarol:
« Aristippe, ayant fait naufrage,
aborda dans une île inconnue, et, voyant des figures de géométrie tracées sur le rivage, il s’écria que les dieux ne l’avaient pas conduit chez des barbares: quand on arrive chez un peuple et qu’on y trouve la langue française, on peut se croire chez un peuple poli. »

Será?? No reino da princesa
Pós-opée o francês era também uma língua co-oficial, mas pela história não me pareceu nada polido. Rivarol que me desculpe!

09 Setembro, 2008

Vivendo uma fase «Applegate»

Decidi: quero ficar igual à Christina Applegate [foto]. Será que estou pedindo muito ou estou mesmo é ficando louca??

Todos nós, meninas e meninos trans, num momento ou noutro de nossa busca pelo ideal imagético durante a transição de gênero, buscamos pessoas em quem nos espelhamos como modelo físico e/ou comportamental, como fazem por exemplo os adolescentes (afinal, também passamos por uma outra puberdade com a re-hormonização do corpo). São os ditos role models. Eu mesma tenho vários, mas atualmente estou mais numa fase, digamos, “Applegate”.

Tudo começou num dia em que estava assistindo a um documentário maravilhoso do canal a cabo Home & Health, denominado Sex Change. Foi nesse programa que observei a transição tardia que talvez seja a mais perfeita que já vi – e essa transexual, Elizabeth Mims, tinha trinta e “algos” anos ao transicionar e havia ficado linda e feminina, como a atriz.

Eu já tive vários modelos de inspiração, todos factíveis do ponto de vista de (minha própria) transição. Digo, eu nunca fui um Arnold Schwarzenegger enquanto “menino”, sempre estive num limiar entre o masculino e o feminino – poucos pêlos, estatura mediana, rosto e voz neutros, cabeleira farta, leveza de movimentos etc. Mas, claro, para chegar ao ideal, pretendo fazer – se um dia eu estiver podendo – uma visitinha ao Dr. Douglas Ousterhout (ou Dr. O., como é carinhosamente apelidado pela clientela trans norte-americana, por quem é considerado um Midas da cirurgia facial Male to Female – MtF).

O mesmo tipo de cirurgia também é feito por vários outros médicos mundo afora, mas os melhores resultados que vi foram mesmo os do Dr. Ousterhout e do Dr. Suporn, na Tailândia, este a preços mais módicos que os do colega americano.

Espelho, espelho meu: existe um nariz...

Pois é melhor esperar e ir a um médico conceituado e de quem temos referência – e sentimos segurança – do que simplesmente ir ao primeiro açougueiro de plantão por causa do “bom” preço. Até porque para reparar o estrago pode-se pagar “n” vezes mais do que ir logo a um bom cirurgião, fazendo o barato sair bem caro e doloroso física e mentalmente.

Dia desses um amigo disparou: “Você já notou que o médico Xis é famoso por fazer ‘narizes de bonecas’. São raros os casos de narizes naturais. Até em mulheres genéticas ele faz narizes do tipo ‘trava’, você já percebeu?” [Boa parte da clientela dele é formada por travestis e transexuais.] Depois do comentário meio peçonhento dele (risos), comecei a observar e notei que muitos narizes ficam mesmo muito, muito pequenos e sem naturalidade. Alguns cirurgiões não adaptam o nariz ao rosto, fazem um nariz “tamanho único” para todas, excessivamente cavado (uma sela), além de pontudo e mínimo no tamanho. Resultado: um acinte à simetria, para dizer o mínimo.

Nesses casos, duvido muito que o nariz original seja pior do que os “feitos”. Pois é, imaginem um nariz de Barbie num rosto com feições fortes e muitas vezes ainda bem masculino (“de Barbie” não, isso é até apreciativo, eu diria mesmo de Michael Jackson, cujo rosto já tem sido até comparado ao de Zaira, de “O Planeta dos Macacos”).

Portanto, meninas, abrolhos!

A culpa é sempre “deles”

Por falar em Jackson, mas agora noutra, uma das transformações mais incríveis em termos plásticos foi a da americana Cindy Jackson, que ganhou espaço no “Guinness” por ter sido a mulher que mais cirurgias plásticas fez no planeta, transformando-se até em personal adviser no assunto. Pára tudo! Abrirei um post sobre a saga dela mais à frente (já que a história dela tem uma correlação com a transexualidade – e além do mais ela é transsexual-friendly).

Um dos resultados mais naturais que já vi em cirurgia plástica foi o da cantora americana Ashley Simpson [foto acima]. Ao recorrer à cirurgia ela não fez um novo nariz, apenas remodelou o que tinha, redimensionando-o. Resultado: um nariz bonito, natural e harmonioso, que não criou “uma outra pessoa”, mas aprimorou a que já existia. Christina Aguilera e Jennifer Aniston também foram outras duas que fizeram retoques nasais que ninguém perceberia não fosse a mídia xereta. Entre as brasileiras, Maria Maya, Xuxa Meneghel e Adriana Bombom também foram felizes no resultado, já que harmonizaram os traços sem perder a naturalidade e a originalidade – e no caso da Bombom, sem perder as características de sua beleza afro-brasileira.

Teria muito, muito medo de cair em uma mão errada e transformar – para pior e muitas vezes para sempre – o meu corpo. Enfim, juntando ditados populares: a casa cai... e depois é só chorar em cima do leite derramado, porque a pressa é mesmo inimiga da perfeição!

E antes que eu esqueça...

Muita gente famosa que já passou por uma rinoplastia diz que queria “apenas remover um calo ósseo”, “corrigir o sépto” ou que “tinha dificuldades de respirar” e aproveitou e deu um retoque. Ora, minha gente, calo ósseo uma ova! Até acredito que isso também possa ser um dos motivos, mas não em todos os casos. Pelo menos a Barbra Streisand [foto] nunca teve problema com o “calo ósseo” dela.

A propósito, por que será que há tanto tabu em reconhecer uma operação plástica. O que há de mal nisso?

04 Setembro, 2008

Às meninas mais «avantajadas»

Não, não me refiro ao avantajamento “daquilo” (das pré-operadas). Decidi postar hoje sobre as mulheres transexuais grandalhonas mesmo, e foi por acaso que essa idéia me veio à mente. De fato, ontem fui com uma amiga à casa de uma conhecida dela, uma mulher imensa e mesmo assim feminina e graciosa. Ao vê-la, me lembrei de um termo em inglês muito usado para denominar mulheres altas e geralmente corpulentas: amazonian woman.

Pois é, ela era por excelência uma mulher “amazona” (em associação às guerreiras mencionadas na lenda grega), tinha quase 1m90. Mas observando-a calada, percebi que ela tinha como fator coadjuvante da graciosidade um peso corporal bem compatível com a estatura, além de uma leveza no movimento, o que lhe conferia um ar elegante e encantador. Era algo natural, que emanava da feminilidade dela mesmo.

Há muitas meninas transexuais que encucam porque têm mais de 1m80, achando que isso é um indicativo de masculinidade. Nem sempre! Essa mulher inglesa era tão-somente uma dona de casa comum, não era saltadora, top model nem jogadora de nenhum time de basquete, embora tivesse credencias físicas suficientes para um reinado em qualquer dessas atividades. Moral da história: pode-se ser feminina e elegante mesmo numa estatura fora do padrão comum, assim como desajeitada e grosseirona com 1m50. Tudo depende da maneira como nos portamos, articulamos o corpo, de nossa noção de espaço, da sutileza dos modos, entre outras coisas.

Há cursos que ensinam a ter essa “graça natural” a transexuais que transicionaram mais tarde e estão já muito impregnadas dos maneirismos masculinos. Claro que o excesso de maneirismos, de presunção, depõe contra, denuncia, entrega. Uma pessoa muito afetada, artificial, que tem uma feminilidade exacerbada, que vive fazendo caras e bocas, acaba virando uma caricatura jocosa do feminino, uma pessoa antinatural. Ok, isso talvez seja um mecanismo de compensação que algumas de nós usam para contrapor a masculinidade apreendida em anos como “homem”.

Grandalhonas famosas

O showbiz tá cheio de mulheres titânicas e superfemininas. Uma Thurman, com seu 1m85 e sapatos 42, não passaria despercebida nem como faxineira. Sigourney Weaver (de Alien) também é outra gigante, junto com a femme fatale Rebecca Romijn. Adriana Karembeu – modelo tcheco-francesa ainda no trono como dona das maiores pernas do mundo – mede 1m85 e a despeito disso é uma mulher do tipo “bonequinha do Louvre”. No Brasil temos Ana Hickman e Cláudia Raia, com 1m85 e 1m80, respectivamente, entre vários outros “mulherões”.

Mas, voltando aos maneirismos, vocês já pararam para ver quantas das mulheres com quem estudamos, trabalhamos, convivemos, vivem fazendo poses à Marilyn Moroe 24 horas por dia? Nenhuma!

A mulher comum não vive fazendo biquinho, poses fatais ou olhares fulminantes. Claro, elas vão a salão de beleza, usam batom, salto, vestidos cavados, são sensuais... mas continuam agindo como mulheres comuns (que não precisam provar nada a ninguém). Portanto, acho bobagem essa de encucarmos com altura, com isso ou aquilo, pois a naturalidade do agir mais, óbvio, traços pelo menos “passáveis” são os fatores-chave que nos integram no cotidiano e nos misturam à massa.

03 Setembro, 2008

Ninguém é uma ilha, mas...

Há uma máxima que diz: “Ninguém é uma ilha!”. Bem, não sou mas estou!

Estou ilhada em pleno coração da dita “Europa Civilizada”. Pára gente, vai! Parece mentira que isso possa ocorrer em pleno século 21 aqui. Ok, vou explicar!

Bem, vim ajudar uns amigos a fazer a mudança deles para uma bucólica área semi-rural, e como não temos telefone ainda (e a “viajante experiente” aqui esqueceu de comprar um cartão wireless básico, pra variar), estou sem internet já há alguns dias e assim vou continuar por mais uns dez. Socoooorro!

Meu Deus, não imaginava que internet fosse tão, tão importante pra mim. Internet virou mais que um marido ou confidente, já é um apêndice de meu corpo, entro em estado de graça com ela e em síncope nervosa sem – é meu Prosac (risos). Mas é verdade, gente, eu me sinto absolutamente bem e de alto-astral em conexão com o mundo, mesmo sozinha em casa ou ilhada em um rincão qualquer. Claro que não cheguei ao cúmulo de substituir a net por relações sociais reais (as em carne e osso), nem as sexuais, óbvio! Mas admito: não vivo sem ela!

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Ah, consegui postar agora cinco dias depois de escrever este post e após uma visitinha à casa de amigos do amigo (consegui uma conexão, ufa!).

I Love Antônio Houaiss (1915–1999)

Pois é, não vivo mesmo, até porque adoro a minha língua-mãe, o português, que por muito tempo foi e tem sido um instrumento de trabalho, e o Houaiss (ou os congêneres) me deixa mais próxima dela.

Cheguei a um ponto que não estou escrevendo quase nada sem deixá-lo aberto – tenho uma versão eletrônica no laptop – para sanar aquelas dúvidas de grafia que sempre nos pegam. Já usei muito o Aurélio, mas talvez por ser particularmente fã do Antônio Houaiss, optei por ele (eu o acho um dicionário mais completo mesmo, é uma opinião pessoal).

Erros de portugueis I – “séquiço é ecencial

Peguei esse vício de minha época trabalhando com textos e não perdi mais. Acho que não é tão mau assim, num mundo que cada vez mais a gente escuta e lê coisas do tipo “estava meia cansada”, “eu não quero que filma o evento não” ou “você quer que eu pego”, ou mesmo músicas (e isso é ainda pior, porque forma opiniões) com “Eu tive que escolher entre eu e te perder”. Mas enfim, dia desses recebi um e-mail no qual havia os 50 erros mais absurdos de vestibulares, com grafias de palavras do naipe de “séquiço” e “ecencial”. Pára tudo né, gente!

Bem, mas e quando a gente está no MSN com aquele gato por quem estamos encantadas e ele dispara um brochante: “Mais agente vai se conhece ou não gata?”. Pois é, ninguém merece!

Não, não procuro houaisses ou aurélios para namoro, mas encontrar um certo alguém que pelo menos saiba “se defender” na escrita já estaria de bom tamanho. Se fosse pra escolher eu até preferiria um cara com uma aparência mais pra normal mas com um conteúdo legal, um papo mais substancioso, do que um saradão cabeça-oca – mas claro que se vier um nerd saradinho é melhor... (risos). A propósito, existe? Nem preciso dizer que desde esse encontro cibernético decidi dar um (bom) tempo às salas de bate-papo.

Como diz o ditado, canja de galinha – e escrever razoavelmente bem – não faz mal a ninguém!

Erros de portugueis II – Sexta-Feira gostar de...

Tenho uma conhecida muito gente boa que infelizmente não teve a oportunidade de concluir o Ensino Médio. Como ela perdeu a base de um bom ensino de português, ao sair do país casada para morar fora ela aprendeu um alemão macarrônico também, como língua de índio mesmo, do tipo: “Eu achar que ir a mercado hoje.” O fraseado de Sexta-Feira [de Robinson Crusoé] é fichinha!

Outro dia, eu e outro amigo até estávamos tentando ensiná-la algumas estruturas-chave da língua de Camões para melhorar a concatenação das frases dela no alemão, mas essa tarefa se mostrou ineficaz quando descobrimos que ela não tem noções básicas do que é preposição, artigo, objetos direto e indireto etc. Fonética então... Ou seja, ela até fala um português razoavelmente bom (com erros menores, que todos nós cometemos), mas não sabe o que é o quê na teoria, e isso dificulta o aprendizado de outra língua corretamente, já que é necessário saber as nomenclaturas para entender o uso da gramática.

Moral da história: ela não consegue avançar na escola onde está estudando alemão e por isso vai continuar falando o idioma de Goethe à Sexta-Feira.

Erros de portugueis III – Lei de Murphy

O erro mais engraçado e constrangedor que já vi foi o de uma copidesque de um jornal de cidadezinha de interior.

Era uma nota de falecimento que uma família tradicional decidiu pôr em homenagem à morte do patriarca, um político festejado da cidade. Eis a nota que tinha tudo pra ser inocente e acabou dando um rebu:
“(...) e que as portas do céu se
abram para recebê-lo!”
Sim, nada mais inocente e angelical que isso. Mas muito atarefada e acumulando mil atividades – que iam de redatora a faxineira – num jornalzinho de cidade pequena, e além de tudo recebendo um salário inglório, a revisora esqueceu justamente o “é” de céu. Em suma, nem preciso transcrever como ficou o texto final nem o qüiproquó que isso causou com a impressão de milhares de jornais com o erro, culminando na demissão da pobre moça, que antes teve que ouvir o diabo do chefe.

Seria cômico se não fosse trágico!

Erros de portugueis IV – qualidade é fundamental

Uma estratégia muito interessante que peguei de uma amiga de trabalho e que virou vício (positivo) foi fazer textos longos primeiro no Word, depois copiar e colar onde quero. Isso me economiza muito e me traz qualidade, pois posso fazer o texto em fontes maiores, já que sou meio aérea e míope (risos), além de corrigi-los e revisá-los eletronicamente, arquivá-los para pôr depois, reeditá-los ao meu bel-prazer et cetera e tal.

Claro que o resultado nem sempre é 100% porque aqui e acolá um errinho sempre passa, até porque às vezes estou corrida e dou uma batida de olho apenas. Mas confesso que isso facilitou muito a minha vida (isso e um dicionário eletrônico aberto).

Qualidade é fundamental!

02 Setembro, 2008

Que nomenclatura usar?

Sei que é estigmatizante, mas até que gosto do termo “trans”, porque parece um apelidinho carinhoso. Na verdade não gosto dele nem tanto para se referir a pessoas, mas mais à causa, a coisas do tipo “filme de temática trans”, “festival de cultura trans” etc.

Nos EUA e na Europa é bastante usado e aparentemente não carrega tanta carga negativa. Mas muita gente ainda o acha ofensivo. A militante Guta Silveira diz algo engraçado a respeito: “Sou transexual e não trans. Trans é uma gordura saturada!” A verdade é que o termo tem mesmo um “ar” sexual e marginal por ser usado sem fronteiras e por uma população muito plural.

Mas voltando às nomenclaturas, a designação “transex” para mim é a pior, a mais carregada de estigmas de todas. Mas, falem sério! Esse é um termo bem típico de páginas de anúncio sexual ou de revista de fetiches, não? Por isso, transexual – com todas as letras – ainda é, na minha opinião, o termo menos pesado e mais neutro para nos designar, já que os outros (disfórico(a), neurodiscordante de gênero etc.) parecem muito patologizantes.

Nem Freud explica

Outro dia vi um perfil no Orkut que me tirou muitas gargalhadas pela originalidade e perspicácia de quem o fez. Não sei se conseguirei reproduzir aqui, pois infelizmente o perfil foi apagado, mas era algo assim:

“Transexual, mulher transgênica, disfórica, neurodiscordante de gênero... ih, são tantos termos esquisitos para nos designar que acabamos por ficar confusas e deixar todos confusos. E ‘mulher operada’ [em oposição à genética] então? Esse é ainda pior! O fato é que somos na verdade mulheres que nasceram com uma incompatibilidade mente-corpo e isso nos faz buscar a tão (...)”

E assim o texto discorria muito engraçado e criativo mesmo, provavelmente feito por um perfil fake de uma pessoa não-transexual que queria tirar – inteligentemente e sem danos a ninguém – um sarro das nomenclaturas que a sociedade nos impinge.

Parabéns ao autor desconhecido pela genialidade e senso de humor!

Orgulho de ser brasileira (de volta!)

Foi com muita alegria que li há poucos dias a tão sonhada notícia de que o Sistema Único de Saúde - SUS iria executar operações de redesignação de sexo (popularmente conhecidas como “mudança de sexo”, termo que não é nada politicamente correto), assim como arcar com todos os cuidados do pré e pós-operatórios.

Até que enfim nós conseguimos alguma dignidade e respeito de nossa pátria, que antes era uma pátria madrasta, que não reconhecia alguns de seus filhos e filhas mais singulares. Teve até uma época em que eu quis ser como Walter Mercado, apátrida – mas sem o ligue djá, claro! (risos). Imaginem nascer em algum barco cruzando o Triângulo das Bermudas, como ele... chique, né? Mas, voltando ao tema, os tempos mudaram e as mentes do comando da nação estão evoluindo junto e ficando em sintonia com a nova ordem mundial: respeito e atenção às minorias e à diversidade. Estou em paz de novo com a Terra Brasilis. Ufa!

O engraçado é que tem muito leigo de plantão dizendo coisas do tipo: “Quem quiser cortar o bilau fora que corte, o SUS não deveria pagar esse absurdo!” Coisas como essas nem deveriam ter respostas, pelo absurdo do raciocínio, mas eu vou comentar brevemente a seguir.

Então quer dizer que existe alguém em sã consciência neste mundo que desejaria “cortar” uma parte do corpo fora por puro capricho ou prazer? Quem é este louco?? O fato de, por exemplo, uma transexual* mentalmente sã, produtiva, na maior parte das vezes bem integrada na sociedade, na sua comunidade e profissionalmente querer adequar seu sexo biológico ao mental é óbvio que não é um capricho, até porque a operação é irreversível e todo procedimento de transição de gênero é tudo menos uma brincadeira, tampouco algo fácil ou prazeroso. Isso é, sim, uma questão de saúde mental, principalmente porque está comprovado cientificamente que a única cura para a transexualidade é a adequação do físico ao mental (já que o contrário provou ser humanamente impossível nesses casos). Além disso, somos brasileiros que pagam impostos e têm garantidos na Constituição os mesmos direitos ao atendimento médico-hospitalar público que qualquer outro, independentemente de alguém achar que nosso problema é menor ou maior.
Ah, e antes que eu esqueça: não vi nenhum intelectual ou acadêmico ser abertamente contra a iniciativa do SUS. Comentários que remam contra a maré do progresso têm vindo de pessoas leigas ou “comunicadores sociais” desinformados, geralmente de veículos mais sensacionalistas.
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(*) Tenho me referido quase sempre no feminino por dois motivos: (a) em virtude de o blog ser feito na primeira pessoa, e (b) para evitar deixar o texto pesado com menções do tipo "os(as) meninos(as) interessados(as)" toda vez que falar de transexuais – e suponho que vão ser milhares. Sendo assim, no contexto está sempre subentendida, ou mesmo clara, a menção (e o respeito) aos meus irmãos FtM (transexuais homens). Este blog é também para eles, e vez por outra postarei assuntos interessantes pertinentes ao universo deles.

Procuram-se ‘Susans’ desperadamente!

Sei que vou ser criticada (e também elogiada por alguns) pela sinceridade do que vou escrever agora, mas não consigo deixar de questionar isso: onde estão as transexuais mais letradas, as que não querem só mostrar curvas, peitos e fazer caras e bocas?

Eu conheço (virtualmente) muito poucas, muito poucas mesmo. Talvez não porque sejam raras, mas mais porque querem manter o anonimato e sair do estigma “trans”. Para ser sincera, lembro agora só de meia dúzia, duas das quais irmãs do além-mar, portuguesas. Mas onde estão elas, as outras, e por que se escondem tanto?

Yes, we don’t have only bananas!

No mundo anglófono há muitos textos, blogs, sites de transexuais famosas, bem-sucedidas, articuladas e integradas no meio mais intelectual... e que se assumem, vendem uma imagem positiva para a sociedade. Temos a cientista Lynn Conway, a empresária Andrea James, a atriz Candis Cayne, a política neo-zelandesa Georgina Beyer, entre outras tantas. No mundo de língua portuguesa isso infelizmente é ainda uma raridade. Temos ou tivemos ícones como La [Roberta] Close, Thelma Lipp e Nádia Almada, por exemplo, mas todas ficaram mais famosas por seus atributos físicos do que por uma atuação mais político-intelectual na sociedade.

Claro que por isso elas não deixam de ter seus méritos, já que de algum modo trouxeram visibilidade para o mundo transgênero e com isso algumas conquistas político-sociais menos aparentes.

Por exemplo, o fato de Roberta Close, que é uma figura hiperpública, ter conseguido mudar de nome e status civil serviu inegavelmente como jurisprudência para outros casos de meninas transexuais no Brasil. Mas, aparentemente, a fama dela e o impacto que o ganho de sua causa teria sobre as leis antiquadas e machistas de nosso país foram dois dos motivos que fizeram o processo dela ser indeferido várias vezes e mesmo se arrastar por tantos anos, apesar de ela já ser uma mulher completa (operada) quando fez o primeiro pedido de retificação.

Caras... e bundas

Mas o Orkut em si está cheio de meninas transexuais mostrando caras, bocas e bundas, e poucas, muito poucas, com um perfil mais convencional e sério.

Não sou contra a liberdade de expressão nem acho justo ter preconceito contra quem quer ser mais ousada ou libidinosa, há espaço pra todas. Mas convenhamos que bancar a Marilyn Monroe traz junto o clichê “objeto sexual”, e obviamente isso não é tão positivo para a coletividade trans, já que só reforça o estigma, o preconceito e a marginalização. Agindo assim, dá a entender que ser transexual é ser venal, ser um produto pronto para o consumo, “delivery”, sexo fácil e sem compromisso. Tanto é assim, que parte da sociedade nos encara como pessoas lascivas e de conduta reprovável, além de um sem-número de outros adjetivos nada apreciativos, que eu, por exemplo, não gostaria nada de ter que carregar, para além das tantas cargas que já temos nesta vida... E o pior: todas entram no mesmo saco, mesmo as que optam por uma vida mais tranqüila, dentro do que é tido como padrão (integradas na sociedade como professoras, médicas, artistas, advogadas etc.).

Alguma luz no fim do túnel trans
(pois toda generalização é burra, sim!)


Uma vez estava assistindo à TV e vi uma entrevista inteligentíssima [para Astrid Fontenelle, ainda na Band] com a advogada e promoter transexual Ludmylla Pimentel. Foi um momento ímpar em que eu me senti muito orgulhosa em ver a articulação e os pontos de vista dela, a maneira como ela encara o fato de ser trans. Confesso que vê-la entrando em muitos lares brasileiros e passando uma imagem superpositiva dos transgêneros com sua eloqüência e filosofia foi uma injeção de ânimo na minha própria (trans)sexualidade, ainda mais quando quase sempre nós só vimos à tona por casa de Parada Gay ou Gala Gay (que deixam a sensação de que tudo são plumas e paetês e que brain que é bom nóis num have).

Desculpem, mas ver uma trans ser advogada ou professora ainda não é padrão, é exceção mesmo. Precisamos de mais exemplos como esses, até mesmo porque uma trans fazer calçada é o que a sociedade espera como óbvio e normal. Quando fugimos desse estigma viramos excentricidade, até estranham – e nós mesmos estranhamos. São pessoas como a Ludmylla que me dão orgulho de ser o que sou, de continuar firme e forte nesse caminho duro de ser “a menos usual, a diferente”.

A propósito, por onde ela andará? A última vez que ouvi falar foi que ela estava desesperadamente procurando emprego, mesmo ela sendo uma advogada e promoter muito bem articulada, obrigada! Mas como?? Ninguém dá oportunidade a ela por ser trans? Parem o mundo que quero descer já!

Por isso resolvi escrever este post, que é meio que um grito de chamamento a todas. Já está na hora das transexuais que vivem de forma mais convencional sair do “armário” e se mostrar (positivamente) através de sites, blogs, perfis, mídia etc., até para que a sociedade comece a mudar os conceitos sobre nós, ver que toda generalização é burra sim, como disse Nelson Rodrigues.

A última vez que vi transexuais e travestis na mídia foi de supetão no SuperPop, e nem preciso descrever aqui o que vi e senti. E fica aqui a pergunta: a que serve aquele tipo de exposição? Quem, além do SuperPop, ganha com aquilo?

Em tempo: nada contra as meninas que fazem prostituição, há lugar para todas as funções nos mundos gay, hétero, trans... mas queremos também ver o outro lado da moeda, mostrar que há todas as nuances nessa paleta transexual, que podemos estar bem representadas da faxineira à presidente, até porque com a queda do clichê todas se beneficiarão. Portanto, transexuais que levam uma vida comum, mostrem-se mais, mostrem onde vocês estão e o que fazem.

Por que voltei a blogar?


Sabe que nem sei responder exatamente essa pergunta? Ok, vou tentar.

Na verdade (acho que) decidi voltar a blogar por três motivos principais: o primeiro foi um chamamento interno mesmo, uma vontade de escrever, uma verborragia mais forte que eu, jogar assunto pra fora.

O segundo foi por ver que já há algumas – bem poucas – meninas transexuais (e meninos também) com blogues legais, com conteúdo interessante e rico em português, e isso foi um impulso.

O terceiro motivo – aparentemente mais nobre – foi ser mais uma gota d’água nesse deserto de carência de assuntos sobre transexualidade na internet de língua portuguesa. Se para meninos e meninas transexuais que sabem inglês já é difícil (pois o inglês ainda é e talvez sempre seja a língua da internet, já que os melhores textos, artigos, matérias, entrevistas... estão nesse idioma), imaginem para quem depende de conteúdo em português para se inteirar, guiar e transicionar... não há quase nada substancioso, exceto a iniciativa da cientista transexual Lynn Conway.

Além desses três fatores, há também aquele meio pretensioso de achar que o que a gente escreve vai servir de algum modo a alguém (?) que está em situação semelhante, ou que alguém vai se identificar com aquilo.

Na verdade, no fundo decidi blogar mesmo para jogar para fora tudo o que estou sentindo nesta minha fase, as mudanças físicas e mentais (de uma transição de gênero), os anseios, as expectativas, os ganhos e as perdas, o que é tudo muito óbvio se considerarmos toda essa transformação por que passo no momento.

Também, acho que blogar é de certo modo ter confidentes anônimos, divertir-se, além de a gente se atualizar, pois está sempre procurando “a pauta” para o próximo post.

La vie : ça dépend de l’humeur

Mas decidi que blogarei aqui com intervalos regulados pelo humor e/ou pela inspiração. Portanto, posso voltar aqui diária, semanal ou mensalmente. Enfim, Deus proverá! [risos]

"Ninguém nasce mulher, torna-se mulher."

.......................[[Simone de Beauvoir]